A plumagem colorida das araras-canindés voltou ao firmamento da cidade do Rio de Janeiro com a realização da primeira soltura da espécie na capital fluminense, onde ela era considerada extinta.
Foi no início deste mês de janeiro que a organização da sociedade social Refauna, com base do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), libertou três fêmeas da espécie, que receberam os nomes de Fernanda, Suely e Fátima. Os pássaros foram reintroduzidos no Parque Vernáculo da Tijuca.
“Não tem mais população de araras-canindés [no Rio]”, disse à Sucursal Brasil a bióloga do Refauna e coordenadora de reintrodução das araras, Lara Renzeti. “Essa foi a primeira e, até agora, a única soltura dessa espécie de aves no Rio de Janeiro”.
O nome Fernanda foi escolhido para homenagear a atriz Fernanda Torres, que estrelou o premiado filme Ainda Estou Cá. Já Fátima era a personagem dela no seriado Tapas e Beijos, em que Andréa Beltrão interpretava sua parceira Suely.
As aves vieram do Parque Três Pescadores, localizado em Aparecida, no interno de São Paulo, onde fica o Refúgio das Aves, meio de protecção e restauração de animais silvestres que não apresentam comportamento de domesticação.
Uma quarta arara também seria liberada, mas precisou de mais tempo sob zelo especializado. Chamado de Selton, em homenagem ao ator Selton Mello, que interpretou Rubens Paiva no filme premiado, o réplica másculo que fazia segmento do grupo não pôde passar pela aclimatação necessária para a soltura porque ainda se recupera de uma infecção pulmonar não contagiosa. A medicação usada no tratamento enfraqueceu as penas das asas de Selton, que terá de esperar a geração de novas penas para poder voltar a voar.
Com isso, Selton deverá esperar a chegada de novo grupo de quatro ou seis novas araras-canindés, para passar pelo processo de aclimatação e ulterior soltura.
Lara Renzeti acredita que o novo grupo deverá chegar ao Parque Vernáculo da Tijuca por volta de março próximo e, depois um período de quatro a seis meses, as araras-canindés deverão estar aptas para serem soltas entre agosto e setembro deste ano.
No primeiro grupo, o treinamento atrasou sete meses, devido ao problema de saúde de Selton.
As novas araras já têm possíveis ideias de nomes, mas eles serão divulgados posteriormente, disse a bióloga, que guardou sigilo.
Aclimatação
As araras-canindés chegaram ao Parque Vernáculo da Tijuca em junho de 2025, onde ficaram abrigadas em um recinto dentro da floresta, para que pudessem se habituar aos sons e aos cheiros de sua novidade lar.
“E a gente começa a ensinar a elas algumas coisas, porquê treinamento de voo que, além de facilitar que a gente consiga manejá-las, é porquê se fosse um manobra quotidiano que elas fazem para ter musculatura peitoral que precisam para o voo e um condicionamento bom”, informou Lara.
A equipe do Refauna também tenta repreender comportamentos inadequados, porquê se aproximar das pessoas ou descer muito para o pavimento. As araras são submetidas ainda a uma transição fomentar, uma vez que vêm de zoológico onde são alimentadas com frutas comerciais e ração. No Parque Vernáculo da Tijuca, elas aprendem a consumir frutas que irão encontrar na floresta, porquê jabuticabas, por exemplo.
“Porquê estão dentro de um recinto, é preciso alimentá-las todos os dias. Aclimatação é assim: a gente vai oferecendo frutas nativas, vendo porquê elas interagem com esses frutos”.
A comida é oferecida em plataformas suspensas, para que as araras não a associem diretamente aos integrantes do Refauna.
“Não se pode alimentá-las na mão, por exemplo. É sempre nessas plataformas suspensas, porque elas precisam voar para chegar até a comida, para que haja esse distanciamento”, explicou a coordenadora.
O recinto em que as araras passam pela aclimatação tem 20 metros de comprimento, tamanho que Lara Renzeti considera suficiente para que a equipe consiga direcionar seu voo.
“Elas conseguem voar de uma ponta a outra do recinto, e a gente viu que isso funcionou muito muito, porque quando a gente abriu a porta, elas conseguiram fazer voos de cinco quilômetros (km), de 10 km. Realmente, fazendo aqueles exercícios diários, isso é suficiente para elas terem a musculatura fortalecida, mesmo em um envolvente menor”.
Monitoramento
Uma vez soltas, as aves continuam a ser acompanhadas pelo Refauna, que realiza intervenções quando necessárias.
“Nessa primeira temporada, é muito geral que a gente precise recapturá-las, porque são uma espécie muito inteligente, que depende muito do aprendizagem. E porquê é um envolvente novo, pode ser necessário que o mesmo tipo seja recapturado e solto de novo em outro momento. A gente tem sempre que calcular essa urgência”.
A recaptura também pode ocorrer caso as araras sejam colocadas em risco. Porquê são animais resgatados, elas podem se aproximar das pessoas, pousando em árvores ou telhados, por exemplo, em procura de comida.
“Nem todo mundo é bem-intencionado e, muitas vezes, o que elas sabem é procurar comida com as pessoas. A gente tem que permanecer de olho para saber se elas estão conseguindo se fomentar por conta própria e isso pode demorar um tempo. Elas têm que procurar comida”.
A equipe do Refauna continua a oferecer comida suplementar, nas mesmas bandejas suspensas que as aves tinham no recinto de aclimatação. “Quando a gente abre a porta, tudo pode intercorrer. Pode demorar um tempo até que os animais aprendam a procurar e a encontrar comida. A gente monitora também para fazer essas intervenções”.
