Em “Entre a Cruz e os Canibais”, o dramaturgo e diretor Marcos Damigo conduz o testemunha a um mergulho ácido e humorístico nas origens de São Paulo. A peça, ambientada na Vila de São Paulo de Piratininga em 1599, desmonta com ferocidade cômica o mito do bandeirante heróico, revelando as fraturas, a ganância e os crimes que marcaram o início da colonização no planalto. Uma sátira política afiada.
Damigo elege a farsa e o trote porquê ferramentas para expor o “desajuste” entre o projeto civilizatório europeu e a verdade brutal da colonização, marcada pela escravização indígena. O riso, cá, é instrumento de sátira que despoja o pretérito de qualquer aura romântica.
Quatro personagens representam as estruturas de poder em uma colônia precária e violenta. O Juiz, vivido por José Rubens Chachá, encarna a poder falida, um varão que tenta impor leis que ninguém respeita. Ao seu lado, o Vereador, interpretado por Fábio Espósito, é a força do caos e da ganância sítio, personificando a escol que constrói seu poder sobre o apresamento ilícito de indígenas. Entre eles, surge o Procurador, de Daniel Costa, um deportado cínico e sobrevivente, com um pé em cada mundo, experiente tanto das leis da Grinalda quanto dos povos originários. Por termo, Dom Francisco de Souza, o Governador-geral trazido por Thiago Evidente França, representa o poder metropolitano, astuto e predatório, mais interessado em explorar o conflito do que em resolvê-lo.
Através das interações desses arquétipos, a peça argumenta que a grandeza paulista nasceu não de um heroísmo homérico, mas de atos de violência e desespero em uma vila pobre e isolada. Damigo resgata uma visão histórica que precedeu o século 19: a de que os bandeirantes eram, em sua própria idade, frequentemente vistos porquê homens brutos e destrutivos. Sua transformação em símbolos nacionais veio depois, para atender aos interesses da escol cafeeira, que precisava de uma narrativa fundadora.
A encenação reforça essa desconstrução com escolhas estéticas inteligentes. A cenografia promiscuidade painéis pintados à mão (referência à iconografia clássica) com projeções de vídeo do cineasta guarani Richard Wera Mirim. Esta inclusão tira os indígenas do lugar de objeto da história e os coloca porquê presença ativa e observadora. Os figurinos, que evitam a remontagem leal para misturar referências coloniais e modernistas, sugerem a atemporalidade dos mecanismos de poder. A trilha sonora ao vivo sublinha o sem razão das situações, enquanto elementos simbólicos, porquê a menção a Ganga, o rinoceronte presenteado ao rei de Portugal, lembram o contexto global de exploração em que a pequena vila estava inserida.
Encenada no Teatro Arthur Azevedo, na Mooca, “Entre a Cruz e os Canibais” é um invitação para rir de forma desconfortável, para questionar as narrativas que forjam identidades e para reconhecer, no espelho distorcido da farsa, as contradições que ainda moldam o Brasil.
Três perguntas para…
… Marcos Damigo
A peça faz secção de um ciclo de obras sobre a formação do Brasil. Uma vez que essa “arqueologia cênica” que você propõe se estruturou ao longo dos anos? “Entre a Cruz e os Canibais” dialoga diretamente com seu primeiro texto, “Cabra”, de 1997?
Cada espetáculo é uma novidade tentativa, que se estrutura muito em função dos temas e linguagens que eles convocam. Nesse sentido, “Entre a Cruz e os Canibais” dialoga fortemente com “Cabra”, porque ambos exploram a comédia para explicitar os desajustes do projeto colonial. Em “Cabra”, dois atores (fictícios) da galanteio do rei português são esquecidos cá quando a família real retorna à Europa e ouvem expressar que no sertão da Bahia existiria um movimento para restaurar a reino.
