Paulina chiziane fala sobre literatura e moçambique 01/07/2025

Paulina Chiziane fala sobre literatura e Moçambique – 01/07/2025 – Guia Negro

Celebridades Cultura

Chego no bairro de Albazine, em Maputo, pontualmente às 9h, do dia 17 de junho de 2025, para uma entrevista com Paulina Chiziane. Escoltado de outra escritora, Manoela Ramos, ficamos no portão gritando o nome dela por uns cinco minutos, até que uma pessoa que mora com Paulina nos recebeu e informou: “ela está dormindo”. Outros cinco minutos e surge a ganhadora do Prêmio Camões 2021, recém-acordada, com a mesma roupão da foto que estampava uma camisa que fiz em sua homenagem.

“Porquê está o nosso Brasil?”; foi a primeira pergunta que me fez antes de iniciarmos a nossa conversa. Entre cigarros, moca, e carvão para aquecer os pés, Paulina falou sobre literatura, cultura e questões sociais do seu país, no contexto em que se celebram os 50 anos da independência moçambicana.

FOLHA/GUIA NEGRO – Paulina, ontem fomos à livraria à procura de alguns livros seus, e chegamos em uma onde a pessoa que trabalhava disse que não tinha seus livros porque a senhora tinha desistido de fazer edições. Essa informação procede?

Paulina Chiziane – Digamos que estou num folga, depois vou retomar porque envolvi-me em outros trabalhos e não tenho tido tempo para olhar para outras questões e também ando um pouco cansadinha, de vez em quando, doentinha, mas estou muito melhor agora. Vou permanecer de pé e vou à luta!

Um dos temas recorrentes em Moçambique é a verosímil perda de identidade cultural. Por exemplo, pessoas que são changana (grupo étnico) já crescem sem saber falar o seu linguagem de origem. A senhora acha que tem tido uma perda da identidade cultural no país?

Eu costumo manifestar que a identidade é uma construção de cada dia. Há valores que se ganham e há valores que se perdem, mas temos que fazer de tudo para que os valores não sejam perdidos. E a língua é um deles. É verdade que muita gente, cada vez mais, fala a língua portuguesa, sobretudo quando os casamentos são de pessoas de diferentes regiões. Mas nós tivemos uma política de assimilação muito agressiva no período colonial que deixou sequelas. As nossas línguas eram chamadas de”língua de cão” e era proibido falar a “língua de cão”. De tanta pataratice durante séculos, muitos de nós acabou acreditando que isso era verdade, e perde-se a identidade porque uma língua é um repositório de valores culturais.

Quando a gente não fala essa língua há muita coisa que se perde e é urgente resgatarmos e preservarmos esses valores. Mas são processos. Existem várias dinâmicas e várias causas que fazem com que as pessoas esqueçam. Mas a maior responsabilidade é mesmo dos Estados, que devem colocar as línguas nacionais nas escolas.

Mas essa teoria de língua de cão não ficou no pretérito? Isso ainda permanece na cultura?

Eu costumo manifestar, muitas vezes, que nós agora estamos a ser colonos de nós próprios, porque somos nós que matamos a nossa cultura. Eu ainda nasci no tempo colonial, vivi o racismo colonial, a violência colonial eu conheço. Essas marcas estão presentes.

E justamente agora que Moçambique está completando 50 anos de independência, a senhora acha que tem tido avanços democráticos para a cultura do país?

É muito difícil falar disso. Sobretudo porque, a geração novidade, que não conheceu a violência colonial, pensa que os 50 anos não serviram para zero. Isso é pataratice! Eu não podia encruzar uma estrada na cidade porque há zonas onde os pretos não eram permitidos. Hoje sou livre. Um preto tinha a caderneta indígena, que não era um bilhete de identidade porque eu, no tempo colonial, era cidadã de segunda classe, completamente desconsiderada. E, hoje conheço o Brasil, publico livros, caminho pelo mundo. No tempo colonial havia somente uma universidade, e ela era só para os brancos. Hoje temos universidade em tudo que é lado.

Desculpa que eu diga, mas há uma ração de ingratidão da novidade geração perante o esforço que foi feito para a libertação. Erros, evidente que existiram, mas muito se fez. O jovem que nasceu encontrou a liberdade, encontrou a universidade, encontrou o pão na mesa, e não é capaz de agradecer e respeitar os seus ancestrais?

