Patti Smith revê dor e arte em seu livro mais

Patti Smith revê dor e arte em seu livro mais confessional – 27/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

No início de seu novo livro, “Pão dos Anjos”, Patti Smith descreve a primeira sensação de que tem memória —a do movimento. “Meu braço balançando para a frente e para trás, um pequeno esforço que resulta na queda do Pernalonga da minha cadeirinha subida”, narra. Ela, garoto, observa o bicho de pelúcia à sua frente. “Grande uma vez que a vida”, escreve, ele cai e desaparece “feito um navio viking despencando da borda do mundo”.

É deste momento pueril que a escritora e figura fundamental da história da música secção para recontar de forma mais ou menos cronológica quase 80 anos de uma vida extraordinária. Escrito ao longo de uma dez, o livro será lançado no Brasil em março pela Companhia das Letras.

O trecho também dá pistas para entender a obra de Smith, regida por um olhar aguçado para o mundo ao volta e pela imaginação que aprendeu a manipular já nos primeiros anos de vida. “Minha família passou por muitos problemas financeiros e doenças, às vezes não tinha comida o suficiente, mas nunca faltou paixão e magia”, ela diz, em entrevista à Folha. “Portanto eu consigo rastrear tudo de volta à minha puerícia: o paixão pelos livros, o libido de grafar e a transformação do ordinário em venustidade.”

Essa venustidade é narrada em detalhes. Seguimos Patti pelos conjuntos habitacionais e quartos de pensão da Filadélfia e de Novidade Jersey onde morou com seus pais, um operário e uma garçonete, e os três irmãos, todos mais novos. Conhecemos as imagens que a rodeavam —um pomar de pessegueiros, um sofá virente, os panos úmidos que estancavam suas febres constantes.

Quando a verdade é penosa ou insuficiente, ela cria aventuras no mar a bordo de um navio com os irmãos ou a uma conversa telepática com uma tartaruga na beirada de um lago. Com o tempo, aprendeu a encanar para a escrita esses devaneios quase meditativos. “Isso é um pouco que eu consigo fazer. Me sentar em silêncio, ir para outro lugar e não voltar de mãos vazias”, escreve. Hoje, a artista diz ter de se esforçar para manter o método num mundo que a perturba.

“É uma habilidade que tenho a vida inteira, nunca vou furar mão dela”, conta. “Mas exige muito mais concentração do que antes. E acho que isso acontece porque o mundo está avassalador, mormente uma vez que americana. São tantas mudanças terríveis no nosso país. É difícil deixar essas coisas de lado quando estou trabalhando”.

Fincada na verdade ou no sonho, a riqueza narrativa de “Pão dos Anjos” se estende a tudo, mas é mormente marcante nas suas descobertas estéticas. Ela escreve sobre o choque de encontrar pilhas da revista “Vogue” no lixo, de entrar num salão de museu recheado de obras de Picasso, de saber a trova de Arthur Rimbaud e de ouvir a voz rouca de Bob Dylan pela primeira vez com o mesmo encantamento.

Smith aplica em sua escrita a invenção que fez ao ler “O Gigante Interesseiro”, de Oscar Wilde, de que tudo é um poema em potencial, do olhar de sua cadela ao escorchar da caneta. “Minha regra sempre foi: se eu não consigo ver aquele momento uma vez que um filme na minha cabeça, eu não vou grafar sobre ele”, diz. “Eu quero ser capaz de transmitir a sensação de movimento, de que aquelas pessoas viveram e aquele tempo existiu”.

Esse seu princípio nasceu quando Smith mergulhou nas memórias da relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe para recontar a história dos dois em “Só Garotos”, de 2010, que se tornou o maior sucesso literário da autora. Smith já disse em entrevistas que queria grafar um livro de que Mapplethorpe, que não tinha o hábito de ler, fosse gostar se estivesse vivo.

A obra, assim uma vez que outras memórias que lançou, uma vez que “Risca M”, de 2015, e “O Ano do Macaco”, de 2019, faz recortes temporais que se encaixam no quebra-cabeça que forma “Pão dos Anjos”. Estão ali, por exemplo, uma Novidade York que não existe mais e o verão do paixão vivido ao lado de Mapplethorpe, quando moraram no Hotel Chelsea e circularam nos mesmos ambientes que gente uma vez que Janis Joplin, Andy Warhol e Jimi Hendrix.

Mas é a primeira vez que Smith se dedica a sua vida inteira. Boa secção do livro trata de assuntos nunca ou raramente comentados pela artista, uma vez que a invenção de que o pai não era seu pai biológico e o reencontro com uma garoto que ela entregou para adoção quando jovem. Um de seus trunfos enquanto escritora é justamente oriente contrassenso: para alguém que escreve tanto e tão detalhadamente sobre as próprias memórias, ela é extremamente discreta na intimidade.

