Ao perfurar sua temporada 2026 com “Gruppen”, constituição escrita entre 1955 e 1957 por Karlheinz Stockhausen, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp, desafiou a si mesma, estimulou seu público, provocou adaptações na Sala São Paulo e rompeu com o esboço tradicional de um concerto sinfônico.
A combinação da obra de Stockhausen com a transcrição de Heitor Villa-Lobos para a “Fantasia e Fuga” em dó menor, BWV 537, de Johann Sebastian Bach —original para órgão—, seguida pela “Nona Sinfonia” de Beethoven, não inova somente dentro do contexto brasílico. De veste, se tomarmos uma vez que referência os anos mais recentes, é difícil encontrar qualquer paralelo nas aberturas de temporadas das orquestras mais conhecidas do hemisfério setentrião.
Poucas obras orquestrais têm o intensidade de dificuldade de realização de “Gruppen”. Herdeira do chamado serialismo integral, técnica de constituição desenvolvida posteriormente a Segunda Guerra Mundial, na qual o desdobrar dos parâmetros sonoros é regulado por estruturas previamente definidas, as “séries”, ela ainda adiciona múltiplas camadas: grupos instrumentais homogêneos e heterogêneos, sintetizados acusticamente de forma coesa.
Para tanto, Stockhausen concebe a interação simultânea programada entre três grupos orquestrais distintos e independentes. Por isso, na primeira secção do concerto, a equipe da Sala São Paulo teve de fabricar dois palcos laterais, principalmente para acomodar as outras duas orquestras extraídas da “grande Osesp”.
Cada uma dessas orquestras tinha o seu regente. Se na estreia mundial, em Colônia, em 1958, atuaram lado a lado o próprio Stockhausen, Bruno Maderna e Pierre Boulez, na estreia brasileira desta quinta-feira (5), o titular da Osesp, Thierry Fischer —na orquestra dois, centralizada—, atuou com Wagner Polistchuk —na orquestra um, à esquerda do público— e Ricardo Bologna —na orquestra três, à direita de quem olha para o palco.
Os maestros têm de se olhar durante toda a peça —que de veste inaugura um novo modo de pensar o tempo músico—, já que, durante o trajectória, há ininterrupção, relação, complementação, superposição e embate entre os agrupamentos instrumentais distribuídos nos três palcos.
Stockhausen cria blocos que se expandem e retraem, que se movem no espaço. Não se trata somente de uma teoria criativa, mas de uma realização artesanal impecável, que beirada a mágica, a prestidigitação, o prestidigitação.
A individualidade dos blocos sintetiza sons percussivos extremamente atraentes; silêncios também se fazem sentir; há uma guitarra elétrica na orquestra médio e, a partir da segunda metade da constituição, um piano passa a agrupar em si as ideias, levando adiante essa história sem narrativa.
No momento mais comovente da noite, ao final de “Gruppen”, uma nota sustentada deu início ao conluio de Villa-Lobos —tal qual natalício se comemorava no dia— para a “Fantasia e Fuga” de Bach: sem pavor de decorrer riscos, a versão foi apresentada com a orquestra ainda dividida em três, e com os três maestros buscando um único som, na transparência da textura barroca. Foi uma lição de despojamento, descentralização e riqueza.
Foram necessários 40 minutos de pausa para que os palcos extras fossem desmontados, e a Sala São Paulo voltasse ao seu formato usual para a performance da “Nona Sinfonia”.
No primeiro movimento, entretanto, parecia ainda ter muita adrenalina. Foi demasiadamente rápido, com sopros fortes —principalmente os trompetes— e sem muitas sutilezas fraseológicas: nem parecia ser a Osesp de Thierry Fischer.
Mas as coisas foram, aos poucos, se aquietando. No terceiro movimento tudo já estava plenamente ajustado, e o “Finale” foi réplica na dificílima equalização entre a orquestra, os coros —Coro da Osesp e Coro Acadêmico da Osesp—, e os quatro cantores solistas —a soprano Camila Provenzale, a mezzo Ana Lucia Benedetti, o tenor Issachah Savage, e o inferior Sávio Sperandio.
Beethoven tematiza, através da “Ode à Alegria” de Schiller —o texto cantado por coro e solistas—, o ideal Iluminista de fraternidade humana; já Stockhausen cata os cacos do mundo destruído pelas grandes guerras para apostar numa novidade consciência, de modo a “expandir nossos sentidos, nossa percepção, nossa lucidez, nossa sensibilidade”. Entre ambos ouviu-se o Bach “bachiano brasílico” de Heitor Villa-Lobos.
