Era término de tarde em Copacabana. Numa panificação, dois clientes riam enquanto falavam sobre morte. Um varão pediu um moca coado para debater com a colega o homicídio de outra mulher, uma que nem existe. Ou que talvez exista, de tão viva que ainda está na cabeça dos brasileiros —Odete Roitman.
Mais emblemática das vilãs, a megera da romance “Vale Tudo” tinha hora marcada para maltratar as botas —por volta de 22h desta segunda-feira, quando acabasse o capítulo do remake exibido no horário transcendente da Orbe neste ano.
Há tempos um folhetim não virava conversa de rua. Tamanha expectativa culminou no capítulo mais visto desde a estreia da romance. Segundo o Kantar Ibope, foram 31 pontos de audiência na Grande São Paulo, principal mercado publicitário para a televisão no Brasil, e 38 no Rio de Janeiro.
No Quadro Vernáculo de Televisão, o PNT, que mede a audiência nas principais cidades do país, 52% dos televisores que estavam ligados no momento estavam sintonizados na Orbe. Comparações diretas são um tanto frágeis, visto que os padrões e as métricas de audiência mudam ao longo do tempo, mas na primeira versão, exibida em 1988, esta participação foi de tapume de 80%, o que mostra uma queda significativa.
Mas, na estação, não havia o Globoplay, por exemplo, plataforma que registrou com “Vale Tudo” seu recorde de usuários para uma romance desde que foi lançado, há tapume de uma dezena. O engajamento no streaming espelha o que aconteceu nas redes sociais. O folhetim somou tapume de 130 milénio menções e 2,9 milhões de interações no X, o vetusto Twitter, nesta segunda-feira, de contrato com um levantamento da Instauração Getúlio Vargas.
Ainda segundo o estudo, no Instagram, sete das dez publicações que mais tinham interações na rede no momento em que a romance era exibida tratavam da morte da vilã, com memes, lamentações e, simples, muitas teorias —nas contas da FGV, aliás, os fãs têm Maria de Fátima, interpretada por Bella Campos, porquê a principal suspeita do homicídio.
Os debates coroam a repercussão do remake, para o muito e para o mal, com debates diários nas redes sobre as mudanças feitas por Manuela Dias, a autora, em relação à obra original, de 1988, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, um marco da televisão.
Na cena original, Odete é encontrada morta, toda ensanguentada, encostada numa parede e largada no pavimento de um apartamento. Não se vê o momento do atentado —só depois a romance mostra porquê ela levou os três tiros.
Desta vez, Odete estava no hotel de luxo Copacabana Palace. “Para que essa barbárie? Vamos conversar”, ela implora, com os olhos marejados. Mas depois volta a ser a arrogante de sempre. “Meu muito, ninguém tem coragem de atirar em Odete Roitman”, diz, antes de ser arremessada para trás com a força de um tiro. Escorrega pela parede, porquê na versão original, mas termina muito menos suja de sangue.
Há quem pense que Odete vai ser mantida viva, porém, e que toda essa cena não passou de simulação dela. Faria sentido, até, porque a vilã se tornou o elemento mais festejado do remake. Bloch interpretou a malvada com mais humor e virou meme na internet.
Deixar Odete viva poderia incomodar os saudosistas, mas certamente faria boa secção do público feliz, porquê mostrou pesquisa do Datafolha realizada no mês pretérito. Segundo o estudo, embora a maioria dos espectadores acreditasse que a vilã devesse ser punida, somente 4% queriam a sua morte.
O penalidade mais desejado era a pobreza, para 47%, seguida da prisão, para 35%. A percepção é dissemelhante da que foi registrada por uma pesquisa do mesmo instituto, ainda que restrita à cidade de São Paulo, em 1988. À estação, eram 38% os que queriam a sua morte.
Beatriz Segall, que fez Odete em 1988, desaprovava tamanha comoção. Em entrevista ao redactor Ziraldo no programa O Papo, a atriz afirmou que comemorar e especular sobre o homicídio da personagem era um sinal de que o país estava prestes a regularizar a pena de morte. “Isso é uma coisa muito séria. Não podemos validar isso. Temos que validar a lei, que a pessoa seja julgada, condenada e presa.”
Mas até segunda ordem Odete morreu mesmo. Nas redes sociais e na prensa, porém, reclamam da cena —dizem que Manuela Dias fez um enredado de acontecimentos sem sentido e exagerado. Os suspeitos de matar a vilã, enfim, entram armados no hotel mais protegido do Rio de Janeiro sem dificuldade e saem de lá com tranquilidade.
