O primeiro Oscar do Brasil veio em pleno Carnaval, o país lançou mais filmes do que nunca e teve um investimento público recorde para a produção de novos títulos em 2025.
Mas zero disso foi suficiente para erguer a bilheteria do cinema vernáculo: a venda de ingressos caiu 14,77% no ano pretérito, mais do que o duplo da queda registrada pelas obras estrangeiras, que tiveram baixa de 7,14%.
Os brasileiros também brilharam pelo mundo, não só no Oscar, mas em festivais porquê o de Cannes —que premiou Wagner Moura e Kleber Mendonça Rebento porquê melhores ator e diretor, respectivamente, por “O Agente Secreto”—, e o de Berlim —que deu a “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, o Urso de Prata, o segundo troféu mais importante do evento.
É difícil atrelar o financiamento público de 2025 em específico aos prêmios —primeiro, porque filmes levam anos para serem feitos; segundo, porque alguns, porquê “Ainda Estou Cá”, não tiveram patrocínio do governo.
De toda forma, as láureas apontam para um momento fértil do cinema brasílico no exterior. O problema é que a prata da morada parece nunca ter tido tanta dificuldade para fulgurar no próprio país, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
Sem verba para marketing
Uma das principais razões por trás da queda da bilheteria do cinema vernáculo, dizem os especialistas, é que a maioria dos lançamentos não tem verba para publicidade.
Calejada por décadas nos bastidores porquê produtora de sucessos do porte de “Meu Pretérito me Condena” e “De Pernas pro Ar”, Mariza Leão diz que o cinema, no mundo todo, se ancora em um tripé: produção, distribuição e exibição.
No entanto, o financiamento público só tem olhado para a produção, diz ela, que também foi presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual e diretora da RioFilme, produtora vinculada à Prefeitura do Rio de Janeiro.
“A gente não tem orientação de porquê seguir depois que a obra está pronta”, afirma. “Isso dá a quem teve a oportunidade de fazer seu primeiro filme uma oportunidade de verdade? É uma teoria falsa, porque todo diretor quer que seu filme seja visto, que seja respeitado ou criticado, mas que gere um movimento na sociedade.”
Ela lembra que o padrão da indústria dos Estados Unidos, a mais bem-sucedida do mundo no cinema, é investir no marketing o mesmo valor gasto na produção.
Isso porque, sem verba para fazer comerciais, espalhar cartazes pelas cidades, levar o elenco para dar entrevistas a programas de rádio e TV, qualquer investimento de filmagem, em termos comerciais, é em vão, diz a cineasta, acrescentando que poucos filmes se divulgam com o chamado boca a boca.
Thiago Correia, da produtora Filmes de Plástico, sabe muito disso. Ele é produtor de Marte Um, filme premiado em festivais que acompanha uma família negra da periferia de Minas Gerais tentando manter vivos seus sonhos —mormente o de um menino que deseja ir a Marte— em meio ao caos social e político do país.
O produtor conta que, enquanto teve pouco mais de R$ 1 milhão para filmar o longa-metragem —um valor já considerado muito inferior diante das cifras da indústria—, precisou se virar com R$ 100 milénio para distribuí-lo.
“A gente tem que fazer cópias do filme para repartir em um país continental, imprimir cartazes, levar o elenco para viajar até as estreias, e R$ 100 milénio não é zero. A gente estreou em 33 salas e, com o boca a boca, chegamos a 70. Conseguimos um milagre, mas mesmo milagres têm um teto”, ele diz.
Para confrontação, o Brasil tem 3.554 salas. Mesmo com pouca penetração nos cinemas, “Marte Um” acabou se beneficiando do boca a boca depois que artistas famosos passaram a comentá-lo nas redes sociais.
“Mas não adianta querer público se seu filme entra em papeleta às 14h30 de uma quinta-feira. Nem eu nem a maior segmento da população pode ir ao cinema a esta hora. Aquele filme vai estrear e não vai sobreviver uma semana em papeleta, porque não vai ter ingressos vendidos, vai estrear outro título e vai virar um fracasso.”
Isso impacta inclusive a corrida ao Oscar, afirma Correia. “Marte Um” teve um desempenho tão superior entre a sátira que foi escolhido pela Liceu Brasileira de Cinema para simbolizar o Brasil no Oscar e disputar uma indicação.
