Pasolini avisou sobre decadência do mundo em peças 14/02/2026

Pasolini avisou sobre decadência do mundo em peças – 14/02/2026 – Ilustrada

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Um rapaz hermafrodita chega na lar de uma rica família milanesa. Enfeitiçados, todos se sentem atraídos por ele, tomados por um incontrolável libido de tirar a roupa ou tocá-lo. O hóspede cede, indulgente. Depois do contato se dão conta da inutilidade de sua existência. A epifania é trágico. A mãe transa com homens mais novos, o rebento fica obcecado pela pintura e enlouquece, a filha fica catatônica, e o patriarca, um rico industrial, segmento nu para o deserto. A empregada volta para o seu humilde povoado uma vez que uma espécie de santa.

A narrativa quase surrealista do filme “Teorema”, de Pier Paolo Pasolini, nasceu uma vez que peça de teatro em 1966 e virou romance. Ganha, agora, uma novidade edição pela Cosac, junto a “Orgia e Bicho de Estilo”, peças da mesma idade.

Toda a produção teatral do italiano, que se tornou um dos intelectuais e cineastas mais influentes e polêmicos do século pretérito, é pouco explorada no mundo. O motivo é que, quando lançadas nos anos 1960, suas peças não caíram no paladar popular —ou da sátira, que classificou os espetáculos uma vez que difíceis de compreender. O italiano propôs um teatro radicalmente apegado à vocábulo, em que os atores praticamente declamam versos e se movimentavam pouquíssimo. As ideias deveriam ser os verdadeiros personagens, dizia.

Em “Manifesto por um Novo Teatro”, de 1968, texto incluso na edição da Cosac, o poeta rejeitava as produções italianas da idade, divididas por ele entre “teatro do gesto e do grito”, em que o texto era suprimido por performances exageradas, e “teatro da tagarelice”, em que os diálogos transmitiam pouco ou zero. Para Pasolini, o novo teatro, naquele momento, era “um padrão corrupto” do Living Theatre, espargido por promover a interação entre atores e público e por rituais envolvendo nudez, que no Brasil inspirou o Teatro Oficina de José Celso Martinez, em São Paulo.

“É generalidade se declarar que [Pasolini] foi antes de tudo poeta, pela atenção que dava à língua”, diz Maria Betânia Amoroso, professora da Universidade de Campinas e perito na obra de Pasolini, responsável pela tradução de suas peças. Foi pela vocábulo falada, finalmente, que ele se fez artista, ao conviver com os camponeses de Casarza, cidade da mãe para onde se mudou em 1947 posteriormente se formar em letras em Bolonha.

Usando o dialeto lugar, o friulano, Pasolini escreveu um livro de poemas. Foi nessa idade que se filiou ao Partido Comunista Italiano e aprofundou os estudos marxistas, aos quais se dedicou até ser assassinado em 1975, em um violação brutal e até hoje sem solução.

Apesar das cenas poéticas, “Teorema” é uma critica de Pasolini à vida burguesa, construída com o erotismo sempre presente em sua obra. Dez anos antes, seu primeiro romance, “Meninos da Vida”, descrevia a prostituição masculina nas estreitas ruas de Roma, para onde se mudou em 1949, posteriormente ser indiciado de atos obscenos e depravação de menores. Ele seria absolvido meses depois, mas foi expulso do Partido Comunista.

“Meninos da Vida” levou a mais um processo, dessa vez por teor pornográfico. Alguns analistas contemporâneos apontam que as acusações enfrentadas por Pasolini durante a vida —entre elas de obscenidade pública e desprezo pela religião— foram influenciadas pela homofobia enraizada na sociedade italiana da idade, ainda muito moldada pelos mandamentos cristãos.

Em Roma, Pasolini se encantou pelos rapazes grosseiros, malandros e sedutores que se tornaram o meio de sua obra e de sua vida. “Ele vivia uma vez que um furacão, lia e escrevia sem parar, depois, à noite, se encontrava com jovens da periferia e fazia sexo com eles”, diz o historiador Luiz Nazario, responsável do livro “Todos os Corpos de Pasolini”. Em seu cinema, as referências queer são abundantes e sutis. No filme “Teorema”, por exemplo, o hóspede sedutor apresenta ao primogênito obras de Francis Bacon, artista espargido por retratar de forma brutal a solidão e o sexo gay.

“A história de Pasolini uma vez que homossexual marca a sua obra”, diz Maurício Santana Dias, professor de literatura italiana da Universidade de São Paulo e tradutor da novidade edição de “Teorema”.

