Poucas coisas feitas na música soam tão dilacerantes quanto “Hand of Doom”, música do segundo álbum do Black Sabbath, “Paranoid”. O ano era 1970 e Ozzy Osbourne, morto nesta terça-feira (22), aos 76 anos, descrevia com detalhes mórbidos a morte inescapável de um personagem viciado em substâncias injetáveis —uma referência zero sutil à heroína.
O vocalista cita a Guerra do Vietnã, em curso na quadra, dando um contexto mais multíplice ao uso da droga —uma resposta psíquica de quem viveu o conflito. “Sua pele começa a permanecer virente/ Seus olhos já não enxergam/ A veras da vida/ Empurre a agulha para dentro/ Encare o sorriso doentio da Morte/ Há buracos na sua pele/ Causados por um alfinete mortal”, diz a letra.
Figura maior que a vida, Ozzy Osbourne se tornou o príncipe das trevas para o grande público, uma caricatura que hoje pode toar vulgar, mas que segmento de uma base sólida. Nos primeiros álbuns do Black Sabbath, a voz de Ozzy foi veículo primordial para esforçar um lado obscuro da existência humana, estranhezas que antes da filarmónica subsistir tinham espaço marginal na música popular.
Em “Black Sabbath”, primeira música do primeiro disco, autointitulado, do grupo de Birmingham, no Reino Unificado, Tony Iommi usa pouquíssimas notas na guitarra para gerar um envolvente macabro no qual Ozzy se revela para o mundo. Ele soa sinistramente indiferente ao expor que há uma figura de preto em pé detrás dele, apontando para ele, enquanto os caminhos melódicos que percorre não só corroboram a mensagem —eles são a mensagem.
Desde o Black Sabbath, a música popular foi aderindo a temas sombrios de diferentes maneiras. O thrash metal do Sepultura e do Slayer sintetizou o ódio mais diretamente na forma de cantos guturais, seguindo a trilha de Lemmy no Motörhead. O Iron Maiden injetou melodia na música pesada em suas faixas épicas. O Kiss sempre soou uma vez que um filme de terror escrachado e bem-humorado, enquanto Alice Cooper fez das trevas um teatrinho.
Toda essa produção deriva diretamente dos quatro primeiros discos do Black Sabbath —o autointitulado e “Paranoid”, ambos de 1970, “Master of Reality”, de 1971, e “Vol. 4”, de 1972—, as verdadeiras raízes do rock pesado. Os elementos da estética do terror na música se multiplicaram, mas zero nunca teve o impacto do quarteto inglês nos anos 1970.
Além do pioneirismo, e dos embates morais em sociedades cristãs e conservadoras, o Black Sabbath carregava uma crueza brutal. Cada toque na bateria de Bill Ward parecia tarar uma tonelada, sem toar uma vez que um helicóptero desgovernado. Os baixos de Geezer Butler eram o esqueleto desse demônio sônico, enquanto Iommi usava as mais sujas das distorções disponíveis na quadra para levar o som do grupo diretamente ao inferno.
A abordagem do guitarrista, aliás, é uma boa síntese do próprio Sabbath. Ele perdeu as pontas dos dedos médio e anelar da mão direita em um acidente de trabalho quando tinha 17 anos, e seu estilo deriva dessa quesito. Iommi passou a gerar riffs mais simples e diretos, e usou afinações mais graves e leves para facilitar que conseguisse tocar com as próteses.
Ozzy não perdeu nenhuma corda vocal na mocidade, mas também se destacava pela simplicidade. Sempre econômico, ele não só sabia quando entrar e trespassar de cena em uma música, mas recusava estripulias e artifícios teatrais para toar macabro. Sua voz era feroz e cortante, mas se destacava mesmo porque parecia ter o timbre exato de alguma pessoa demoníaca.
Zero disso teria a força que teve se o Sabbath não tocasse nos temas que tocava —justamente através da voz de Ozzy. A música “Sweet Leaf”, ou folha rebuçado, começa com a gravação de uma pessoa tossindo, e fala basicamente sobre maconha. “Snowblind”, ou cego de neve, não esconde do que se trata, já que vozes sussurram “cocaine”, ou cocaína, logo no término da primeira estrofe.
E as drogas, sob a ótica da dualidade entre o prazer e a autodestruição, eram unicamente um desses temas. Um dos maiores hits do grupo, “War Pigs”, trata da banalização da vida na mão de poderosos, através da guerra —explorada em outras faixas, uma vez que “Electric Funeral” e “Children of the Grave”. “Paranoid”, outro sucesso, é o retrato de um quadro depressivo, em que o eu-lírico não consegue enxergar a felicidade.
Em “N.I.B.”, Ozzy assume o ponto de vista de um satanás irresistivelmente sedutor que parece simbolizar desejos reprimidos enquanto promete ao ouvinte o sol, a lua e as estrelas. “Behind the Wall of Sleep” descreve um vislumbre da morte de alguém que tanto pode estar sonhando quanto no término da vida.
Ozzy obteve até mais sucesso mercantil depois dos anos 1970, já fora do Black Sabbath. A longevidade da obra da filarmónica, todavia, é sinal inequívoco de que nem ele depois —e nem ninguém— trouxe tão muito à superfície essas faces ocultas da psique humana através do quina.
