Os sinais da violência no assassinato do cachorro Orelha

Os sinais da violência no assassinato do cachorro Orelha – 29/01/2026 – Djamila Ribeiro

Celebridades Cultura

O assassínio do cachorro Ouvido enlutou uma comunidade e todo o país. Numa reportagem, um varão foi entrevistado visivelmente emocionado. Ele levava comida a Ouvido todos os dias e pensar em sua dor em não mais encontrar o colega nos atravessou. Porquê milhões de pessoas em todo país, pensei no cãozinho, agradeci por sua jornada neste planeta e rezei para que, em outro projecto, continue recebendo o paixão e zelo que recebeu da comunidade da praia Brava durante toda sua vida.

As investigações, segundo a prelo, trabalham com a hipótese de que Ouvido foi torturado e deixado agonizando por quatro adolescentes. Quando foi encontrado por moradores, já não havia mais o que fazer.

A revolta é universal e há um furor para que os responsáveis sejam punidos, inclusive por meio da responsabilização financeira de suas famílias. Isso levou à divulgação de identidades e de boicote a estabelecimentos que supostamente pertenceriam às famílias dos quatro —em alguns comentários, cinco— jovens envolvidos. Embora punir as famílias no bolso seja uma medida justa, é preciso muita calma neste momento, mesmo diante de tamanha dor. Alguns dos estabelecimentos expostos vieram a público declarar que não têm nenhuma relação com os investigados. E não se combate uma injustiça fazendo outras injustiças.

Ainda no furor do caso, é generalidade que a comoção pública venha acompanhada do impulso por mudanças legislativas imediatas —sobretudo no sentido de endurecer punições aplicáveis a jovens envolvidos em crimes contra animais. Trata-se de um debate legítimo na procura por mais proteção aos animais. De outro lado, crianças e adolescentes são atravessados por muitas variáveis, e leis que avançam sobre quem também merece zelo precisam ser debatidas a fundo.

É preciso lembrar que casos extremos são um repto para qualquer sistema legislativo. E ainda que novas leis venham a ser aprovadas, elas não retroagem para compreender os acusados de torturarem Ouvido.

Isso não significa, porém, que profissionais de justiça do país estejam desprovidos de experiência e instrumentos para mourejar com situações dessa seriedade. Mesmo com a legislação atual, há mecanismos capazes de alongar adolescentes do convívio social quando seus atos revelam uma conduta extrema, vil, além de um risco concreto de escalar para outras potenciais vítimas, sejam animais ou humanos.

A término de um exemplo, relembremos o caso de Liana Friedenbach e Felipe Caffé, no início do século. Menor de 18 anos à idade do violação, o celerado, sabido porquê Champinha, continua separado do convívio social até hoje.

A tortura por recreação, o cachorro deixado agonizando e, segundo apontam investigações, uma tentativa de afogar um outro cachorro no mar. Muitos gatilhos que acendem todos os sinais de alerta. Uma investigação precisa identificar cada um, porquê também apurar denúncia de que seus pais teriam imposto uma testemunha. Mais que isso, a investigação deve se interessar por qual envolvente social, afetivo e simbólico favoreceu a formação de um grupo de jovens que maltrata animais. Que discursos, ausências e permissividades constroem esse terreno?

De uma forma universal, diversos estudos da medicina veterinária se aprofundam na estudo da Teoria do Gavinha, desenvolvida nos Estados Unidos nos anos 90 e adotada em pesquisas brasileiras, que objetiva entender de que forma a violência contra animais se conecta à violência contra humanos.

Para grafar nascente texto, tomei uma tarde para iniciar-me nas primeiras leituras deste debate e encontrei o estudo “Crueldade com animais x violência doméstica contra mulheres: uma conexão real”, realizado pela pesquisadora Maria José Sales Padilha, em 2011. Em levantamento junto a mulheres que buscaram atendimento na Delegacia da Mulher, Padilha observou que em 50% dos casos seus agressores já haviam sido violentos com animais.

Tanto em relação aos animais quanto em relação à mulher, a teoria de posse e de poder sobre o outro informam uma violência recorrente –em ambos os casos, mais recorrentes no país do que gostaríamos de permitir.

Mesmo sem respostas fáceis, sabor de crer que o sacrifício de Ouvido, por sua comunidade que tanto o amou, transcendeu sentidos. Sim, houve a eutanásia, imposta pela extensão irreversível dos ferimentos. Mas também houve um sacrifício simbólico: pela sua partida, a proteção dos animais ascendeu à mais subida valia do debate público do país; pela sua partida, uma comunidade inteira se uniu.

Que a espírito de Ouvido descanse em muito paixão. E que, entre nós, sua memória nos convoque não somente à indignação, mas à responsabilidade coletiva de interromper ciclos de violência antes que eles façam novas vítimas.


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Folha

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