'os enforcados' tem qualidades, mas é mais um filme feito

‘Os Enforcados’ tem qualidades, mas é mais um filme feito – 11/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Se há um fantasma persistente no cinema brasiliano é o do filme “muito feito”. Ele se instalou entre nós nos tempos da Vera Cruz, quando tivemos pela primeira vez as condições para perseguir a “qualidade internacional” que almejávamos.

Desde logo, vivemos detrás desse filme que teima em se esconder de nós. O caso mais recente é o de “Os Enforcados”. Ele lembra, de inesperado, aquilo que Helena Ignez disse, quando perguntada sobre o que achava de um macróbio filme em que ela fora atriz, “O Assalto ao Trem Pagador”. Ela respondeu: “É um filme feito”.

Se eu a interpreto recta, com esse esfinge, ela pretendeu nomear um filme que gira em torno da própria sublimidade. Um filme que se faz antes mesmo de ter sido feito. E essa foi a sensação que me deixou “Os Enforcados”, que me impressionou século vezes menos que o “Trem Pagador”.

Fiquemos com a intriga —de início nos vemos diante de Regina (Leandra Leal), dona de mansão que supervisiona a reforma de sua cinematográfica mansão. Logo seu marido, Valério (Irandhir Santos), chega e diz a ela que está quase falido.

Que fazer? Vender a sua secção na sociedade que mantém com o tio. Ele muito tenta, mas nesse momento começamos a perceber que existe alguma coisa de estranho em tudo isso. O tio se recusa a comprar a secção dele. Propõe que ele tome conta do negócio por uns tempos, pois precisa vanescer. Sabemos logo que seus negócios são muito escusos, que ele é deputado, mandou matar o irmão, o pai de Valerio, e agora precisa sumir por uns tempos. Mas confia no sobrinho, porque ele é “da família”.

Valerio assume a direção dos negócios, que envolvem jogo do bicho, tráfico, escola de samba, lavagem de verba e outras barbaridades conexas. Logo se dá conta de que esse é um negócio sangrento —mas não tinha se oferecido conta ainda?. Passa a lutar nesse fronte, mas a força real por trás dessa luta é Regina. A força, mais que isso —a vontade, o cérebro. Eis Lady Macbeth de volta.

Nesse ponto, “Os Enforcados” faz lembrar outro filme, “Trabalhar Cansa”, em que um par compra um supermercado, em cujas paredes começam a surgir estranhas manchas. E quanto mais o par se empenha em perseguir a mancha, mais ela trata de aumentar.

Quero manifestar, a mancha é um mistério real. Enquanto o par tenta decifrá-lo, ele se torna mais sibilino. Já Regina olha para a própria parede e vê ali manchas que nenhum pintor consegue encontrar. É que cá as manchas estão na cabeça de Regina. Manchas simbólicas.

A cabeça de Regina é o fundamento do filme, sabemos desde que ela arrebenta a marretadas uma estátua de frase maligna que alguém pretende plantar no seu quintal. Quando ela, insegura, procura uma quiromante, ouve dela para permanecer atenta a uma grande oportunidade que surgiria para ela e Valerio. A quiromante é a própria mãe.

Regina confia no vaticínio misterioso. E confia por quê? Porque que a mãe é “da família”. Assim também o tio confia em Valerio porque ele é “da família”. Valerio confia cegamente no motorista porque foi criado junto com ele: “É meu irmão”, diz, portanto, é da família.

E, enquanto a tragédia se desenha, esses personagens —e mais alguns— empenham-se todo o tempo em não falar a verdade uns aos outros. A rigor, suas mentiras são quase sempre desculpas esfarrapadas que ajudam a trama a seguir adiante. Mas o interlocutor, que também mente e esconde fatos, acredita ou finge que acredita.

Assim vai seguindo o drama, sempre bravo no roteiro e com não poucas intervenções mitológicas ou simbólicas, que parecem reduzir o filme ao desancar ordenado de uma máquina de costura.

Sim, porque deixando todos esses problemas de lado, temos cá um filme impecável. Leandra Leal está soberba do primórdio ao final. E é seguida por um elenco muito muito dirigido, equilibrado sempre, puxado por Irandhir Santos.

Também é interessante investir na reparo de um meio em que o verba é tudo —o primórdio e o termo. Essa, aliás, é a marca distintiva de Regina. Ela poderia viver muito muito e feliz, ignorando a sujeirada ao seu lado. Mas não. O risco de permanecer pobre a leva para o meio da sanguinolência.

O tema não é tolo, a direção de arte nunca decepciona, a retrato podia ser um pouco menos escura, mas, enfim, tudo muito. Mas os personagens se entregam a um jogo de enganos ingênuos, de crença não só cega porquê tola na família.

Enfim, todos os problemas, assim porquê as virtudes, desembocam na direção de Fernando Coimbra, que nos remete de volta ao sibilino “filme feito” de que falou Helena Ignez —ela que, por sinal, foi uma Lady Macbeth memorável na montagem de “Titus Macbeth” de alguns anos detrás.

“Filme feito” é porquê prato pronto. Chega à mesa todo arrumadinho. Assim porquê “Os Enforcados”, que tem alguma coisa de mecânico que faz com que tudo pareça estar feito antes mesmo de ser feito. Tudo ali é milimetrado para valer aos olhos do testemunha —para além dos símbolos e mitologias que evoca—, “um filme de qualidade”.

Essa preocupação envolve os filmes. Assim porquê os personagens não dão um passo sem que o verba resuma todas as ambições possíveis na vida, os autores do filme permitem que todas as suas virtuais virtudes se consumam na anelo da “qualidade” que absorve até mesmo a boa direção do ótimo elenco: o fantasma da Vera Cruz não nos abandona.

Folha

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