Agora, o incremento para processos democráticos, o que é isso? Eu já li, já escutei, tentei compreender o que é democracia. Confesso, não entendi até hoje. É uma vez que a globalização, não entendi até hoje. Hoje falamos de democracia; será um novo mercado? Ou uma novidade religião? Veja só o que aconteceu conosco no ano pretérito por culpa das eleições: morreu tanta gente, tanta gente… Será que para ter democracia é preciso matar? Enfim, a veras é esta. Mata-se em nome da democracia, rouba-se em nome da democracia, faz-se guerra em nome da democracia. Eu prefiro falar, se calhar, da humanidade, porque esses nomes todos, democracia, globalização, são enfeites. A verdade por dentro é outra.

Eu percebo que, nas suas entrevistas, a senhora sempre cita Quimpavita, Achivangila e outras rainhas africanas na perspectiva de enaltecer a memória da mulher africana que, muitas vezes é silenciada ou invisibilizada na história.

É verdade. E as mulheres foram muito poderosas e muito importantes. Foram e são. E a nossa história é uma história única. Eu digo única porque não me lembro de ter visto na humanidade alguém que sofreu tanto uma vez que uma mulher africana. Ver os filhos já serem levados para a morte e para o sofrimento, para nunca mais voltar. Eu não consigo imaginar uma vez que foi verosímil as mulheres resistirem e continuar esta África de pé, embora fragilizada.

A senhora acha que um dia o continente africano vai conseguir se apoderar da sua grandeza, da sua influência para o mundo e, realmente, se impor diante de essa tentativa colonial que parece não ter término?

Se olharmos para a penetração colonial, vamos ver que foi gradual. Levou séculos para se solidar. A libertação também pode ser gradual, e está a ser gradual. É uma luta que vai insistir séculos ou mesmo milênios. Mas é uma luta! Eu me lembro quando fui convidada à Conferência Internacional de Teologia no Brasil, em Belo Horizonte. Estava aquela granfinada toda do clero católico, maioritariamente branco e eu afirmei tranquilamente que Deus é mulher e é negra. Aquilo foi um escândalo (risos)! Ficaram zangados comigo, aqueles velhos todos poderosos. Quando alguém imagina Deus, vê um branco com uma túnica branca e cabelos longos. Por que não se pode imaginar uma mulher negra com as suas tangas uma vez que Deus? Logo, até o nosso imaginário é racista. Hoje já começam a consentir que Jesus Cristo era preto. É um processo e leva tempo. O mais importante é não desistir nunca.

A senhora vai ser homenageada no Festival de Trova de Lisboa, tal qual tema é “O Paixão é um ato revolucionário”. Porquê a senhora está se sentindo com essa homenagem?

Às vezes, fico num vazio quando uma homenagem destas acontece, desta magnitude. Eu paro e olho para trás e tudo me remete ao pretérito, no tempo em que comecei, no tempo em que ninguém acreditava que uma mulher poderia trilhar caminhos. E, às vezes, me pergunto: “meu Deus, de onde veio a força para resistir?” É isso que eu gostaria de deixar evidente: por muito difícil que seja a luta, se há perseverança, as pessoas alcançam um patamar mais proeminente. Logo, com esta homenagem, sinto que a literatura é um grande trajectória, uma vez que a vida tem um grande trajectória. É preciso caminhar, caminhar sempre até dar o último passo da vida. Evidente, com alguns intervalos, para tomar uma cervejinha, uma vez que eu faço (risos)!

As homenagens são bem-vindas. Mas, por vezes, as pessoas olham para quem recebe o prêmio e dizem que também gostaria de ter. Nunca se deve trabalhar para lucrar um prêmio ou para ser homenageado; deve-se trabalhar! O trabalho por si é o que vai fazer com que a recompensa venha. Palato de falar para os mais jovens, porque, às vezes, há pressa. Às vezes, temos querelas entre nós, porque todo mundo quer prefulgir… Mas, para prefulgir é preciso limpar, é preciso polir, e é preciso caminhar. Às vezes, até tolerar.

Tem um recado para os seus fãs brasileiros, que gostam tanto do seu trabalho?

Um dia terão uma surpresa. Não sei quando!

*Lucas de Matos é comunicante, repórter e creator. Responsável dos livros ‘Preto Ozado’ e ‘Antes que o Mar Silencie e colaborador do Guia Preto

Folha

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