Ópera porgy and bess leva as periferias ao municipal de

Ópera Porgy and Bess leva as periferias ao Municipal de SP – 18/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Do elevado de um balcão, Clara surge desbravando os versos de uma das canções mais emblemáticas do repertório operístico. “É verão e viver a vida está mansa. Os peixes saltam e o algodão está desenvolvido”, canta a personagem, ao ninar uma menino.

“Numa manhã você vai se levantar e, cantando, vai furar suas asas”, continua, num auge músico que traduz a esperança em meio à marginalidade na qual vivem os protagonistas de “Porgy and Bess”, considerada a grande ópera americana e que ganha montagem no Theatro Municipal de São Paulo a partir desta sexta-feira (19).

“Existe uma mel e uma esperança muito fortes nessa música e na imagem dessa mãe”, diz Grace Passô, premiada uma vez que atriz e diretora, no cinema e no teatro, e que foi convidada para comandar leste capítulo da temporada lírica do principal palco da capital paulista.

Composta por George Gershwin nos anos 1930, “Summertime” é uma ária na ópera e um estandarte no jazz, a tradução perfeita do apelo popular que ele, junto ao libretista DuBose Heyward, esperava que “Porgy and Bess” tivesse, ao levar a cultura afro-americana para palcos líricos historicamente dominados por uma escol branca.

Ganhou versões em vozes absolutamente díspares e também emblemáticas, uma vez que as de Billie Holiday, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Janis Joplin –que embalava o ninar de Passô quando menino–, e serviu de base até mesmo para a margem Sublime, em “Doin’ Time”, hoje mais lembrada na voz pop de Lana Del Rey.

“Eu não sei expressar o porquê de ela ter se tornado tão popular, mas é uma música que fala de esperança, ao mesmo tempo em que tem em si uma melancolia. A incongruência às vezes gera umas belezas”, afirma Passô, vencedora do prêmio Shell pelo texto da peça “Vaga Mesocarpo” e eleita melhor atriz no Festival de Brasília pelo filme “Temporada”.

Sob a batuta do maestro Roberto Minczuk e com participação do Coro Lírico Municipal e do Coral Paulistano, estes regidos por Maíra Ferreira, a primeira versão do Municipal para “Porgy and Bess” –em 1992, uma turnê americana tomou seus palcos emprestados– tem récitas até o dia 27 deste mês. Luiz-Ottavio Faria assume o protagonista masculino, enquanto Latonia Moore e Marly Montoni se alternam uma vez que a feminina.

A trama conta a história de Bess, uma mulher viciada em álcool e em “pó da alegria”, amante de um varão violento. Numa noite de carraspana e jogatina, ele mata um rapaz da comunidade onde vivem, a fictícia Catfish Row, e foge. A mulher, abandonada, é rejeitada por todos ao volta, menos por Porgy, uma pessoa com deficiência, que vive de esmolas e é querido por todos ali.

Falamos da exclusão da exclusão, mas nunca num tom de resignação. Em seguida ser acolhida, Bess larga seus vícios e cria-se um tino de comunidade mais significativo. Tudo desmorona, porém, quando o marido violento retorna. A protagonista fica à mercê de suas ameaças e, uma vez que se não bastasse, de seu traficante, que tenta seduzi-la despejando pó branco pelo palco.

Na versão de agora, a veras do sul dos Estados Unidos da dez de 1930 foi convertida para o Brasil de 2025. Não há lugar exato, o que transforma o palco numa fusão de periferias, bombardeado por influências diversas, em próprio na coreografia e nos figurinos.

Corpos se debatem em várias passagens, em sintonia com a corporalidade que já é marca de Passô em sua curso enquanto atriz. As contorções são entrecortadas por menções ao break, ao funk, à capoeira, ao vogue e outros. Detrás, a cenografia de Marcelino Melo traz seu trabalho com miniaturas de favelas para uma graduação colossal.

Publicado uma vez que Quebradinha, o artista plástico reproduziu uma de suas obras em larga graduação, concebendo um enorme tijolo que vira uma espécie de ninho, com seus buracos habitados pelos personagens da trama. No térreo, há uma vendinha. Nos andares intermediários, casinhas com janelas de alumínio. No topo, uma laje onde cadeiras de praia cercam uma churrasqueira.

Já os campos de algodão mencionados em “Summertime” viram um arco-íris de algodão gulosice no tabuleiro de um ambulante vestido de Varão-Aranha. Mototáxis, cadeiras plásticas de boteco e cachaça tragam a história ainda mais para dentro das periferias brasileiras.

“Nossa proposta é pensar ‘Porgy and Bess’ no contexto social, econômico e político atual. Só assim é provável mourejar com essa obra”, diz Passô, lembrando que a ópera teve a reputação saída entre os anos 1960 e 1970, ao ser problematizada por movimentos de direitos civis. “Uma vez que todo grande clássico, o que me interessava, em termos cênicos, era a possibilidade de jogar luz no que é primordial, na força dela, e entender que deslocamentos poderíamos propôr.”

Passô destaca ainda a valia de ter os palcos do Municipal, e outros de grande valor ao volta do mundo, ocupados por equipes quase que inteiramente pretas –seja uma vez que espectadora ou uma vez que artista, essa população teve chegada rejeitado às grandes casas de cultura por décadas.

Ao tratar de uma periferia, mesmo que americana, nos anos 1930, “Porgy and Bess” causou furor em sua estreia, e mais ainda por levar um elenco lírico preto aos palcos. Ainda assim, foi um sucesso estrondoso, se transferiu de Boston para a Broadway e, em turnê, protestou contra a segregação da plateia no National Theater, em Washington.

Já sua primeira montagem europeia, na Dinamarca, foi encerrada abruptamente a mando da ocupação nazista do país, enquanto o “black face”, prática hoje amplamente condenada, em que atores brancos pintam o rosto, era proibida pelo próprio Gershwin ao liberar novas encenações.

“Há um caminho que a sociedade trilhou ao longo desse tempo, refletindo e agindo em relação à sua negritude”, diz Passô. Nessas diferentes interpretações sobre o papel de “Porgy and Bess”, a obra se tornou clássica no teatro e também no cinema, em adaptação estrelada por Sidney Poitier e Dorothy Dandridge em 1959.

É um caso vasqueiro, ainda, de uma obra com influência profunda do jazz, que transita com naturalidade entre a ópera e o teatro músico –a íntegra pertence a grandes salas, uma vez que o La Scala de Milão, embora versões reduzidas tenham tido sucesso na Broadway, arrematando prêmios Tony.

Por isso mesmo, chegou a ser rejeitada por puristas, que nesta versão devem estranhar o uso de microfones, mesmo que num volume plebeu. Incomum à ópera, a decisão de microfonar o elenco se deu pela grande quantidade de solos e coros da obra, que tem quase quatro horas de duração, segundo sua diretora.

Oriente é, portanto, um “Porgy and Bess” que quer ter vida própria, o que o põe em sintonia com o espírito da própria obra, segundo Passô. “Muitas das discussões tem a ver com dilemas, porque esta é uma ópera que nasce da cultura negra sendo observada, não nasce de dentro. Eu quero que esta montagem seja uma reparo nossa sobre a obra do Gershwin. É uma montagem que nasce de uma dança de reapropriações”, afirma.

Folha

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