Oscar, com Valor Sentimental, não quer ousadia estrangeira 16/03/2026

Oscar, com Valor Sentimental, não quer ousadia estrangeira – 16/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ampliar seus horizontes não é fácil. E foi isso que a Liceu de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deixou simples com a 98ª entrega do Oscar, na noite deste domingo (15).

Seus membros podem até ter distribuído várias indicações a estrangeiros nesta edição, mas preferiram restringir as vitórias deles à categoria de melhor filme internacional. E mesmo nela não foram necessariamente ousados.

“Valor Sentimental”, norueguês que derrotou o brasílico “O Agente Secreto”, enfim, é uma escolha fácil. Um dramalhão familiar, o longa de Joachim Trier tem boa quantidade de cenas faladas em inglês, além de ter uma vez que garotos-propaganda a americana Elle Fanning e o sueco –mas já muito divulgado em Hollywood– Stellan Skarsgard.

Assim, a Liceu confirmou que vê o cinema estrangeiro com limitações. Folias criativas uma vez que a de “O Agente Secreto” ou críticas políticas disfarçadas de comédias, uma vez que “Foi Exclusivamente um Acidente”, fogem do que se espera numa categoria habituada a premiar dramas –no sentido mais direto da vocábulo– e filmes de guerra, com subida trouxa histórica e sentimental.

“Ainda Estou Cá” se beneficiou disso no ano pretérito. Mesmo que “Emilia Pérez” tenha implodido sua campanha por polêmicas que criou para si, o longa gálico era um músico de temas delicados, enquanto o filme de Walter Salles era um drama histórico, uma denúncia da ditadura militar, simples, mas pela perspectiva de uma mulher em frangalhos.

“O Agente Secreto”, por outro lado, brinca com uma infinidade de gêneros. Muito além de um drama histórico, o longa de Kleber Mendonça Fruto se apropria do thriller e da fantasia, formatos americanos por vantagem, jogando com elementos hollywoodianos, uma vez que o noir, o blockbuster, o filme B e até mesmo o “buddy cop” –tramas centradas na relação entre policiais.

É irônico, aliás, que os votantes deste Oscar tenham sido tão ousados ao indicar “Pecadores” 16 vezes e ao premiar uma atriz de um filme de terror –Amy Madigan em “A Hora do Mal”–, mas relativamente conservadores na flanco onde a flutuação é mais gritante, pelo simples traje de reunir produções de diferentes países e, portanto, frutos de diferentes culturas cinematográficas e visões de mundo.

Um tanto evidenciado no próprio solilóquio de fenda de Conan O’Brien, que afirmou que os filmes ali indicados foram feitos por artistas de 31 países, e eram o “resultado de milhares de pessoas falando línguas diferentes”.

Também disputavam a categoria de filme internacional “A Voz de Hind Rajab”, mistura de ficção com verdade embalada em suspense, e o tenso, barulhento e não convencional “Sirât”. O último, candidato da Espanha, ainda tinha chances em melhor som, prêmio que acabou nas mãos do filme mais conservador nos temas e na forma desta temporada, “F1”.

Da mesma forma, “O Agente Secreto” tinha indicações em melhor filme, direção de elenco e ator –para Wagner Moura. A primeira categoria era um sonho distante, mas as outras duas tinham chances de render vitórias. “Uma Guerra Posteriormente a Outra” e “Pecadores”, respectivamente, levaram a melhor.

Já “Valor Sentimental”, por mais que tenha derribado nas graças dos americanos, foi vetado nas outras sete categorias em que concorria. Só triunfou mesmo onde estrangeiros são bem-vindos. Skarsgard parecia possante aposta em ator coadjuvante, mas a Liceu preferiu dar um terceiro Oscar para Sean Penn. Seu supimpa time de atrizes –com Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas e Renate Reinsve– nem chegou a ser levado a sério na campanha.

É lindo para a Liceu bradar que está olhando para os estrangeiros, indicando tantas produções em língua não inglesa. Mas o exposição precisa se transformar em premiação. É difícil crer que os americanos sejam, ano depois ano, os melhores em todas as frentes do Oscar.

Vale reportar as exclusões do chileno “O Olhar Misterioso do Flamingo”, que bebe do realismo fantástico, o germânico “O Som da Queda”, que brinca de forma sombria com diferentes linhas do tempo, e o sul-coreano “A Única Saída”, um suspense ensopado em comédia, em categorias para além da internacional.

Foi uma safra estrangeira mormente fértil, portanto não faz sentido que o Oscar tenha em seu campo de visão somente os ocupantes das cinco vagas reservadas a estrangeiros. Ao menos a Coreia do Sul foi agraciada com dois prêmios. Ou quase.

“Guerreiras do K-Pop”, vencedor de melhor animação e música original, talvez seja um bom retrato do que é de traje palatável para a maioria dos membros da Liceu. O longa, enfim, se apropria da cultura coreana, mas é uma produção dos Estados Unidos, que segue fórmulas já consagradas naquela indústria.

Uma falsa sensação de que o horizonte agora vai além do letreiro de Hollywood.

Folha

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