O que é arte? como a ia provoca curto circuito

O que é arte? Como a IA provoca curto-circuito – 18/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ruas destroçadas, casas em chamas e pessoas em fuga. Esse era o cenário caótico do sismo de Kanto, um potente terremoto que atingiu o Japão por mais de quatro minutos em 1923, transmitido em minúcias em “Vidas ao Vento”, filme do rabi da animação Hayao Miyazaki. Uma cena de quatro segundos, em que uma turba tenta evadir de um vilarejo incendiado, demorou mais de um ano para ser feita.

O esmero de Miyazaki fez a notabilidade do Ghibli, estúdio de animação japonesa cofundado por ele. Mesmo em tempos de computação gráfica e 3D, suas histórias desenhadas à mão, quadro por quadro, conquistaram fãs fiéis pelo mundo todo. Eles se revoltaram quando milhares de imagens com o estilo do estúdio foram geradas por lucidez sintético e compartilhadas à exaustão nas redes sociais.

A trend, porquê é chamada uma tendência viral nas redes sociais, não se limitou a inflamar o debate entorno da propriedade intelectual na era da lucidez sintético. A discussão se expandiu para um dilema filosófico —é verosímil fazer arte com IA ou a tecnologia é uma prenúncio à geração?

A coisa escalou a tal ponto que a OpenAI, empresa que comanda o ChatGPT, não reproduz mais o estilo de artistas vivos ou que tenham obras protegidas pela lei de propriedade intelectual. As regras variam de país em país —no Brasil, um trabalho cai em domínio público unicamente 70 anos em seguida a morte de seu pai.

Já não é mais verosímil pedir à instrumento para transformar o retrato de uma pessoa num traçado de qualquer artista. A reportagem fez testes com nomes porquê Romero Britto, Mauricio de Sousa e Fernando Botero, por exemplo. Questionada pela Folha sobre o caso, a OpenAI disse as restrições foram aplicadas de forma automatizada e manual, sem dar mais detalhes. “Todo teor gerado pelo DALL-E e pelo ChatGPT deve estar em conformidade com as Políticas de Uso da OpenAI, que proíbem infrações de direitos de propriedade intelectual ou deturpe o teor criado por quidam ou artista específico”, respondeu, por e-mail, a empresa.

Fora das telas, cada vez mais artistas plásticos estão levando a museus obras feitas com IA. Mayara Ferrão, por exemplo, usa a instrumento para produzir fotografias antigas de mulheres negras e indígenas trocando carícias e beijos, porquê se gerasse a memória de um pretérito queer nunca registrado. O trabalho fez segmento da mostra “Histórias LGBTQIA+”, no Museu de Arte de São Paulo.

Já o coletivo Forensic Architecture, que estará na próxima Bienal de São Paulo, usa IA para destruir e reconstruir edifícios em zonas de guerra, violência e crise climática, mirando a denúncia das condições de vida da população nesses lugares. No Brasil, há ainda o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, o File, devotado a expor, uma vez ao ano, obras de artistas que criam com tecnologia.

Mas há diferença entre a trend do Ghibli e trabalhos porquê os de Ferrão. Para a sátira de arte Giselle Beiguelman, é preciso diferenciar uma tendência, ou seja, alguma coisa que é repetido massivamente por usuários nas redes sociais, de uma obra de arte. “Essas trends têm uma fórmula aplicada ingenuamente, porquê antigamente existiam filtros no Photoshop para imitar Andy Warhol —e você não virava um Andy Warhol só por justificação disso”, diz.

O processo de geração artística com IA envolve etapas complexas, segundo a perito, e é premeditado. “Você confronta a máquina e é preciso conciliar os comandos em função da geração que está sendo desenvolvida. Não é só digitar qualquer coisa.”

Uma vez que qualquer instrumento, quando usada de forma superficial, a IA não é capaz de gerar alguma coisa interessante ou inovador, acrescenta Renato Gonçalves, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a ESPM, e responsável do livro “Cr(IA)ção”. Por isso, ele diz, o repertório do artista segue necessário. “Você tem que saber de direção de arte, de pose, enquadramento, câmera, lente. Se não souber dominar a máquina e fizer perguntas muito básicas, vai permanecer sempre com um resultado muito capital”, ele afirma.

