A montagem de “Odisseia: Instalação para um Retorno” propõe uma abordagem contemporânea do heróico homérico, deslocando a narrativa tradicional para um território híbrido entre teatro, artes visuais e música. O projeto, concebido por Caetano Vilela, explora o noção de nostos – o retorno – através de uma experiência sensorial, participativa e não linear. A obra opera em três eixos principais: a desconstrução da história, a mergulho multissensorial e a ressignificação do papel do público.
A estrutura narrativa é fragmentada, distribuída em 18 totens e 30 objetos dispostos porquê em uma galeria de arte, cada um escoltado de trechos do poema e referências míticas. Essa disposição convida o testemunha a montar sua própria leitura, aproximando-se mais de uma exposição interativa do que de uma peça convencional. A carência de uma sequência fixa reflete a natureza não linear da memória e da jornada, temas centrais da obra. Os atores Diego Machado e Thiago Brianti alternam entre funções de narradores e personagens, reforçando essa fluidez. Machado recorre à tradição vocal, evocando a origem performática do heróico, enquanto Brianti trabalha com uma partitura gestual que enfatiza a fisicalidade em detrimento da psicologia. A direção opta por arquétipos em vez de caracterização profunda, alinhando-se à proposta de uma releitura simbólica.
A dimensão imersiva é construída através da integração de linguagens. Um telão de LED exibe vídeo-instalações que dialogam com a ação cênica, enquanto os músicos Ivan Garro e Gylez Batista executam uma trilha ao vivo, mesclando o analógico e o do dedo. Essa combinação gera uma paisagem sonora e visual que envelopa o público, dissipando as fronteiras entre palco e plateia. A direção de arte, assinada por Fábio Namatame, transforma o teatro em um espaço expositivo antes mesmo do início da performance, sugerindo que a experiência começa no momento em que o testemunha adentra o sítio.
A obra também questiona o que significa “retorno” no contexto atual: não unicamente uma viagem física, mas um treino de memória e pertencimento. A carência de realismo psicológico nos atores abre espaço para projeções subjetivas – uma abordagem ensejo e experimental do clássico heleno. A redução do elenco a dois atores reforça a núcleo da narrativa compartilhada e a trilha sonora, em tempo real, introduz um elemento de imprevisibilidade, lembrando que a “Odisseia” era originalmente uma performance viva, sujeita a variações. A utilização de tecnologia de ponta, em contraste com a oralidade antepassado, sublinha a permanência do mito em diferentes suportes.
Três perguntas para…
… Diego Machado
Uma vez que foi submergir no universo da “Odisseia” a partir dessa abordagem não convencional? O que mais te surpreendeu nessa releitura?
Começamos pelo caminho mais convencional: leitura, releitura, mergulho totalidade no texto. Cada quina era um invitação para submergir mais fundo nos mares de Homero. O processo não seguiu uma risca reta. Foi feito de fragmentos, memórias e imagens que surgiam e nos levavam a pensar sobre o retorno, a espera, o libido. A estrutura foi se moldando a partir dessas camadas, revelando uma outra odisseia, menos épica, talvez, e mais íntima. A própria encenação é uma exposição. Alguns objetos, escolhidos com muito desvelo, funcionam porquê portais simbólicos. Eles carregam memórias de episódios, sensações, conceitos.
Outra dimensão fundamental foi a oralidade. A “Odisseia” foi feita para ser contada em voz subida, para ser ouvida. A dramaturgia foi construída coletivamente, a partir de escutas, tentativas e de um processo de lapidação que culminou nessa obra. O texto foi ganhando corpo junto com quem o dizia. A termo falada virou presença, ritmo, uma experiência partilhada em cena. O que mais me surpreendeu nesse processo foi a força da síntese, capaz de carregar toda a travessia.
A música ao vivo e as projeções criam uma atmosfera imersiva. Uma vez que é atuar em diálogo jacente com esses elementos?
Uma vez que ator, cruzar essa experiência é estar numa obra de formação, onde cada elemento em cena revela uma classe da narrativa. A atuação se constrói nesse entre, onde presença e percepção se moldam mutuamente. Atuar cá é ortografar com o corpo, responder ao espaço, habitar o fluxo da cena porquê segmento de uma partitura viva. É concordar que tudo pulsa em transformação e que o teatro, porquê o próprio corpo, permanece em movimento.
O “retorno” é o tema meão da montagem. Uma vez que você interpreta essa teoria no contexto atual? O que essa jornada de Ulisses diz sobre nossos próprios retornos?
Essa pergunta me fez lembrar do livro “Nostalgia”, da Bárbara Cassin. Ela questiona quando finalmente estamos em lar e responde de um jeito que me marcou profundamente. Estamos em lar quando somos acolhidos, nós mesmos, nossos próximos e nossas línguas. Essa teoria transforma tudo porque desloca o noção de retorno de um lugar físico para alguma coisa muito mais íntimo e profundo. Estar em lar não é uma questão espacial, mas afetiva e política. É ser reconhecido pelo que se é, pela forma porquê se fala, sente e deseja. Não se trata unicamente de voltar para um ponto no planta, mas de encontrar um espaço onde possamos subsistir sem tradução, sem dissimulação.
A jornada de Ulisses, com sua errância longa e enxurro de obstáculos, é marcada pelo libido jacente de retornar a Ítaca, o que representa o desespero humano por um lugar de pertencimento, mas sua trajetória mostra que o caminho é marcado por transformações, incertezas e mudanças tanto nele quanto no lugar a que quer voltar. Creio que talvez o retorno seja sempre uma reinvenção, um modo de seguir em frente carregando consigo aquilo que nos constitui. E com sorte encontrar pelo caminho um lugar ou alguém que nos reconheça. Aí sim, quem sabe, estar em lar.
Teatroiquè – rua Iquiririm, 110 – Butantã, região oeste. Sex. e sáb., 22h. Dom., 16h e 18h. Até 3/8. Duração: 60 minutos. A partir de R$ 70 (meia-entrada) em sympla.com.br
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