O que antes eram vislumbres também ganha mais espaço neste lançamento —e cá os fãs da cantora ficarão felizes. Ela conta sobre o momento de invenção do CBGB, um pequeno clube em East Village que foi o primeiro palco de bandas lendárias do punk. E trata também do período de geração de seu álbum de estreia, “Horses”, lançado em 1975 e considerado seminal na história do gênero. Naquela páginas, vemos a transformação de uma jovem poeta em uma líder.

“A gente vivia numa atmosfera de discriminação racial e sexual, de jovens à deriva e rejeitados pela família por serem gays, poetas ou um pouco dissemelhante do que os pais esperavam que eles fossem. Eu só queria fazer um disco que falasse com eles, que lhes desse qualquer conforto”, explica Smith. “Nunca pensei que, 50 anos depois, ainda seria um pouco relevante. Fico feliz que tenha sido”.

Os capítulos também revelam muito do compromisso da cantora com a arte que conduziu e alterou sua curso. Smith narra momentos em que não quis fazer playback num programa de TV e se recusou a mudar a letra de “Dancing Barefoot” para que ela tocasse nas rádios.

“Era mais importante para mim a manter intacta a integridade do trabalho do que lucrar muito quantia”, afirma. “Hoje uma estrela pop também pode ser luminoso, provocativa e revolucionária, uma vez que a Rosalía. Eu nunca consegui ser muito boa nas duas coisas”.

Depois de “Horses”, Smith escolhe o mais punk dos caminhos. Em 1979, sentindo-se deslocada no palco e certa de que já tinha cumprido a sua missão, faz um show para 80 milénio pessoas na Itália e desaparece dos holofotes por 16 anos para viver com o marido, o guitarrista Fred ‘Sonic’ Smith.

Na secção mais vulnerável do livro, a cantora abre a despretensiosa e até logo secreta vida que tiveram em Michigan, numa vivenda de pedra ao lado de um meio. A artista escreve sobre a compra de um navio que nunca navegou, os nascimentos dos filhos e um postal com a foto de Albert Camus que ficou tanto tempo na parede que uma das crianças achou que fosse seu tio. “Nossa vida era obscura, talvez zero interessante para alguns, mas para nós era uma vida completa”, escreve.

Foi uma dez sátira para Smith, que passou a se ver uma vez que escritora depois de anos uma vez que poeta e roqueira. Também foi quando começou a mourejar com um amontoado de lutos —Mapplethorpe e dezenas de amigos que se foram por complicações da Aids, e o irmão e marido que morreram com um mês de diferença. No livro, a artista escreve longamente sobre esses processos.

“Ao contrário da morte de Robert [Mapplethope], em que entrei em um estado quase febril de geração, não consegui produzir zero depois da morte de Fred. Eu me sentia quase anestesiada. Parei de grafar, não me interessava em tocar. Só cuidava das crianças”, conta Smith. “Passei quase 30 anos sem grafar sobre ele, mas finalmente encontrei a voz, a motivação e o espaço emocional para isso.”

O livro se expande em um testemunho das vidas de quem ela perdeu, e acompanha o momento em que Smith é convocada a voltar à ativa pelos amigos do movimento beat Allen Ginsberg e William S. Burroughs, que a ajudam a se reerguer. Em 1995 ela retorna aos palcos abrindo shows de um de seus primeiros ídolos, Bob Dylan —uma sequência de gestos de clemência que fazem secção do que ela labareda de “pão dos anjos”.

Na secção final, Smith conclui que “um grande artista também é um alquimista, movido pelo impulso de transfigurar a venustidade e a brutalidade da existência”. Portanto o que mais poderia temer alguém uma vez que ela, que levou uma vida dedicada a essa transformação?

“Há muito tempo eu diria que meu terror é o colapso da imaginação, mas não penso mais nisso. O que eu temo de verdade é a ganância e a falta de condolência dos nossos governos atuais. Me preocupo com o nosso meio envolvente e com a forma uma vez que estamos acabando com nossos recursos hídricos”, diz.

Por outro lado, a artista diz se empolgar todos os dias por estar viva. “E com um novo livro, uma música novidade ou todas as que eu já senhor, uma vez que as de John Coltrane e Jimi Hendrix”, afirma. “Sabe quando você sai e de repente pensa ‘nossa, tudo está lindo porque essa luz está perfeita’? São tantas coisas —uma vez que quando consigo grafar exatamente o que queria, um simples parágrafo. Outro dia uma amiga bordou muito mal minhas iniciais em dois lenços e isso me deixou tão feliz”, ela lembra, rindo. “Ah, eu também paladar de rolinhos de canela e de moca. Acho que é muito fácil me deixar feliz.”

Folha

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