Os enforcados critica as elites e faz macbeth à brasileira

Os Enforcados critica as elites e faz Macbeth à brasileira – 11/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Incapaz de tomar a diadema para si, Lady Macbeth passa toda a peça de William Shakespeare sussurrando delírios e tramoias nos ouvidos do marido, até que ambos mergulham numa lesma de loucura que torna esta uma das tragédias mais sangrentas do dramaturgo inglês.

Não é por trocar a Escócia do século 11 pelo Brasil de 2025 que a versão de Fernando Coimbra para “Macbeth” fica mais ligeiro. Dez séculos podem separar as tramas, mas a barbárie e a incivilidade também são dos elementos mais fortes de “Os Enforcados”.

Retorno de Coimbra aos cinemas brasileiros 11 anos depois do sucesso de “O Lobo Detrás da Porta”, o filme estreia nesta semana posteriormente ter seu roteiro premiado num laboratório de Sundance e ter exibições especiais no Festival de Toronto.

Avidez, depravação e profecias regem “Os Enforcados” tanto quanto “Macbeth”, mas com tons contemporâneos, evidente, e um tempero brasílio. O projeto surgiu da vontade de Coimbra de denunciar a criminalidade que corrói a sociedade carioca a partir do topo da pirâmide, não da base, porquê costuma ser o caso no audiovisual.

Sede de poder é mais uma vez o que move os protagonistas, Valério e Regina, interpretados por Irandhir Santos e Leandra Leal. Ele é um bicheiro que divide os negócios ilícitos com o tio. Ela fica em morada supervisionando a obra da mansão que herdaram, um “mausoléu” incrustado nos morros e mirando o azul do mar.

Uma disputa pelo controle do poderio do jogo do bicho e uma epístola de tarô que enseja Regina a aproveitar as oportunidades que surgem —um gesto à profecia das bruxas de “Macbeth”—, porém, fazem com que o par comece a mentir, subornar, matar e torturar todos em seu caminho.

“Quando falamos do violação nas bases, muitas vezes falamos de uma galera que não têm opção. São pessoas que são vítimas da pobreza, da miséria, que acontece muito por pretexto de uma escol que concentra renda e amplia o caimento social. Era nessas pessoas que eu estava interessado, nas dinâmicas de depravação do país”, diz Coimbra sobre a teoria, que surgiu ainda no período de finalização de “O Lobo Detrás da Porta”, também estrelado por Leal.

De lá para cá, ele foi revisitando o roteiro, fazendo alterações, até enfim poder filmá-lo. O detido foi em segmento causado pela pandemia de Covid-19, mas majoritariamente por convites para encaminhar no exterior, em séries porquê “Narcos” e “Perry Mason” e no filme “Fortaleza de Areia”, com Nicholas Hoult.

“A núcleo continuou a mesma, a descida ao inferno do parelha protagonista. Mas muita coisa mudou por pretexto de tudo o que eu vi acontecendo no Brasil, mesmo que estivesse longe. As coisas ficaram mais doidas com a subida da extrema direita. Vimos absurdos acontecendo e figuras porquê Bolsonaro e Sérgio Mouro surgindo. Logo acabei fazendo um filme sobre o chamado ‘cidadão de muito’, que se popularizou no período.”

A teoria do “cidadão de muito” é mencionada de forma direta no filme, num diálogo em que o bicheiro protagonista, sob os olhares atentos de um solicitador da Polícia Federalista, reclama da violência no Rio de Janeiro e diz que merece estar em segurança por remunerar seus impostos –mas é ele próprio um dos motivadores da criminalidade, formando milícias, corrompendo policiais e banalizando atrocidades.

Coimbra viu no jogo do bicho, uma contravenção normalizada e que parece simples, folclórica até, a oportunidade perfeita para contextualizar seu “Macbeth”. E se a segmento lúdica da obra de Shakespeare acontecia pelo sobrenatural, cá são o tarô e o Carnaval que possibilitaram ao diretor “carregar nas tintas” —uma decisão que bebe do cinema coreano, que também satura seus tons para poder mourejar com uma veras que já é absurda por si só.

Assim, “Os Enforcados” tem cenas de violência bastante gráficas e diálogos cortantes, frutos também de toda a expertise que Coimbra reuniu trabalhado com diferentes gêneros lá fora, principalmente o policial, mas não só. É coisa de brasílio, maltratar tudo no liquidificador e transformar em um pouco próprio, um pouco antropofágico, conta o diretor.

Além de Santos e Leal, também estão no elenco Stepan Nercessian, que faz o tio bicheiro, deputado e possuinte de uma escola de samba, e Irene Ravache, a mãe da protagonista, uma quiromante que quer se dar muito em cima de quem der exórdio. Completa o núcleo principal um personagem um tanto estranho –a morada onde o parelha mora.

Sons de martelo e furadeira são onipresentes no filme, conforme a reforma da mansão avança. O fragor ajuda a fabricar um clima de caos, porquê se colaborasse para a loucura dos protagonistas, e o progresso das obras, que degrada o cenário aos poucos, reflete sua derrocada emocional.

Escrito com a colaboração da atriz Fernanda Torres, colunista deste jornal, o roteiro ainda toma porquê referência outra obra de Shakespeare, “Hamlet”. O protagonista também tem um pai morto em condições suspeitas —teria sido assassinado pelo próprio irmão, numa disputa por poder?—, e que lhe dispara mensagens de forma esotérica.

“Mas a lucidez não é o possante do Macbeth, porquê é o caso do Hamlet”, diz Coimbra. “O Hamlet é vítima justamente por ter grande sensibilidade num mundo que é brutal, já Macbeth tem uma capacidade de se iludir muito grande. Tanto que é usado pela mulher, que tenta se realizar por meio dele. Um leva o outro a ler mal a veras, mas eles têm um pacto, o tálamo, que também é uma fantasia que não funciona.”

O apego de Coimbra a Shakespeare pode ter raízes em suas origens no teatro. O diretor integrou o elenco do Oficina, sob a batuta de Zé Celso, por mais de uma dez, e foi lá, conta, que aprendeu a encaminhar atores. Entre os projetos futuros está justamente um documentário sobre o encenador e dramaturgo, morto há dois anos.

Coimbra registrou o tálamo de Zé com o ator Marcelo Drummond e, um mês depois, seu velório. O material deve dar origem a um filme que, porquê “Os Enforcados”, também falará de sucessão, já que a teoria não é relatar sua trajetória, mas pensar sobre seus meses finais, a idade avançada e a transição que se desenhava nos bastidores do Oficina.

Mas é preciso, antes, fabricar notório distanciamento do material, já que Coimbra era camarada próximo de Zé Celso. Enquanto isso, ele encerra o ciclo de “Os Enforcados” e torce para que o bom momento do cinema vernáculo chame o público para as salas a partir desta quinta-feira.

Folha

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