Depois um gesto orquestral intenso, a repetição obsessiva de dois acordes é sustentada por um piano, simultaneamente tosco e virtuosístico, que emula o som dos bares periféricos onde o jazz se forjou. Um crescendo insólito passa logo a abraçar o coro, superpondo tonalidades —a marca sonora do compositor.
Assim começa “Porgy and Bess”, ópera de George Gershwin em papeleta até dia 27 de setembro no Theatro Municipal de São Paulo. Seguindo a instrução do responsável, válida já para a estreia em 1935, a obra deve ser majoritariamente interpretada por artistas negros, o que inclui, na montagem paulista, não exclusivamente as principais vozes solistas, mas membros da equipe criativa —com destaque para a direção cênica de Grace Passô e a cenografia de Marcelino Melo–, além de atores e bailarinos.
Ambientada na fictícia Catfish Row, inspirada em uma comunidade periférica na região litorânea de Charleston, no estado norte-americano da Carolina do Sul, a história sonora, contada a partir do texto original de DuBose Heyward, cria personagens fortes, porquê o obsessivo e sonhador Porgy —uma pessoa com deficiência física–, e a demasiadamente humana –mas também sonhadora– Bess.
A comunidade é composta por mães, pais, crianças, trabalhadores dos campos de algodão, estivadores, pescadores, vendedoras e vendedores, mas também golpistas, criminosos e traficantes. As relações dessa periferia com os centros de poder são ambíguas, e vão do desamparo puro e simples ao oportunismo e à repressão.
Há amizade, jogo, droga, paixão e exploração. A natureza pode ser hostil, causadora de tragédias (porquê a tormenta capaz de virar os barcos de navegadores experientes), mas também dar o dia de sol para a sarau, o quina, a alegria e a fantasia de uma vida de sossego, expressa já no primeiro número, a antológica melodia “Summertime, and the living is easy” (É verão, e a vida é fácil). De vez em quando, aparece por lá um corpo estendido no soalho.
Grace Passô chega a esse mundo “pisando devagarinho”: atores entram no palco, andam, encontram o fosso da orquestra, olham, escutam. Só a partir daí pode surgir o cenário de Marcelino Melo, uma ampliação gigante de sua série de miniaturas “Quebradinha”, com casas simples, varais e lajes amparadas pelo tijolo baiano. Não há clichês, na verdade há muita venustidade, e toda movimentação cênica dá-se a partir da música –porquê deve ser numa ópera.
O uso de microfones (não obrigatório) é feito com sutileza e não descaracterizou a linguagem operática. Toda a técnica de quina é lírica –conforme o projeto do compositor–, e o flerte com outras linguagens, porquê melodia e músico dá-se, na verdade, porquê força desconstrutora, e mesmo porquê quebreira, tal porquê em “It Ain’t Necessarily so” (Não é necessariamente assim), da personagem Sportin’ Life, o traficante interpretado na estreia pelo tenor Jean William (em grande atuação). Com isso, a Sinfônica Municipal, dirigida por Roberto Minczuk, teve extenso espaço dinâmico para enfatizar a intrincada escrita para metais de Gershwin.
O Porgy do grave Luiz-Ottavio Faria tem toques precisos de pureza e introspecção —porquê na célebre “I Got Plenty o’ Nuttin’” (Eu tenho bastante de zero)—, o barítono sul-africano Bongani J. Kubhek traz a ardência necessária para o estivador Crown, e o barítono brasílico Michel de Souza esteve impecável porquê Jake.
No elenco feminino, a soprano norte-americana Latonia Moore, que cantou na estreia, interpretou Bess com subida complicação, unindo potência e nuances, perfilando estados emocionais díspares com imensa categoria. Ao lado dela cabe primar a Maria (da brasileira Edneia Oliveira), a Clara (da soprano colombiana Betty Garcés) e, em uma atuação marcante, tão possante porquê plena vocalmente, a mezzo soprano brasileira Juliana Taino porquê Serena.
Mesmo condensando em dois os três atos do original, o espetáculo ainda é longo, também pelo vestuário de o caráter episódico da escrita de Gershwin, econômico nos desenvolvimentos temáticos, redundar um tanto. Cenicamente, pareceu um pouco gratuita a utilização do vídeo filmado em tempo real, solução que subestimou a força do teatro sonoro em curso. Por outro lado, o coro prestes por Maíra Ferreira esbanjou técnica, aliada a um primoroso tino estilístico.
Tudo isso dá complicação a esta montagem que, por seu estabilidade, maturidade e perceptibilidade, é um dos destaques da atual temporada lírica.
