Ozzy Osbourne, morto aos 76 anos, inventou o heavy metal. Não só ele, simples. Foi junto com os comparsas Tony Iommi, guitarrista, Bill Ward, baterista, e Terry “Geezer” Butler, baixista. Com eles, criou a orquestra Black Sabbath e lançou, em 13 de fevereiro de 1970, um disco homônimo que é o marco zero do metal.
Outras bandas fizeram rock pesado antes –Led Zeppelin, Cream, Deep Purple– mas todas essas traziam em suas sonoridades uma influência muito marcante do blues. Já os quatro rapazes de Birmingham amavam blues, mas o som que conjuraram naquele primeiro disco era um pouco novo –cortante, denso, atmosférico, com letras sobre demônios, espíritos malévolos e feiticeiros.
O LP abria com estrondo de chuva e um sino, enquanto Ozzy lançava um lamento lúgubre. “O que é isso diante de mim?/ Uma figura de preto que aponta para mim/ Viro rápido e início a decorrer/ Descubro que sou o escolhido!”
Em quartos escuros por todo o planeta, adolescentes cabeludos, tímidos e antissociais acharam o seu ídolo, Ozzy.
Numa hipotética lista das bandas de rock mais influentes de todos os tempos, o Black Sabbath tem vaga garantida. Eles fundaram o heavy metal e todos os seus filhotes, stoner, grunge, doom, noise, drone, thrash metal, death metal, power metal e outros que ainda nascerão.
E pensar que tudo isso foi obra de quatro moleques pobres de classe proletária que só queriam evadir do tédio e dos empregos em fábricas cinzentas de Birmingham. O próprio John Michael Osbourne dizia que não tinha nenhuma perspectiva de vida antes do Sabbath. “Meu pai sempre disse que eu iria fazer alguma coisa importante qualquer dia”, disse na autobiografia “Eu Sou Ozzy”.
“‘Sinto isso, John Osbourne’, ele me dizia, depois de algumas cervejas. ‘Ou você vai fazer um pouco muito privativo ou vai ultimar na masmorra’. E ele estava evidente, meu velho pai. Fui parar na masmorra antes de completar 18 anos!”
Ozzy era disléxico, sofreu doesto sexual de colegas da escola e tentou suicídio algumas vezes quando jovem. Largou a escola ainda juvenil e foi trabalhar em fábricas e num abatedouro de animais. Tentou a vida de ladrão, mas nem para isso servia –foi recluso depois de roubar uma loja de roupas. O pai, que trabalhava na General Electric, recusou-se a remunerar a fiança para dar uma prelecção ao rebento, que passou seis semanas em cana.
O Black Sabbath foi a transformação na vida de Ozzy Osbourne. Com a orquestra, ele lançou oito discos em oito anos, incluindo clássicos do rock porquê “Paranoid”, de 1970, “Master of Reality”, de 1971, “Volume 4”, de 1972, e “Sabbath Bloody Sabbath”, de 1973, mas cometeu a proeza de ser expulso do grupo por mau comportamento.
Em curso solo, ajudou a definir a sonoridade mais limpa e conseguível do metal oitentista em discos porquê “Blizzard of Ozz”, de 1980, e “Diary of a Madman”, de 1981, e foi um dos pioneiros na fusão de metal com sintetizadores, em LPs porquê “Bark at the Moon”, de 1983, e “No More Tears”, de 1991, fazendo um heavy metal pop e radiofônico.
Mais que um artista influente, Ozzy Osbourne marcou seu nome na história porquê um dos grandes personagens do rock, um “porra louca” que mereceria a camisa dez num time com craques porquê Keith Richards, Lemmy e Sid Vicious. As histórias são lendárias.
Ozzy sendo recluso depois de urinar no Alamo, um festejado monumento texano. Ozzy, depois de rescender todo o estoque de cocaína no ônibus numa turnê com o Mötley Crüe, ajoelha na lajeada e cheira a única coisa que vê pela frente, uma curso de formigas. Ozzy decepando a dentadas a cabeça de um morcego que um fã jogara no palco –”Achei que era de borracha!”.
Outras histórias foram trágicas. Ozzy perdendo o colega e guitarrista Randy Rhoads num estúpido e irresponsável acidente de avião monomotor ou quase matando estrangulada a esposa, Sharon, durante um surto alcoólico.
Apesar de todos os excessos, Ozzy Osbourne viveu para relatar a história e se tornou um ícone pop, festejado em programas de TV porquê “The Osbournes”. Virou uma espécie de tio doidão do planeta Terreno, uma figura adorada por suas idiossincrasias.
Em meados dos anos 1990, fiz uma entrevista com Ozzy em Los Angeles e perguntei se ele não tinha interesse em fazer uma autobiografia. “Não tenho exigência”, disse, com sinceridade. “Tenho um buraco preto no meu cérebro, tomei tanta droga e fiz tanta merda entre 1970 e 1982 que não lembro zero daquele período.” Anos depois, com a ajuda de um jornalista fantasma, lançou a divertidíssima autobiografia “Eu Sou Ozzy”.
Naquela entrevista, Ozzy deu uma das respostas mais legais que já recebi de um artista. Perguntei por que, numa convenção de executivos da CBS à era do lançamento de um de seus primeiros discos solo, no início dos anos 1980, Ozzy deu uma dentada e arrancou a cabeça de um pombo.
“Porque os engravatados da gravadora não confiavam em mim”, disse Ozzy. “Mas eles passaram a incumbir em você depois que você comeu a cabeça de um pombo?”, respondi. “Não”, disse Ozzy. “Mas pelo menos ficaram com terror de mim e passaram a fazer o que eu sugeria”.
