Quem escreve regularmente em jornal aprende cedo a conviver com o dissenso. Faz secção do ofício. Leitores discordam, contestam, corrigem e melhoram o argumento. Em princípio, os comentários em um jornal porquê a Folha servem para prolongar a conversa pública.
O problema é quando a conversa deixa de ser conversa.
Nos últimos meses, entre críticas legítimas e objeções muito formuladas, acumulei comentários que me descrevem porquê alguém “cego pelo ressentimento”, “jagunço vândalo de reputação”, “capanga amestrado da Folha“, “saudoso do colonialismo”, “passador de tecido para o golpe e o delito organizado” e “apoiador de genocídio”. Um leitor escreveu que eu poderia ter colaborado com o Der Angriff, o jornal de propaganda dirigido por Goebbels na Alemanha nazista.
Não se trata de queixa pessoal, pois não ocorre só comigo, tampouco de hipersensibilidade: venho das redes sociais, onde faca na bota e pé no peito são a regra. O ponto relevante é que esse padrão de reação indica um fenômeno mais largo, em que a discordância não é mais desacordo intelectual, mas irregularidade moral ou cumplicidade criminosa.
Esse deslocamento ajuda a entender o que aconteceu com os espaços de comentários dos leitores, hoje muito discutidos nos estudos de jornalismo do dedo. Quando surgiram, eles vinham embalados por uma promessa democrática importante. A termo de ordem era “interação”. A expectativa era simples, aproximar leitores de repórteres, editores e colunistas; oferecer ao público a oportunidade de apresentar pontos de vista, discutir pautas e abordagens e ter a sua voz reconhecida na esfera pública. Com essa pequena ágora do dedo, ganhariam a democracia e o jornalismo.
De lá para cá, porém, o ecossistema da informação do dedo mudou. Desde o final dos anos 1990 já se fala em porquê tais ambientes, cada vez mais fundamentais para a informação e a interação políticas, foram se tornando mais embrutecidos, menos usados para trocas e colaborações argumentativas e mais voltados a combates e radicalizações.
Por um tempo, manteve-se uma saliência no nível de urbanidade e na utilidade democrática entre os ambientes não moderados, nos quais os indivíduos podiam manter o anonimato, de um lado, e os ambientes moderados, que exigiam a identificação dos seus participantes, porquê nos comentários dos leitores.
O que se observa hoje, mas, é que a radicalização das redes, a leitura apressada e a lógica de militância e combate acabaram colonizando também os comentários. O que deveria ser um espaço de moderação e argumentos passou a reproduzir o vale-tudo do dedo. Já não há uma diferença significativa entre o que acontece em plataformas digitais e no rodapé dos jornais online —e muitos jornais, mundo afora, desistiram desse espaço.
Antes de tudo, houve uma extrema partidarização dos comentários, em que muitas pessoas que se veem porquê soldados de um lado do conflito político travam as suas batalhas cotidianas. Os comentários se tornaram um novo lugar de combate, em que os argumentos dão lugar a insultos, as leituras são substituídas por certezas e a mente passa a ser movida pelo fígado.
Nessa partidarização, tudo é filtrado pela ideologia favorita do comentador. Assim, quanto maior for a intervalo estimada entre as minhas crenças e os fatos ou interpretações publicados, mais errados eles parecem ser e maior a indignação que produzem. Não só porque são dissonantes, mas porque se imagina o efeito de uma reportagem ou de uma opinião “errada” sobre as pessoas que não conhecem a “verdade” a que só o militante teria chegada.
O papel do leitor-militante no espaço de comentários é, pois, vigiar e denunciar. Detectado o erro, cabe-lhe denunciar as intenções do colunista ou repórter, tanto para evitar que os ingênuos acreditem naquilo quanto para mostrar ao jornal que zero vai passar sem o seu protesto, lavrado na forma de observação.
O efeito paralelo é previsível. Leitores interessados em uma troca honesta de pontos de vista se desencorajam com a vigilância e a agressividade e tendem a se retirar do debate. Os mais ativos nesses espaços, porquê em qualquer outro envolvente do dedo, acabam sendo os mais partidários e os mais radicais. E um instrumento criado para ampliar a esfera pública acaba por reduzi-la.
Zero disso invalida o valor dos comentários, pois a sátira muito informada e argumentada é principal para o bom jornalismo. O problema não é o desacordo. É a substituição deste pelo ataque pessoal, da leitura cuidadosa pela lógica tribal, do argumento pela desqualificação moral.
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