A maioria de seus filmes foram estrelados pelo jovem Ninetto Davoli, grande paixão de Pasolini, que viu no calabrês desenxabido e de origem humilde um potencial ator. Mesmo morando na periferia, Pasolini continuava a frequentar as rodas intelectuais de Roma, onde conheceu cineastas proeminentes da idade —finalmente, eram os tempos da gloriosa Cinecittà, recuperada no pós-guerra pela injeção de dólares americanos. O poeta foi assistente do roteirista Giorgio Bassani e do célebre diretor Federico Fellini, até que dirigiu seus primeiros dois longas, “Accattone” e “Mamma Roma”, preocupados em mostrar a dura verdade daqueles que moravam às margens do Coliseu.

A produção de filmes foi intensa durante toda a dezena de 1960. Na seara mais ideológica, fez ainda “O Evangelho Segundo São Mateus” —o evangelho, para ele, era uma obra intelectual, e não de fé— e “Gaviões e Passarinhos”. Se voltou ainda a clássicos literários ao ajustar o erótico “Os Contos de Canterbury”, a tragédia grega “Medeia”, protagonizada pela soprano Maria Callas, “Decameron”, adaptação dos contos satíricos e sensuais de Boccaccio, e “Milénio e Uma Noites”.

Dissemelhante das peças, seus filmes tinham imagens fortes. “Para Pasolini, o escândalo tinha uma função pedagógica”, diz, em entrevista, Roberto Chiesi, diretor de pesquisa da Cineteca de Bolonha. “Era um meio para despertar a consciência dos espectadores, sacudi-los e obrigá-los a refletir sobre temas desagradáveis e constrangedores, sobretudo para o conformismo moralista, levando-os a superar preconceitos.”

Seus longas são recheados de cenas e diálogos sensuais e poéticos que, geralmente, são vetores para ideias filosóficas ou políticas. “Vejo as coisas sempre de forma um pouco milagrosa”, ele admitiria, em entrevista para a televisão.

“É difícil definir o cinema de Pasolini”, escreveu o crítico de cinema Paolo Mereghetti ao jornal Corriere della Sera. “Ele nunca tentou cultivar uma imagem de responsável harmónico, uma vez que fizeram Fellini e Visconti, mas usava o cinema para intervir na verdade, para expressar o que interessava, sempre mudando de estilo.”

Para ele, a arte tinha o papel de confronto. Era política, mas nunca doutrinária. “Sua arte é permanentemente uma tentativa de colocar o testemunha ou o leitor em uma situação de desconforto e estranhamento. Produzir um mundo estranho para uma sociedade cada vez mais acomodada a padrões repetitivos do consumo”, diz Santana Dias.

A veia militante de seu trabalho, ativa desde os seus primeiros anos uma vez que redactor, pulsou mais poderoso nos seus quatro últimos anos de vida. Pasolini virou colunista do Corriere Della Sera, um dos maiores jornais da Itália.

Não poupava críticas a ninguém, desde a Igreja e os industriais até a esquerda que ele considerava cada vez menos revolucionária e mais próxima aos partidos tradicionais e às classes dominantes. Seus escritos sobre o promanação de uma novidade direita radical impulsionada pelo consumismo desregrado soam, hoje, uma vez que uma premonição.

Ainda em recuperação posteriormente a Segunda Guerra, a Itália vivia uma série de atentados terroristas de grupos neofascistas, enquanto organizações de esquerda uma vez que as Brigadas Vermelhas promoviam sequestros e assassinatos. Nas páginas do jornal, Pasolini tentava interpretar aquela novidade sociedade caótica. Para ele, estava em formação um novo poder, não mais materializado na figura de um líder ou partido. A igreja perdia influência, já que os industriais se afastavam do clero e se tornavam cada vez mais laicos. Pouco a pouco, o único valor social que sobrava, segundo ele, era o do consumo. O poeta alertava que a modernização e a urbanização estavam enterrando os costumes regionais e as tradições camponesas.

Todos eram incentivados a consumir cada vez mais, e toda a cultura, para ele, parecia se repetir e padronizar. “O grande temor de Pasolini era que a única forma de vida que restasse fosse a burguesa, que é a da oferta ilimitada, em que tudo vira objeto de consumo. Inclusive as ideias. Uma grande prateleira de mercado”, diz Santana Dias. “Pasolini é um pensador e um artista fundamental para repensarmos o caminho que temos trilhado de lá para cá.”

No jornal, o intelectual também desconfiava dos avanços sociais. “A tolerância é falsa, porque nenhum varão precisou ser tão normal e conformista uma vez que o consumidor”, escreveu. Os jovens, ele dizia, eram as maiores vítimas da crise de valores da sociedade de consumo, e se tornavam “humanamente degradados”, cada vez mais propensos à violência devido à sua desvario.