Não conseguiu chegar até lá, diz o produtor, porque se já não havia verba para fazer marketing no Brasil, tampouco haveria no exterior. “Para chegar ao Oscar, o filme precisa ser visto. Fechar uma sala com um coquetel em Novidade York ou em Los Angeles e exibir para os críticos custa US$ 30 milénio (tapume de R$ 159 milénio). Uma página de pregão em uma revista especializada porquê a Variety custa US$ 30 milénio”, ele exemplifica.
Sem espaço nas salas de cinema
Empresários do setor exibidor dizem que, do lado deles, a situação também não é fácil. Os cinemas entraram em crise na pandemia e, com o incremento das plataformas de streaming nesse período, não se recuperaram integralmente. No mundo todo, as pessoas vão menos ao cinema hoje do que em 2019.
Não é difícil compreender: os serviços digitais oferecem uma ampla variedade de filmes e séries por um valor mensal que, não vasqueiro, é menor do que o de um único ingresso —e que ainda pode ser dividido por uma família inteira.
Dito isso, os cinemas enfrentam um dilema: pôr em papeleta filmes brasileiros e experimentais —que não são estrelados por grandes astros, mas representam um fôlego diante das fórmulas desgastadas de Hollywood— e os arrasa-quarteirões americanos que garantem o fluxo de caixa.
Esse impasse se traduz em números. Em 2025, entre nacionais e estrangeiros, 508 filmes competiram por espaço nos cinemas. Foram quase dez lançamentos por semana.
Esse número é muito difícil de governar, diz André Sturm, possuidor do Cine Belas Artes, um dos principais cinemas de rua de São Paulo, com uma vocação pessoal para a exibição de filmes independentes.
Ele explica: cada cinema no Brasil tem, em média, unicamente quatro salas. É menos da metade da quantidade de estreias semanais.
No término, para ocupar espaço, um filme precisa vender pipoca. A bombonière, Sturm acrescenta, pode simbolizar mais da metade da receita de um cinema —e, se o título não desperta interesse, as salas esvaziam e a pipoca murcha.
Até existe um mecanismo de proteção às obras brasileiras. É a chamada quinhão de tela, que expirou durante o governo de Jair Bolsonaro e foi recriada por Lula. Mas ela não abarca nem um terço das estreias nacionais.
Os maiores cinemas do país têm porquê obrigação programar no mínimo 32 títulos brasileiros por ano, perante os 203 lançados, em ao menos 16% das sessões, a depender da quantidade de salas do multíplice.
Adiante do Espaço Petrobras de Cinema —um dos complexos de rua mais tradicionais ainda em atividade em São Paulo—, Adhemar Oliveira é outro empresário que vive o dilema entre a produção vernáculo e a estrangeira.
“Estúdios porquê a Disney querem todas as salas. A gente tem que descobrir um estabilidade, mas é difícil. Qual é o limite da ganância, por fim? Não existe. Tem exibidores que dão todas as salas para um único filme”, diz.
Ele avalia que falta investimento não unicamente na distribuição —superfície que inclui o marketing—, mas também na exibição, para que os cinemas possam transfixar as portas para filmes brasileiros sem o risco de comprometer uma renda já em queda.
Seja verba vinda dos cofres públicos, seja de parcerias com entes privados. Oliveira cita um projeto bem-sucedido que fez para “Medida Provisória”, filme em que Lázaro Ramos imagina um porvir distópico no Brasil em que pessoas negras são deportadas para a África.
Na ocasião, o estúdio por trás da obra comprou milhares de ingressos do cinema, localizado na rua Augusta, para doar a jovens de baixa renda que não tinham condições de comprá-los —o preço médio de uma ingressão é R$ 20,23.
“Torço pelo cinema vernáculo, mas tenho uma economia para fazer remoinhar, e já estou afundado, porque sou o para-raio de muitos filmes brasileiros em São Paulo”, diz o empresário.
Sem conexão com o público
Mas o problema vai além. Mesmo que houvesse mais investimento para distribuição e exibição, a maioria desses filmes que fracassaram nas bilheterias no ano pretérito faria pouco sucesso, diz a produtora Mariza Leão.
Sua avaliação encontra repercussão na de André Sturm, que, além de chefiar cinemas, também foi secretário de Cultura da capital paulista na gestão de João Doria.