A população também pode ajudar com informações ao Refauna. As araras foram liberadas com anilhas, microchips e colares de identificação, sendo monitoradas pela equipe de biólogos, e o monitoramento em vida livre se dará também a partir dos relatos e informações enviadas pela sociedade.
A participação ativa de pessoas é conhecida porquê Ciência Cidadã e pode ser exercida por qualquer um que tenha interesse em contribuir, enviando informações para o Instagram do Refauna ou para o Whatsapp (21 969744752). O objetivo é facilitar o contato direto com moradores do entorno do parque.
“A população tem ajudado. Eles avisam mesmo. O Ciência Cidadã é um método que está funcionando muito muito”, confirmou Lara.
Outro sistema que está funcionando muito para o monitoramento participativo é o SISS-Geo. Trata-se de um aplicativo gratuito de registro da fauna silvestre, desenvolvido pela Instauração Oswaldo Cruz (Fiocruz). Nele, é verosímil enviar fotos e informações quando uma das araras for avistada. “Não é um aplicativo voltado para o Refauna, mas é uma instrumento que a gente pode usar para saber onde estão os indivíduos”.
A comentador ambiental do ICMBio, Viviane Lasmar, superintendente do Parque Vernáculo da Tijuca, comentou à Sucursal Brasil sobre a valia da ensino ambiental para as pessoas que moram no entorno ou que visitam os parques nacionais.
“As pessoas têm se aproximado cada vez mais. Essa é uma boa hora mesmo para ver se a gente consegue contribuir um pouco para diminuir a ignorância ambiental”.
Cursos
Outra iniciativa para proteger as aves é a realização de cursos de formação com guias que atuam no Parque Vernáculo da Tijuca, para que possam mostrar às pessoas a forma correta de interagir com os animais presentes no sítio. O projeto ainda está sendo desenvolvido pelo Refauna.
“Os guias de turismo são importantes, porque estão em contato com muitas pessoas diferentes. Logo, é fundamental que a gente consiga esse diálogo”, disse Viviane. “O que fazer quando se vê um bicho desses? Não pode fomentar, não pode permanecer falando com o bicho. Vai ser uma forma de a gente propalar a conduta responsável em encontros com esses animais”.
Viviane Lasmar acrescentou ainda que não só foi um grande prazer receber as araras-canindés porquê um vestuário que demonstra a relevância do trabalho do ICMBio de manter o parque conservado para o incremento da biodiversidade.
“É sinal de que a floresta está muito para as nossas araras”, comemorou. “A gente pensa no parque vernáculo e pensa logo no Cristo Redentor, no turismo. Mas a [Floresta da] Tijuca é muito mais do que isso”.
Além de receber as aves no habtat preservado, o papel do Parque Vernáculo da Tijuca é também estribar na infraestrutura, colaborando com a construção dos viveiros, por exemplo, para a colocação dos ninhos das araras, já tentando antever alguma possibilidade de aninhagem futura.
O transporte dos animais também é feito por técnicos e monitores ambientais do parque, que dão base em qualquer estrutura que for necessária.
“A gente está se preparando para receber de braços abertos esse novo grupo de araras-canindés”, disse Viviane.
Meta
A meta do Refauna é, no período de cinco anos, soltar 50 indivíduos da espécie arara-canindé, liberando dez por ano. Lara Renzeti conta que “a reintrodução não é uma ciência exata” e que nem todas essas aves realmente vão povoar o parque.
“Eu gostaria de soltar mais, porque não necessariamente esses dez vão se estabelecer. É uma verosimilhança. Quanto mais indivíduos a gente conseguir soltar ao mesmo tempo, maiores são as chances de um ou dois se estabelecerem e se reproduzirem. A teoria é conseguir soltar mais araras-canindés para aumentar as chances de elas se encontrarem e interagirem muito com a floresta e se reproduzirem”, comentou.
Globalmente, a arara-canindé não é considerada em extinção, mas, no estado do Rio de Janeiro, já não se vê mais população dessa espécie, porquê ocorria em toda a dimensão litorânea da Mata Atlântica, onde há registros históricos muito antigos, datados do Século 16, em muitas localidades, informou Lara Renzeti.
“É uma espécie extinta no estado do Rio de Janeiro. É uma prenúncio mais regional. Já no interno do Brasil, no Compacto, por exemplo, ela é muito geral”.
Restauração ecológica
Desde 2010, o Refauna já reintroduziu várias espécies, entre as quais a cutia-vermelha, o jabuti-tinga e o bugio-ruivo, no Parque Vernáculo da Tijuca; e a anta, no Mosaico Meão Fluminense — na Suplente Ecológica de Guapiaçu e no Parque Estadual dos Três Picos (RJ).
O projeto responde a um duelo global da conservação: o combate à defaunação, caracterizada pela perda de espécies animais. Estudos mostram que murado de 90% das espécies de vegetação da Mata Atlântica dependem de animais para espalhar suas sementes. Quando uma floresta perde sua fauna, ela também perde, aos poucos, a capacidade de se regenerar. A carência de dispersores compromete a manutenção das florestas e o funcionamento do ecossistema, mesmo em áreas protegidas, alerta o Refauna.
O cenário é principalmente preocupante na Mata Atlântica. Dados do IBGE de 2023 revelam que 43% da fauna ameaçada de extinção no Brasil é exclusiva desse bioma, que concentra o maior número de espécies ameaçadas do país. O Refauna reforça que quando uma espécie é extinta, “não é só ela que desaparece; todo um ciclo de vida se desfaz”.