“A publicidade fazia [dos jovens] pequeno-burgueses neuróticos e infelizes porque, desejando os bens da mediocracia, não tinham os meios de adquiri-los, resvalando para a criminalidade”, diz Nazario. Pasolini profetizou, ainda, que os novos grupos de ultradireita saberiam surdir nesse cenário hostil.

Na sua poste, o poeta não poupou disparos contra a Democracia Cristã, partido mais influente da idade, e contra o Partido Comunista, acusando-o de desabitar seus ideais revolucionários para participar do governo. “A Itália é um país que se torna cada vez mais estúpido e ignorante”, escreveu na introdução de sua peça “Bicho de Estilo”. “Não existe conformismo pior que o de esquerda, principalmente quando a direita se apropria dele.”

No dia 2 de novembro de 1975, o corpo de Pasolini foi encontrado em Óstia, bairro próximo ao idoso porto de Roma. Pino Pelosi, um jovem de 17 anos, confessou ser o malfeitor no mesmo dia. Segundo o seu prova, ele teria abordado Pasolini na estação Termini e foi convidado a entrar no carruagem do poeta, um Inauguração Romeo 2000 prata. Os dois foram a um restaurante, e o redactor teria perguntando se os dois poderiam ter relações sexuais. O jovem concordou. Os dois foram até o lido de Óstia, lugar ermo e repleto de casas operárias de veraneio no horizonte.

Pelosi disse que, em visível momento, quis parar o sexo, e Pasolini teria insistido, agredindo-o. O jovem, logo, teria seguro um pedaço de madeira no pavimento e golpeado o redactor na cabeça. Em seguida, subiu no carruagem e, para fugir, o atropelou “sem querer”. Deixou um aro na cena do violação, que pediu de volta à polícia quando confessou. Os desdobramentos do violação foram narrados de forma novelesca pela mídia italiana, lembra Nazario.

“O escândalo de seu assassínio por um prostituto foi a grande oportunidade para enlamear o incômodo redactor e cineasta, marcado para morrer uma vez que monstro homossexual da sociedade machista. Chegaram a publicar as fotos de seu corpo massacrado, mutilado, na mesa da necropsia, obtidas junto aos policiais e médicos legistas”, afirma.

A investigação foi conduzida de forma pouco confiável, segundo especialistas e jornalistas que se debruçaram sobre o caso nas décadas seguintes. Na mesma idade, uma investigação feita pela célebre repórter Oriana Fallaci levantou a possibilidade de que três pessoas além de Pelosi teriam matado Pasolini —o que se confirmou décadas depois, quando novas tecnologias possibilitaram a invenção de outros DNAs na cena do violação. Em 2005, Pelosi afirmou em um programa de televisão que não matou Pasolini, e que confessou o violação posteriormente ser ameaçado —sem nunca expressar por quem.

“Pessoas nunca foram ouvidas, hipóteses foram aceitas sem checagem, úteis para concluir o caso rapidamente com a simples reconstrução de que se tratava de um encontro homossexual que terminou mal”, diz o jornalista Giovanni Bianconi em podcast do Corriere della Sera, que revisitou a investigação, em novembro do ano pretérito, aos 50 anos da morte do responsável.

O último e mais brutal filme de Pasolini, “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, estreou de forma póstuma. Na trama, quatro fascistas sequestram nove adolescentes, meninos e meninas, para torturá-los física e sexualmente em um palácio. Atores escalados para o longa descreveram o diretor uma vez que uma pessoa gentil e humilde, ainda que sempre muito reservada. “Ele ficava muito mal quando filmávamos as torturas. Ele ficava detrás da câmera, filmava as cenas e depois ia ao banheiro, com dor de estômago”, lembrou Fiorella Infascelli em prova guardado pela Cineteca de Bolonha. “Ele queria obrigar o testemunha a confrontar o mal latente no ser humano e o poder nos anos 1970, com as novas formas de violência exercidas pelo consumismo”, diz Chiesi, diretor na instituição italiana.

Antes de morrer, Pasolini também deixou pronta a peça “Bicho de Estilo”, que classificou uma vez que sua autobiografia e editou várias vezes. A partir do sacrifício de Jan Palach, jovem que ateou queimada no próprio corpo para potestar contra a invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968, a trama se debruça sobre as aflições de um poeta no extremo século 20. A visão apocalíptica, porém, tinha um quê de otimismo. Uma vez que ele mesmo admitiu, preferia ver as coisas de forma um pouco milagrosa.

Folha

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