Ator vestido com terno vermelho e chapéu combinando, com colares e maquiagem facial, inclina-se para trás com uma mão na cabeça, em cenário escuro de teatro.

‘Ópera do Malandro’ ignora política em nova montagem em SP – 28/01/2026 – Teatro

Celebridades Cultura

CRÍTICA
Ópera do Malandro
Duas estrelas (Regular)
Dir.: Jorge Farjalla. Com: José Loreto, Amaury Lorenzo e Totia Meirelles. 14 anos. Teatro Renault – av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, república, região central. Até 15/3. Ingr.: a partir de R$ 50 em Tickets For Fun

Nenhum compositor escreveu tantas canções para o teatro brasileiro quanto Chico Buarque. Músicas que extrapolaram os limites das salas de espetáculo e ganharam vida própria, mas que nasceram para dar conta de intenções e desejos de suas personagens. Durante os anos 1960 e 70, quando o Brasil vivia sob os ditames de um regime militar e a censura determinava o que podia ou não ser dito, o artista encontrou na dramaturgia uma forma de contestar a ordem vigente e os abusos de poder. Assim nasceram peças como “Roda Viva”, “Gota D´água”, “Calabar”, “Os Saltimbancos” e “A Ópera do Malandro”.


José Loreto no musical ‘Ópera do Malandro’, em cartaz no Teatro Renault


Jardiel Carvalho/Folhapress

Apesar dessa origem, o que temos visto nos últimos anos são montagens que tentam retirar tais textos de seus contextos políticos —ou, ao menos, amainar suas tintas. Assim, já tivemos um músico trazendo um amontoado de composições de Chico Buarque sem suas histórias e até mesmo uma versão compacta de “Pingo D’chuva”, que ignorava as desigualdades sociais que organizavam a trama e buscava dar conta exclusivamente dos conflitos românticos de Joana e Jasão. A atual montagem de “A Ópera do Malandro”, dirigida por Jorge Farjalla, segue por essa vereda. Ainda que tente encapotar com sinas ambíguos essa limpeza política.

Para driblar a repreensão da quadra, A” Ópera do Malandro” não falava diretamente da ditadura em vigor mas do regime dominador imediatamente anterior: o Estado Novo de Getúlio Vargas. Na montagem de estreia (1978), dirigida por Luiz Antônio Martinez Corrêa, as ações eram ambientadas no Rio de Janeiro, em uma Lapa decadente. O nacionalismo estava em subida. E marcava-se a prática de uma novidade malandrice. Além do tradicional malandro de terno branco e navalha no bolso, responsável de pequenas contravenções, mirava-se o malandro federalista, nascido nas classes burguesas e sectário dos crimes do colarinho branco. Era a prevaricação quem dava as cartas e organizava o jogo de poder.

Na versão atual, em edital no Teatro Renault, eventuais pontos de contato com a sociedade brasileira recente são pouco evidenciados. A Lapa sai de cena. Um grande telão anuncia que continuamos no Rio, mas agora no Cais do Valongo. O terno branco tornou-se vermelho e o protagonista Max Overseas, vivido por José Loreto, cobre-se de guias do candomblé. A princípio, tais opções da cenografia e do figurino poderiam sugerir um olhar crítico para a problemática racial que atravessa as desigualdades econômicas no Brasil. Mas, se era esse o propósito, ele não chega a se concretizar.

A “Ópera do Malandro” não é uma obra original, mas uma releitura de dois grandes clássicos: “A Ópera do Mendigo” (1728), de John Gay, e “A Ópera dos Três Vinténs” (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Não faria sentido, portanto, se cobrar tributo à dramaturgia ou à primeira encenação. O que prejudica o espetáculo de Jorge Farjalla é a arbitrariedade de suas escolhas. O músico acena às religiões afro-brasileiras, ao cabaré boche de Brecht, ao carnaval brasiliano, à estética de cantoras pop, uma vez que Madonna. Tudo ao mesmo tempo.

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Paixões humanas existem em um determinado contexto histórico e não soltas no tempo e no espaço. Quando Farjalla rompe o liga entre política e individualidade que organizava as personagens, muitos de seus conflitos perdem força. A máscara irônica de alguns papéis se sustenta pelo talento de seus intérpretes, uma vez que é o caso de Ernani Moraes, que dá vida ao cafetão Duran, de Totia Meirelles, uma vez que Vitória-Régia, e principalmente de Andrezza Massei, que constrói uma potente Lúcia. Outro acerto da adaptação é o relevo que empresta à hipocrisia da tradicional família brasileira.

A história de Geni, uma mulher trans que salvou a cidade ao deitar-se com o piloto do zepelim, chega com força renovada na tradução de Valéria Barcellos, envolve todo o elenco em uma cena coral e entrega o mais bonito e relevante momento do espetáculo.



Folha

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