'o ultimo episódio' brinca com final de caverna do dragão

‘O Ultimo Episódio’ brinca com final de Caverna do Dragão – 11/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Das séries de televisão que não chegaram ao término, “Caverna do Dragão” talvez seja uma das mais famosas. Lançada em 1983, a animação segue um grupo de amigos que é transportado para uma terreno de fantasia e vive aventuras sob os cuidados do Rabi dos Magos, mago que detém antigos conhecimentos.

A atração durou três temporadas e sua desenlace nunca foi exibida. Entre as teorias que se espalham até hoje pelas redes, surge o brasiliano “O Último Incidente”. O longa da produtora Filmes de Plástico torna o capítulo último na estratégia de Erik, garoto de 13 anos que procura ocupar a moçoila dos sonhos.

O ano é 1991 e o projecto entra em ação no bairro de Jardim Laguna. É onde o jovem, papel de Matheus Sampaio, apronta com os melhores amigos, Cassinho, vivido por Daniel Victor, e Cristão, interpretada por Tatiana Costa, e se apaixona pela recém-chegada Sheila. Ele descobre que a pequena patroa o esboço e diz ter uma das raríssimas cópias do final. Resta aos três usar a originalidade e filmar a sua versão.

“Vejo no Eric essa força de fabulação. É mal ele vê o mundo e fala com as pessoas. Existe ainda uma vontade de dominar as coisas e estabelecer suas ideias sobre tudo. Sinto que eu era igual quando petiz e talvez preserve isso até hoje. Mas espalhei o meu lado sonhador entre todos os personagens. Só assim eu seria capaz de retratar uma idade”, afirma o diretor, Maurílio Martins. Com recta a arquivos de sua puerícia e rodado onde cresceu, ele diz que o projeto é “semi-biográfico”.

Com uma gravadora antiga em mãos, herdada pelo protagonista, o trio junta tábuas de madeira, figuras de cartolina e a periferia de Minas Gerais ao fabricar situações para os discípulos do Rabi dos Magos. Mas a trajetória hipotética da animação importa menos que a das crianças de músculos e osso.

Seja pela mãe religiosa que não compreende o fruto Cassinho, seja pela falta da figura materna, que mora nos Estados Unidos, na vida de Cristão, a juventude retratada enfrenta ruídos. O mais imponente dos atravessamentos, uma vez que Martins os descreve, é a morte precoce do pai de Erik. Além de memórias passageiras, o menino se apega a vídeos deixados para trás.

“Meu pai morreu em 2003. Fui o último a conversar com ele. Falamos sobre roteiros, sobre a geração de narrativas. Mesmo quando não é proposital, meus projetos acabam sendo demarcados por essa falta. Eu sempre tive muita dificuldade em falar sobre isso”, diz Martins, quase às lágrimas.

“Mas percebi estar lidando melhor com a situação. Sinto que o cinema é uma forma de remediar minhas dores. Meu pai e minha mãe aparecem em cena, em fotos. Foi a primeira vez que homenageei a memória dele e coloquei uma de suas fotografias.”

Partidas de futebol, aniversários e eventos escolares tomam as imagens da vida do cineasta. O efeito é o contraste entre a nitidez das cenas de ficção e a textura granulada do pretérito. A construção da obra também foi marcada por oposições. Realizado na pandemia, o set reunia o calor típico da Filmes de Plástico e os cuidados impostos pelo isolamento social. Numa idade de fragilização das políticas culturais, o filme nasceria quatro anos depois.

Outro tópico sensível da produção vem de Thiago Macêdo Correia, produtor com quem Martins divide o roteiro. Das tarefas de lar às gravações de “Caverna do Dragão”, o trio também se preocupa com apresentações do escola. Aficionado por música, Cassinho se prontifica a ortografar uma letra original. É uma maneira de desafogar sobre a sua identidade sufocada.

Varão gay, Macêdo Correia assina a cantiga e é um dos quatro sócios da produtora de Narração. Criada por ele, Maurílio, André Novais Oliveira e Gabriel Martins, a produtora independente celebrou uma dezena e meia em 2024. Foi o mesmo ano em que o grupo lançou sua própria distribuidora, a Malute, e inaugurou uma novidade tempo ao lançar a premiada comédia romântica “O Dia que Te Conheci”, de Novais Oliveira.

Embora “O Último Incidente” mergulhe em outro gênero nunca antes explorado pelos realizadores, Macêdo Correia explica que a trajetória é procedente. Não faz segmento de uma tentativa de reinventar o quarteto, cujas credenciais, principalmente os primeiros curtas, são estudadas por diretores em formação.

“Supra de tudo, nós somos do público. Nossa felicidade em fazer cinema vem do veste de que podemos produzir o que gostaríamos de ver. Diante do que tem sido feito no Brasil, nos parece legítimo falar sobre o que nos interessa. Os nossos projetos são sempre motivados pelo que vem de dentro, nunca por uma taxa ou pela vontade de simplesmente suprir um pouco que ainda não fizemos”, afirma o produtor.

Ele diz que “Marte Um”, lançado em 2022, ajudou a Filmes de Plástico a atingir um público além do habitual por coincidência. Dirigido por Gabriel —que participa de “O Último Incidente” uma vez que professor da rapaziada—, o longa acompanha o dia a dia de uma família do interno mineiro. Aluno devotado, Deivinho, o caçula, sonha em visitar o espaço sideral. Sua imaginação é tão fértil quanto a de Erik.

“‘O Último Incidente’ abriu minha cabeça. Percebi que estar num filme é mais do que treinar o seu papel profissional, mas viver as histórias e as emoções que o cinema merece”, diz o ator Matheus Sampaio, que filmou o projeto aos 13 anos. Hoje, com 17, ele se prepara para iniciar a faculdade de cinema. Quem sabe um dia fará seu próprio final para o Rabi dos Magos e os seus discípulos.

Folha

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