Nesse caldo há, ainda, a discussão a saudação de recta autoral, um entrave generalidade na produção artística com IA. Em casos porquê o do Ghibli, em que o estilo e a proposta da imagem gerada remetem diretamente ao original, é mais fácil identificar uma infração. É o caso ainda da Turma da Mônica, que também teve seu estilo copiado de forma viral por internautas, com o ChatGPT, em maio. Qando a instrumento copia de forma irrecusável o estilo de um artista, as empresas de IA podem ser responsabilizadas por infração de propriedade intelectual, diz Cristiane Olivieri, advogada perito em recta cultural.

Mas trends porquê essas são unicamente uma pequena fração do que vem sendo produzido com a tecnologia, e na maioria dos casos é impossível identificar o que foi utilizado porquê base para produzir alguma coisa novo, já que IA se alimenta de várias obras que estão na internet, protegidas ou não, e faz uma mistura delas.

Esses casos são uma justificação perdida, diz a advogada. A apropriação já é legitimada no mundo da arte, com exemplos incontáveis pela história, entre eles colagens de Pablo Picasso em suas pinturas ou os trabalhos de Andy Warhol, que criou serigrafias coloridas a partir de fotografias de astros porquê Prince clicadas por outros artistas.

Mas essa é uma discussão que ainda não está pacificada, sobretudo quando a obra tem fins comerciais. Tanto é que a Instauração Andy Warhol foi processada pela fotógrafa que retratou Prince. Seu trabalho foi usado por Warhol para a produção de serigrafias que estamparam uma cobertura da revista americana Vanity Fair. O caso teve desfecho só no ano retrasado, quando a Suprema Golpe dos Estados Unidos concluiu que a serigrafia tinha “substancialmente o mesmo propósito” da retrato e que Warhol violou os direitos autorias da artista.

Para além dos conflitos jurídicos e éticos, há uma discussão estética. Os próprios artistas divergem, por exemplo, no que pensam sobre o fazer artístico e porquê a IA pode atrapalhar ou contribuir com a sua geração.

A quadrinista Helô D’Ângelo teme que a contratação de artistas diminua se a IA virar tendência, ou que a arte se torne pasteurizada, sem identidade própria. “Se eu delegar para uma máquina, eu, enquanto profissional criativa, não faço sentido de viver”, diz. “Segmento importante de produzir arte é a experimentação, o erro. Testar materiais, cores, se sujar, fazer bagunça. A IA tira isso da gente”, diz.

Há quem discorde. Gustavo Von Ha, artista que usa IA em seus trabalhos, diz que a tecnologia zero mais é do que uma instrumento que combina símbolos de conformidade com os comandos do pai —em outras palavras, ela não exclui a experimentação humana.

Ele cita porquê exemplo “Von Britney”, uma animação de sua autoria que faz segmento do ror do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. É um vídeo pequeno com fundo cromatizado e uma foto de Britney Spears que virou meme nos anos 2000. A laia da cantora muda até se transformar num autorretrato de Von Ha. A teoria era questionar a individualidade na era da internet.

“Nenhuma máquina está disposta a mourejar com o fracasso, com o erro. Nós lidamos com a angústia existencial, com o promanação, desenvolvimento, as perdas, dores, alegrias e os amores”, diz Von Ha.

A tecnologia, no entanto, pode ser estimulada a mourejar com a falta a partir do momento em que ela é estimulada por um ser humano para produzir outras versões de um mesmo trabalho, por exemplo. O cineasta Bennett Miller, por exemplo, expôs na galeria suíça Gagosian 20 imagens feitas com IA, mas, para chegar a essa seleção, gerou e modificou mais de centena milénio ilustrações.

Um dos nomes mais notórios no debate sobre o uso de IA na arte, Ted Chiang, um renomado redactor americano de ficcção científica, diz que casos porquê os de Miller são exceção. Ele opina que as ferramentas porquê ChatGPT não são criadas para esse tipo de uso.

Chiang diz, em um texto na revista The New Yorker, que, partindo do pressuposto de que fazer arte é tomar decisões, a tecnologia, ao fazer suas próprias escolhas, está substituindo o trabalho do artista. Ao passo que um redactor toma ao menos uma decisão para cada uma das palavras que escreve, ele diz, o artista que manipula a IA faz infinitamente menos escolhas.

Há, por termo, um debate sobre a democratização do fazer artístico. Enquanto alguns especialistas avaliam que, com a IA, ficou mais barato e conseguível fazer uma ilustração ou uma música, há quem diga que é preciso remunerar demais para tirar proveito da instrumento —controlada por poucas empresas, que não deixam simples porquê alimentam a base de dados da tecnologia. Se encontrar definições jurídicas e estéticas para arte já era uma dor de cabeça no meio criativo, a IA põe em curto-circuito repostas fáceis.

Folha

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