Ótima, Les Indes Galantes entrelaça música e danças de rua

Ótima, Les Indes Galantes entrelaça música e danças de rua – 01/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Você nutriz demais; e você não nutriz o suficiente.” Assim Zima, filha do superintendente indígena americano, rechaça seus dois pretendentes estrangeiros, o espanhol Don Alvar e o gálico Damon. No término ela escolhe Adario –um indígena uma vez que ela.

Os perdedores aceitam o rumo, e portanto começa, na forma rondó, a “Dança do Grande Cachimbo da Tranquilidade”, o trecho mais célebre de “Les Indes Galantes”, ou “As Índias Galantes”, ópera de Jean-Philippe Rameau com libreto de Louis Fuzelier, em edital no Theatro Municipal de São Paulo.

A montagem tem direção músico do maestro suíço-argentino Leonardo García-Alarcón —um dos destaques da temporada paulistana 2024 uma vez que convidado da Osesp na direção da “Missa em Si Menor” de Bach— e direção cênico-coreográfica de Bintou Dembélé, uma das pioneiras da dança hip-hop na França.

Garcia-Alarcón trouxe consigo o grupo Cappella Mediterranea e o Coro de Câmara de Namur —com quem, em 2017, havia apresentado com sucesso em São Paulo uma versão da ópera “Orfeo”, de Monteverdi—, e Dembélé teve também o base dos bailarinos de seu grupo, o Structure Rualité. Juntam-se aos artistas internacionais —o que inclui também os quatro cantores solistas— alguns bailarinos e músicos brasileiros convidados e o Coral Paulistano.

Um dos mais importantes nomes do barroco gálico, Rameau deixou marcas importantes uma vez que compositor de música instrumental para teclado e uma vez que responsável de um dos primeiros tratados de simetria modernos antes de se destinar à ópera.

“Les Indes Galantes” estrutura-se com um prólogo e quatro cenas —”O Turco Generoso”, “Os Incas do Peru”, “As Flores da Pérsia” e “Os Selvagens da América do Setentrião”. A história reflete os inúmeros relatos de viagens publicados no século 18, os quais despertavam, na Europa —em próprio na França—, imensa curiosidade sobre os costumes e traços culturais de diferentes povos.

Durante seus 80 anos de vida, Rameau envolveu-se —melhor seria expor foi envolvido— em diversas polêmicas teórico-musicais, e não seria desproposital expor, utilizando o jargão contemporâneo, que ele tenha sido, mais de uma vez, cancelado.

Inicialmente por ser excessivamente progressista em sua escrita músico que, ao fabricar efeitos sonoros com cume texto de descritividade, sobretudo em cenas envolvendo fenômenos naturais, se distanciava da tradicional “tragédie lyrique” de Lully, seu predecessor.

Tempos depois, no entanto, sua obra seria acusada de conservadora pelo filósofo Rousseau, para quem o porvir adviria somente da ópera cômica cantada em italiano. O embate entre eles ficaria divulgado uma vez que “querela dos bufões”.

A coreografia de Dembélé conecta virtuosisticamente os princípios de diferentes formas da dança de rua à música barroca. Não há estereótipos —tensos e intensos, os corpos retorcem-se a partir da música, com bailarinos saindo do meio da plateia e do fundo da sala, jogando plasticamente com a velocidade dos movimentos e, com a ajuda da iluminação de Benjamin Nesme, sempre enfatizando a elaboração músico. É belíssimo.

Coro e corpo de dança movimentam-se pelo espaço e se misturam, uma vez que se não pudessem se sustar. Em diversos momentos, também os instrumentistas —tocando de memória e em pé— se juntam a eles. Garcia-Álarcón rege em movimento, circulando, para dar conta da simultaneidade de eventos.

Cada um dos quatro solistas interpretou diferentes personagens. São eles a soprano francesa Laurène Paternò, que cresceu ao longo da récita do último domingo, e os extraordinários Mathias Vidal, tenor gálico; Ana Quintans, soprano portuguesa, e Andreas Wolf, baixo-barítono germânico.

O palco do Theatro Municipal é, entretanto, um pouco pequeno para o número de pessoas envolvido na montagem. Sem que isso seja um problema sério, algumas vezes a movimentação de bailarinos e coralistas razão certa confusão visual, sobretudo quando cobre os cantores solistas para o público.

Perto do final, quando o oração cênico já estava consumado, Garcia-Alarcón voltou-se para os músicos a término de extrair contrastes mais finos de dinâmica e fala. De indumento, é sempre bom lembrar que, mesmo numa ópera, tudo tem de partir e retornar à música.

Folha

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