Pascale Marthine Tayou debate território na Pinacoteca 07/03/2026

Pascale Marthine Tayou debate território na Pinacoteca – 07/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Bandeiras de diversos países, costuradas de forma precária por jovens camaronenses, erguem-se em grandes telas no espaço expositivo. Em outra sala, postes de eletricidade com fios expostos se emaranham entre ordem e gambiarra. Ao reunir esses trabalhos em salas sob os títulos “Conferência de Yalta” e “Conferência de São Francisco”, respectivamente, o artista camaronês Pascale Marthine Tayou evoca marcos diplomáticos pós-guerra para tensionar debates sobre território, conflito e insurgência em sua primeira grande exposição institucional no Brasil, na Pinacoteca de São Paulo.

Batizada de “Knockout!”, a mostra segmento da imagem do nocaute —o golpe que encerra a luta— para sugerir um estado de exaustão coletiva. “É uma situação de combate, de desolação”, afirma Tayou, que se define porquê “cidadão do mundo”. Para ele, cada ação humana —votar, consumir, reivindicar, produzir— deixa rastros, positivos ou negativos. “Não julgo se são bons ou maus. O que é evidente é que há consequências.”

A teoria de nocaute surge, segundo o artista, da repetição histórica de impasses. A cada conflito, uma conferência internacional; a cada solução, novos problemas. “É porquê se recebêssemos golpes sucessivos”, diz.

A exposição se estrutura em sete salas, concebidas porquê capítulos que ecoam encontros internacionais —alguns históricos, outros imaginados. “As obras não explicam as conferências, nem as conferências explicam as obras”, diz o diretor-geral da Pinacoteca e curador da mostra, Jochen Volz. “São confluências, caixas de sonância para pensar a história política e poética da humanidade.”

Para Volz, esses encontros diplomáticos sempre carregaram uma dimensão utópica: a crença de que bastaria sentar-se à mesa para resolver disputas. “Vivemos num mundo de negociações constantes. Zero é oferecido. Tudo é disputa.” A exposição se constrói justamente nesse pausa entre libido de conciliação e fracasso recorrente —uma tensão que atravessa todas as salas e ganha forma em diferentes materiais.

Na sala dedicada à Conferência de São Francisco, de 1945, que culminou na geração da Missiva das Nações Unidas e, depois, na Enunciação Universal dos Direitos Humanos, Tayou ergue uma trama de postes e fios que remete à paisagem urbana. Para Volz, a instalação chamada de “Pequeno-Volta” funciona porquê metáfora de interdependência. “Estamos entrelaçados. Basta um fio se romper para que tudo falhe.”

Já na sala dedicada à Conferência de Yalta, também realizada em 1945 e decisiva para o redesenho da Europa e de outras regiões no pós-Segunda Guerra, a noção de território atravessa as bandeiras recriadas por jovens de Camarões com tecidos encontrados e costuras aparentes. Para Volz, o gesto evidencia que símbolos nacionais são construções em fluxo. “Uma bandeira parece um pouco fixo, mas é fruto de acordos, disputas, revisões.” Tayou já havia tensionado esse imaginário em séries anteriores, perguntando se tais emblemas representam identidades vividas ou estruturas impostas.

“Um território só existe quando quem o habita se reconhece porquê segmento dele”, afirma o artista. Nas bandeiras, as emendas aparentes operam porquê cicatrizes: “Se há cicatriz, é porque houve ferida.” Ao reinscrever essas marcas, Tayou convoca uma dimensão ritual de reparação, inspirada em práticas da África Meão, porquê as esculturas nkisi nkondi, nas quais pregos são cravados no objeto no ponto correspondente à dor, porquê gesto simbólico de trato. A operação sugere a possibilidade de enfrentar simbolicamente conflitos globais da mesma forma, “a partir da África”.

Essa perspectiva, que articula memória, ferida e reconstrução, reaparece sob outra chave na sala intitulada “Conferência de Bandungue”, de 1955 —encontro que reuniu, pela primeira vez, países africanos e asiáticos sem a mediação das potências ocidentais. Ali, em “Plastic Tree”, a árvore seduz à primeira vista; de perto, porém, revela frutos de plástico e uma estrutura levemente deslocada, porquê se a ordem procedente estivesse em suspenso.

Para ele, não se trata de assumir uma posição de “ativista verdejante”, mas de mostrar o mundo tal porquê ele se apresenta. O plástico, lembra, foi criado para resolver problemas concretos; não surgiu porquê inimigo, mas porquê solução. Se hoje se converte em símbolo de degradação ambiental, isso decorre do uso que a humanidade fez dele. Por isso, para o artista, a poluição não é um mal abstrato, mas consequência das próprias ações humanas —mais um capítulo dessa enxovia de negociações e impasses que atravessa toda a exposição.

Essa lógica, em que zero é unívoco e toda solução carrega sua própria anfibologia, se desdobra em outros núcleos da mostra. A tensão entre tradição e circulação global de saberes, por exemplo, ganha forma nos bonecos de vidro produzidos em colaboração com artesãos de Veneza, na Itália. Moldadas em cristal veneziano, as figuras evocam a estatuária africana e são vestidas com objetos banais do cotidiano. “Onde está o original? Na forma ou na técnica?”, questiona Volz. O resultado são personagens híbridos, que não afirmam uma autenticidade fixa, mas expõem a própria teoria de tradição porquê um pouco em trânsito, atravessado por deslocamentos, trocas e reinvenções.

Já na sala dedicada à Conferência de Avignon, a única fictícia, pedras coloridas se dispersam sobre as paredes do espaço expositivo enquanto nomes de conflitos vividos ao volta do mundo as ladeiam. Se a pedra poderia ser vista porquê arma rudimentar e elemento primordial de construção, novos conflitos eclodiam no noticiário enquanto a montagem avançava, porquê o bombardeio entre Estados Unidos e Irã. “O mapeamento de guerras do século 20 e 21 que ele começou a fazer já ficou desatualizado antes mesmo da orifício”, diz Volz.

Entre conferências históricas, mapas marcados por dardos e encontros imaginários, Tayou propõe menos um diagnóstico fechado do presente do que um invitação à corresponsabilidade. “Ele enfia o dedo exatamente na ferida de nós todos”, diz Volz. “Porque a gente não tem nem respostas.”

Ao falar do título “Knockout!, o curador evita a imagem de um término definitivo. O nocaute, cá, expõe exaustão e conflito, mas não suspende a urgência de diálogo. “A gente vai ter que sentar à volta dessa mesa —não sei onde ela fica— e negociar.” Viver junto, insiste, é esse manobra contínuo, frágil e inevitável, de reorganizar o mundo em generalidade.

Folha

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