Oscar: Por que blues de Pecadores é símbolo de resistência

Oscar: Por que blues de Pecadores é símbolo de resistência – 10/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ao repuxar os cantores negros de blues para fora dos espaços culturais no sul dos Estados Unidos, no início do século pretérito, a segregação racial os forçou a resistir na clandestinidade. Espaços porquê aquele que serve de cenário para “Pecadores”, filme de Ryan Coogler indicado a 16 estatuetas do Oscar.

O longa conquista o clima da estação ao escoltar os irmãos gêmeos Fumaça e Sujidade em seu retorno ao estado americano do Mississippi, para fundar o Clube do Blues. Mais que diversão, o bar, escondido no fundo da floresta, convida a população negra a comemorar, sem susto e ao som do gênero, as suas tradições.

Com seu recorde histórico de 16 indicações no Oscar —incluindo melhor filme, direção e ator, para Michael B. Jordan—, “Pecadores” mistura ainda os gêneros thriller e horror a esse retrato do sul dos Estados Unidos de 1932, para explorar temas porquê racismo, exclusão, ancestralidade e musicalidade negra.

O blues é o fio condutor de toda a narrativa. Mais que um gênero músico, ele é uma síntese cultural que começa nas plantações de algodão do século 19 e que preserva em suas letras elementos da cultura afro-americana. Nas composições, há observação político, filosofia folk e crença popular. Seu papel de resistência para a população negra está intimamente ligado à sua origem, por ter surgido na voz dos escravos.

Eles foram os primeiros a trovar as chamadas “work songs” magia popular —músicas de trabalho. “Nessas canções, ao mesmo tempo que narravam as dificuldades de ser trabalhador no campo, tentavam despressurizar a vida enfadonha do trabalho servo por meio da simplicidade”, diz Caio Francisco Azevedo, doutorando em assombrologia do jazz na Universidade Paris 8.

Ele cita ainda outros dois elementos principais desse blues mais primitivo. O “call-and-response”, chamada e resposta, no qual você tem alguém criando a música e outras pessoas respondendo a esse chamado, e o “field hollers”, que eram comunhões autorizadas pelos senhores onde a população negra se reunia e cantava.

A profissionalização do blues porquê gênero, no formato que vemos em “Pecadores”, só ocorre no século 20. O “call-and-response” permanece, mas agora as letras denunciam os problemas vivenciados pela população negra segregada, porquê a violência doméstica, o alcoolismo e a perseguição por grupos supremacistas, porquê a Ku Klux Klan. Entre 1882 e 1927, mais de 4.000 negros foram linchados no sul do país, vale expor.

Há também o libido do cantor preto de trepar economicamente numa sociedade na qual os empregos formais eram direcionados aos brancos, um libido semelhante ao do protagonista do filme de Coogler, que é aspirante a músico.

“Embora a emancipação dos escravos tenha sucedido em 1865, o esforço para a sua integração na cidadania foi mínimo”, diz Sean Purdy, professor de história americana da USP. “Eles não podiam frequentar os mesmos espaços que brancos, porquê escolas, cinemas ou trens. Isso só vai mudar nos anos 1960.”

Uma das saídas era entrar na indústria fonográfica, que emergia no setentrião na dez de 1930. Se no sul do país eles tinham que fugir do linchamento e recorrer a espaços escondidos para trovar, o outro lado do planta os convidava a subsistir socialmente por meio da sua voz. Mas com uma requisito —que deixassem de lado os dramas negros, uma vez que eles não eram comerciais, lembra Azevedo.

“A música foi um dos poucos espaços sociais almejados pelos negros que poderia trazer alguma retribuição financeira”, diz. No filme, o protagonista Sammy quer justamente ir para Chicago trovar blues.

Não só dele, mas de muitos cantores que migraram para o setentrião com a expectativa de mudar de vida. Entre eles, Muddy Waters, Howlin Wolf, T Bone Walker, Big Bill Broonzy, Son House, Robert Johnson, Ma Rainey e John Lee Hooker.

O blues só alcança a indústria fonográfica quando as narrativas passam a ser românticas. Não à toa, Delta Slim, cantor veterano do filme que ainda preserva consigo características do blues primitivo, porquê o uso da gaita, faz um observação sobre isso em determinada cena.

“Os brancos gostam muito de blues, só não de quem faz.” Na ocasião, o personagem preto relembra um vasqueiro momento em que foi convidado, na sua juventude, para trovar numa sarau de brancos. Naquela noite ele tocou blues, mas com piano. Narrou também os dramas, mas dos brancos.

A menção a entidades e objetos de religiões afro-americanas, porquê o vodu e hoodoo, muito frequente no blues do sul, era outro motivo de repudiação da indústria cultural, explica Babalorisá Geizo de Sango, perito em religiões de matrizes africanas pela PUC Campinas.

“Desde o início do século 20, o blues é tratado porquê ‘música do Diabo’, porque ele menciona objetos porquê o ‘mojo’ [amuleto da sorte], as ‘conjure balls’ [bolas de conjuro] e o ‘black cat bone’ [ossos de gato preto]”, afirma. “É muito geral também no blues o cantor falar que vai vender sua espírito em troca do sucesso.”

Ele cita a mito mais famosa, de Robert Johnson, considerado o rei do blues do delta do Mississippi. “Na história, ele era um violinista medíocre que desapareceu por um tempo e, ao retornar, tinha uma habilidade sobrenatural com o violão.”

“Diz a mito que, numa encruzilhada no meio da noite, Johnson encontrou uma figura subida e negra, o Diabo ou, no folclore, ‘The Black Man’, que afinou seu violão em troca de sua espírito. Ele alimentou essa mito com a música ‘Me and the Devil Blues’, onde canta ‘eu e o Diabo andávamos lado a lado’.”

É por isso que, logo no primórdio do filme, o pai de Sammy, pastor de uma igreja protestante, orienta o rebento para que largue o violão e pare de trovar blues, pois isso “é coisa do Diabo”. Mas havia também um outro lado nas letras, o das coisas consideradas promíscuas, lembra Purdy. “As músicas eram tocadas em bares e exaltavam a prostituição, o alcoolismo e também criticavam os pastores.”

Para além de mito, Babalorisá destaca que o Diabo no blues funcionava porquê uma metáfora para a perseguição. “Já o pacto zero mais era que uma metáfora para os contratos injustos que os cantores enfrentavam da indústria fonográfica branca, vendendo seu talento —a espírito— por pouco ou nenhum retorno.”

Apesar da dificuldade de crescer numa indústria majoritariamente branca, Azevedo destaca que o blues continuou servindo porquê um instrumento incontornável de denúncia da veras social afro-americana entre os cantores. “E também porquê uma forma secular de espiritualidade que mantinha viva a identidade afro”, completa Babalorisá.

Mesmo com o pedido de seu pai para deixar o violão, o Pastorzinho, porquê Sammy também era chamado, resiste, se agarrando firmemente ao instrumento, que vai ser seu parceiro até o epílogo do filme, nos anos 1990, quando a guitarra elétrica chega —e, com ela, o blues se ramifica em novos gêneros, porquê o rock e o hip-hop.

Folha

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