“Dos 203 filmes brasileiros que estrearam no ano pretérito, ninguém consegue se lembrar de cinco, porque não tivemos cinco que geraram interesse”, diz ele, que também programa algumas salas da rede Cinesystem em São Paulo e no Rio de Janeiro.
“Eles poderiam ter gasto R$ 1 milhão de marketing que teriam feito no sumo 1.500 ingressos. Tem uns 20 filmes que, se tivessem marketing, teriam feito uns 50 milénio, mas isso ainda não sustenta um mercado”, acrescenta.
Uma das razões disso é a falta de conexão do público com as histórias, a maioria de viés identitário, segundo o empresário. “Tem quem ache que seu filme precisa ser visto só porque o tópico é relevante. Mas isso é diletante. A maior segmento das pessoas não sai de morada para ver um filme só porque ele debate um tema importante.”
Diretor do Portal do Exibidor, voltado ao setor audiovisual, Marcelo Lima reforça a avaliação de que há uma desconexão com o público —por motivos que não se limitam às narrativas, mas também à qualidade técnica—, acrescentando que essa irregularidade muitas vezes não pode ser atribuída aos artistas.
“O mercado de cinema ficou altamente dependente de recurso público, e porquê ele é democrático, visa deslindar novos talentos, a gente tem uma quantidade cada vez maior de filmes, mas com baixa qualidade técnica, porque não se faz uma grande produção com R$ 1 milhão”, diz ele, fazendo comparações com ‘Ainda Estou Cá’, que custou R$ 45 milhões, e ‘O Agente Secreto’, que saiu por R$ 28 milhões.
“É mais de R$ 1 bilhão de investimento, mas e aí? A gente libera recursos parcos para ter uma quantidade enorme de filmes ou concentra em 40 projetos de R$ 20 milhões? O que é mais democrático, se você quer fazer uma indústria ser pujante, concentrar, ou repartir? Tem pontos positivos e negativos nas duas opções. Eu não queria estar no lugar da Ancine”, diz o executivo.
Entraves com a Ancine
Mesmo com o progresso dos investimentos privados, vindos principalmente do streaming, é difícil falar de produção audiovisual brasileira sem mencionar políticas públicas.
Enfim, a maior segmento dos filmes nacionais que chegam aos cinemas é produzida com recursos públicos, seja por meio de linhas de crédito, seja por repasses decorrentes de incentivos fiscais concedidos a empresas.
Mas os produtores e exibidores ouvidos pela reportagem afirmam, em uníssono, que a iniciativa para a indústria cinematográfica enfrenta diversos entraves, apesar dos investimentos que vêm sendo superados ano a ano.
A BBC News Brasil entrou em contato com o Ministério da Cultura e a Ancine há uma semana, mas os órgãos não responderam aos pedidos de entrevista para comentar as críticas e esclarecer sua estratégia de investimentos.
É alguma coisa que, na visão dos produtores e exibidores, a própria distribuição de recursos evidencia. Nos relatórios de gestão da Ancine, o aporte talhado à comercialização de filmes, incluindo marketing, não passa de 20% do investimento totalidade.
O setor também cita a falta de regularidade na exórdio de editais e a vagar na divulgação dos resultados, o que dificulta o funcionamento de empresas que dependem majoritariamente de repasses públicos.
Há ainda críticas ao processo de prestação de contas. Hoje, existe um passivo de 1.246 projetos —alguns desde 2013— que ainda não tiveram sua prestação analisada. O montante soma R$ 2,27 bilhões, quase o duplo do investimento totalidade de 2025.
As críticas não se limitam ao governo atual e se estendem a gestões anteriores, sobretudo à de Jair Bolsonaro (PL), que, segundo eles, promoveu um desmonte generalizado no setor.
O problema agora, afirmam, é que o aumento dos investimentos em produção, sem avanços equivalentes nos outros pilares da indústria, cria um desequilíbrio no setor.
“Lucrar o Oscar ou qualquer prêmio é porquê um selo de qualidade, mas não de bilheteria”, diz Adhemar Oliveira, do Espaço Petrobras de Cinema. “Isso dá uma jogada de marketing, valoriza o filme brasílico, mas em termos de resultados para a indústria pouco importa.”
Gráficos por Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil
A reportagem foi publicada originalmente cá
