Para Jards Macalé, as ideias nunca couberam nas formas

Para Jards Macalé, as ideias nunca couberam nas formas – 18/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

As fusões sonoras e poéticas propostas pelo tropicalismo são, em universal, exercitadas quase de modo clássico por Caetano Veloso e Gilberto Gil. De traje, as personalidades antenadas e camaleônicas dos baianos passam com facilidade de estilo a estilo, às vezes de um álbum a outro, às vezes de uma tira a outra, mas cada música mantém, em universal, certa identidade homogênea.

Jards Macalé, que morreu nesta segunda-feira no Rio de Janeiro –sua cidade natal–, aos 82 anos, não. Para ele, as fusões são “verticais”, simultâneas, capazes de perverter uma música em seu miolo.

Sendo mais técnico que Tom Zé, menos zen que Walter Franco e menos dadaísta que Jorge Mautner, Macalé –o artista para quem as ideias nunca couberam perfeitamente nas formas– foi o anti-João Gilberto. Por isso, talvez, eles se adoravam.

A conexão com João não se dá exclusivamente por sua incrível habilidade de violonista acompanhador, com espaçoso domínio das harmonias da bossa, mas também por um zelo com o remate sonoro. O tônus blueseiro de seu álbum de estreia —”Jards Macalé”, de 1972— traz um power trio com veludo “gilbertiano”, tendo Lanny Gordin no insignificante elétrico e Tutty Trigueiro na bateria.

Porquê João, Macalé era um tradutor renovador e respeitoso de sambas e boleros antigos –com os quais surpreendia e emocionava o público em seus shows–, manante que trouxe à baila em “Contrastes”, álbum de 1977. O que se seguiu em “4 Batutas & 1 Coringa”, lançado dez anos depois, e se ramificou por trabalhos que, periodicamente, homenagearam nomes uma vez que Ismael Silva, Moreira da Silva, João Donato, Zé Keti e muitos outros.

Sua versão voz-violão do “Hino Vernáculo”, a qual cantava no ponto culminante de shows intimistas nos anos 1980 –uma vez que no Teatro Lira Paulistana, causa da Vanguarda Paulista–, com seriedade totalidade, sem ironias fáceis, procurando cada sílaba, respeitando a melodia, achando sentidos na escolha dos acordes, era uma lição sobre o poder sutil de subversão provável à arte.

Esse “classicismo”, o qual ele sempre conservou no horizonte, era, entretanto, pouco demais para a sua incontida frase. Desde a primeira aparição, com “Gotham City”, no Festival Internacional da Melodia de 1969, nunca temeu a desmedida. O grito, a postura catártica que aceita o estorvo, o vidro e o incisão da vida que não se aguenta. Foi vaiado e aplaudido, incompreendido e adorado. No LP “Let’s Play That” (1983), que tem participação mediano de Naná Vasconcelos, esses extremos tocam-se permanentemente.

Se arte sempre esteve em subida, a curso –no sentido mais prosaico do termo– teve muitos altos e baixos, e o caleidoscópico “O que Faço É Música”, album de 1998, foi, por 20 anos, o seu último disco de canções inéditas. Nele gravou pela primeira vez de forma integral “Vapor Barato” —a parceria com Waly Salomão apresentada por Gal Costa em “Fa-Tal – Gal a todo Vapor”, histórico álbum ao vivo de 1971.

O contato com uma novidade e criativa geração que havia desenvolvido ouvindo a sua música –Kiko Dinucci, Tim Bernardes, Romulo Fróes, Rodrigo Campos e outros–, renovou inesperadamente a sua produção a partir do final da dez passada. Álbuns uma vez que “Besta fera” (2019) e o fortíssimo “Coração Bifurcado”, de 2023, eleito um dos melhores do ano, selaram sua magna tributo à música popular brasileira.

Macalé estudou piano e orquestração com Guerra Peixe, violoncelo com Peter Dauelsberg, violão com Turíbio Santos e Jodacil Damasceno, e estudo músico com Esther Scliar.

Antes de gravar seu LP de estreia, Macalé havia sido o produtor e violonista solo de “Transa”, disco de Caetano Veloso feito no exílio em Londres, cujos 40 anos teve a oportunidade de comemorar, há dois anos, em shows que reuniram a formação original –incluindo o próprio Caetano.

O cerne da personalidade poética de Macalé brotava em inúmeras canções, que podem ser pinçadas quase aleatoriamente. Em “Mal Secreto”, a terceira tira de seu disco de estreia, os versos jorram assim: “Se você me pergunta/ Porquê vai?/ Respondo sempre igual/ Tudo lícito/ Mas quando você vai embora/ Movo meu rosto no espelho/ Minha psique chora/ Vejo o Rio de Janeiro/ Comovo, não salvo, não mudo/ Meu sujo olho vermelho/ Não fico parado, não fico silente, não fico quieto”.

Folha

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