O sertanejo, a autoajuda e a ajudinha do Estado

O sertanejo, a autoajuda e a ajudinha do Estado – 30/01/2026 – Gustavo Alonso

Celebridades Cultura

Na semana passada uma polêmica tomou conta de Sergipe. No dia 20 de janeiro o cantor Leo Chaves realizou uma palestra no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju, durante a preâmbulo da “Jornada Pedagógica da Rede Pública Estadual de Ensino 2026”. A fala custou aos cofres públicos R$143 milénio.

No mesmo dia da fala do cantor Leo Chaves no evento em Aracaju, professores e gestores sergipanos assistiram a uma palestra virtual do professor Mário Sérgio Cortella, famoso nas redes sociais, que recebeu R$53.900 dos cofres estatais. O tema da palestra foi “Do pavor à ação: porquê transformar a tecnologia em aliada na sala de lição”. O cantor sertanejo palestrou sobre “A grande arte de se reinventar”, título de um de seus livros.

Leo Chaves é parceiro do irmão na dupla Victor & Leo, nacionalmente famosos desde pelo menos 2006. O irmão Victor Chaves foi o maior arrecadador de direitos autorais por quatro anos consecutivos (2009 a 2012). Grandes sucessos porquê “Borboletas”, “Tem que ser você” e “Deus e eu no sertão”, cantados na voz de Leo Chaves e seu irmão, construíram a sensibilidade das multidões nacionais e elevaram o nível da música sertaneja.

Em 2018 o irmão Victor Chaves viveu um escândalo na vida privada que extravasou para a vida pública. Imagens de segurança do elevador do condomínio onde ele morava com a esposa e familiares captaram cenas de violência doméstica. O cancelamento de Victor levou a uma pausa na curso da dupla, que se encontrava no ar porquê jurados do programa The Voice Kids, da Orbe.

Foi nesse momento que Leo Chaves viu-se na premência de se reinventar. Além de cantor, Leo era proprietário de uma quinta de geração de mancheia em Uberlândia (MG). Mas isso não era suficiente, e ele resolveu tornar-se palestrante motivacional. Para isso estudou e escreveu um livro.

O livro “A grande arte de se reinventar: As 7 habilidades que podem mudar a sua vida” foi lançado em 2019 com prefácio do historiador Leandro Karnal, outro famoso palestrante. Trata-se de um típico réplica da autoajuda pátrio, com hipóteses individualistas e voluntaristas.

Na introdução até parece que o livro poderia dar uma ótima autobiografia, pois Leo parece disposto a averiguar seus tropeços ao longo da vida: “Durante minha jornada, muitas vezes eu sonhei com a glória, com o melhor carruagem e com uma bela mansão, pensando que a partir disso estaria plenamente feliz. Entretanto, zero disso me trouxe tanta realização”.

Mas qualquer estudo aprofundada dos dilemas de artistas sertanejos, de uma vida artística complexa, de cancelamento de familiares, da trajetória do barzinho à glória pátrio, se esvai nas saídas simples e oração abstrato que Leo Chaves constrói em seu livro.

Da notória tensa relação com o irmão, quase zero é falado. Unicamente cinco citações genéricas. Leo não quer averiguar o mundo ao volta, exclusivamente falar de sua abstrata transformação, sem dar nome aos bois. Numa viagem ególatra típica da autoajuda, diz que quer ter “lucidez de transformar tudo à sua volta e de influenciar positivamente as pessoas a partir do seu pensamento e da sua visão”.

Leo não quer saber de mudanças estruturais: “Não cabe uma proposta de mudança coletiva, porque cada um de nós precisa primeiramente produzir uma transmutação em si mesmo”, afirmou em seu livro.

Porquê palestrante, Leo pode vender o que quiser. O problema surge quando leste tipo de teor é comprado por agentes públicos. Respondendo às críticas, a Secretaria de Instrução de Sergipe afirmou que Leo Chaves é “amplamente reconhecido em contexto pátrio”. E que “o palestrante possui atuação consolidada em eventos educacionais, corporativos e sociais destacando-se por uma metodologia própria que articula vivência, prática, sensibilidade humana e notícia inspiradora”. A especialização referida é um “bacharelado em Coaching pela Florida Christian University e formação em Pedagogia”.

Em seu livro, Leo se diz certificado em programação pessoal pela Sociedade Brasileira de Neurolinguística. Nos últimos anos afirma que vem se aprofundando nos estudos de lucidez emocional, gestão da emoção, filosofia, instrução familiar e escolar, coach e pedagogia. Haja reinvenção para dar conta de tanta coisa!

Mas o que faz um órgão estatal gastar o equivalente a mais de dois anos de salário de um professor estadual em prelúdios de curso com uma palestra de uma hora e 40 minutos? A contratação foi feita sob regime de inexigibilidade de licitação. O argumento é que, porquê não há dois produtos iguais no mercado, no caso a palestra de Leo Chaves, o Estado se vê obrigado a remunerar o preço pedido.


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Folha

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