O país real desafiou certezas e ilusões normativas em

O país real desafiou certezas e ilusões normativas em 2025 – 30/12/2025 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

Esta poste de fechamento de 2025 é uma retrospectiva. Não dos fatos do ano, mas das preocupações que orientaram nossa navegação por eles —sobretudo daquelas ligadas à informação política e aos dilemas da democracia brasileira, searas em que me atrevo a opinar.

Ao longo dos meses, diferentes episódios, sob formas variadas, foram sendo lidos —noto agora— à luz de um mesmo campo de problemas: autoritarismo, radicalização eleitoral, crise do pluralismo e dificuldades crescentes de governar e disputar legitimidade em um envolvente polarizado.

Logo no início do ano, já era evidente que a informação política não seria um tema lateral, mas um teste da capacidade efetiva de governar sob ataque. A incapacidade do governo de antecipar crises, reagir rapidamente e disputar percepções —uma vez que no incidente do Pix— revelou vulnerabilidades profundas em sua informação. Ao mesmo tempo, a persistência do bolsonarismo indicava que a conquista do imaginário brasílico pelos radicais não havia sido superada.

Fora do país, o quadro se repetia, com variações locais. Trump e a extrema direita europeia e sul-americana mostravam que não deveriam ser tratados uma vez que desvios exóticos ou acidentes históricos. Impunha-se a constatação incômoda de que o autoritarismo se tornara uma escolha política racional, com base social, estratégia definida e expectativas eleitorais concretas. Em 2025, abandonamos o choque com a eleição de líderes que desprezam normas civilizatórias e passamos a nos indagar por que parcelas expressivas do eleitorado desejam exatamente esse tipo de liderança.

Tornou-se necessário desabitar a simplificação. Não existe uma extrema direita única. Populistas de direita compartilham traços, mas diferem em estilo, relação com instituições, base social e proporção de radicalização. Compreender essas diferenças não é manobra acadêmico, mas requisito para estimar os custos, os limites e as vulnerabilidades.

À medida que o ano avançava, a atenção foi se deslocando cada vez mais para dentro do campo democrático. Um problema passou a se realçar: a erosão do pluralismo. À direita e à esquerda, cresce a dificuldade de conviver com o dissenso uma vez que elemento legítimo da democracia. A tentação de doutrinar, reeducar ou silenciar o outro —em nome de valores tradicionais ou da justiça— torna-se recorrente. A política vai sendo empurrada para um registro moralizante, no qual verdades consideradas inegociáveis substituem a disputa entre projetos.

Nesse ponto, nos deparamos com as fragilidades democráticas da esquerda. Não por simetria fácil com a extrema direita, mas por um dilema próprio. Sempre que a paridade social é colocada supra da paridade política, das liberdades civis e do repúdio inequívoco ao autoritarismo, a credencial democrática se enfraquece. O esteio ou a complacência com ditaduras “amigas”, a racialização da moralidade e a atribuição coletiva de culpa não são unicamente incoerências normativas, mas passivos políticos com cimo dispêndio eleitoral.

Em paralelo, tornou-se impossível ignorar o autoengano progressista quanto à reciprocidade de forças. Confundir influência em elites culturais, acadêmicas e jornalísticas com maioria social levou a uma leitura equivocada do país. O Brasil é, de indumentária, mais conservador, mais hostil ao identitarismo e menos indulgente com certos enquadramentos morais do que muitos imaginam. A extrema direita conseguiu até mesmo ocupar o imaginário da rebeldia, da impugnação e da ruptura, apresentando-se uma vez que força antiortodoxa —ainda que, na prática, opere com métodos autoritários.

Ao final dessa travessia, uma risco se impõe: a democracia entrou numa período em que já não basta ter razão normativa. É preciso compreender o terreno político concreto, os afetos dominantes, as expectativas frustradas e os limites reais da competição eleitoral. Autoritarismos de direita não crescem unicamente porque mentem ou manipulam, mas porque oferecem diagnósticos, identidades e promessas que fazem sentido para sociedades inseguras e desconfiadas.

É com esse quadro que chegamos a 2026. Um ano eleitoral em que a disputa não será unicamente por votos e programas, mas por interpretações da veras e por quem consegue parecer mais legítimo e mais conectado ao país que existe —e não ao país que gostaríamos que existisse. Aos leitores que me acompanharam nessa navegação ao longo de 2025, e à própria democracia brasileira, fica o libido de que o próximo ano traga mais lucidez, mais disposição ao dissenso urbano e menos ilusões confortáveis. Um feliz Ano-Novo.


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Folha

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