Eles partem para lá e caem no meio da guerra de Canudos, um lugar que eles mal conseguem compreender. “Entre a Cruz e os Canibais” fala do descompasso entre os planos da diadema espanhola (Portugal era governado pelo rei da Espanha, na idade) e a verdade de uma minúscula aglomeração de humanos europeus na borda desse mundo regido a partir da Europa.
Falar da história do Brasil não é alguma coisa simples, pois nosso pretérito são feridas ainda abertas. Mas daí a valia de olharmos para ele, também. Logo eu sinto que essa “arqueologia cênica”, porquê você chamou (e adorei, vou adotar!), mais do que uma tentativa de remontagem histórica (alguma coisa problemático, do meu ponto de vista), se constitui numa tentativa de relacionar pretérito e presente através das analogias entre o tempo histórico e o atual. Talvez esse seja o fio condutor entre todos os espetáculos que já criei com esse viés histórico.
Os quatro personagens masculinos são arquétipos quase caricaturais do poder. Uma vez que foi o trabalho com os atores (Chachá, Espósito, Costa e França) para erigir essas figuras grotescas sem perder a força da sátira histórica?
Eu palato de redigir e guiar esses trabalhos com História do Brasil porque trago a pesquisa da geração do texto para os ensaios. Logo consigo, num diálogo com os atores, ir balizando as escolhas deles para que mantenham uma conformidade com a proposta da peça.
No caso de “Entre a Cruz e os Canibais”, o objetivo era fazer uma “comédia de trote”, porquê tenho chamado, no sentido de convocar o riso porquê instrumento de desidentificação com essas figuras históricas que foram implantadas no nosso imaginário de um modo heroicizado. Acredito que, nesse caso, a sátira histórica esteja justamente nessa operação.
Logo, a partir desse entendimento generalidade e dos estudos que fizemos no processo, inclusive com a participação do historiador Rodrigo Bonciani, um profissional em Brasil colonial, os atores puderam se jogar em cena com a liberdade que se verifica no espetáculo. Eles são donos absolutos da cena!
Um dos pilares da peça é lembrar que os bandeirantes não foram sempre heróis. Para você, por que essa reinvenção do século 19 é tão crucial de ser desmontada hoje? O que esse mito ainda esconde e justifica em nosso presente?
As pessoas tendem a descobrir – ou olvidar – que o modo porquê nos referimos ao nosso pretérito não é alguma coisa originário ou factual, mas sim fruto de uma construção que envolve interesses e poderes. Secção do meu trabalho é pegar essas discussões, que dentro da ateneu já estão muito organizadas, e trasladar isso pro público mais leigo, que não acessa esses espaços, no formato de entretenimento.
Foi assim com “Leopoldina, Independência e Morte” e “Babilônia Tropical”, meus dois últimos trabalhos. Quando estava estudando para redigir “Entre a Cruz e os Canibais” me deparei com estudos que falam de porquê a nossa visão sobre os bandeirantes foi mudando ao longo do tempo, principalmente a partir da segunda metade do século 19.
Coincidência ou não, esse processo, que envolve a publicação de livros, a instituição de estátuas e quadros e a própria constituição do Museu Paulista (que conhecemos mais porquê Museu do Ipiranga), além de nomes de estradas e tudo mais que vai forjar essa teoria do paulista porquê poderoso, destemido e trabalhador, é concomitante com a explosão populacional da cidade de São Paulo, que passa de pouco mais 31 milénio habitantes em 1872 (quando foi feito o primeiro recenseamento do país) para mais de 1,3 milhão em 1940.
Esse projeto de transformar São Paulo na “locomotiva do país” implantou no nosso DNA essa identificação com o trabalho e o prolongamento a qualquer dispêndio. E hoje, mais que nunca, é preciso rever esses paradigmas. Ninguém – nem nós, nem nenhum outro ser vivo e nem a Terreno – aguentam mais essa voracidade. E o riso do público vem, em muitas vezes, da constatação de que grande secção dos nossos problemas já estavam sendo plantados ali nas nossas origens há mais de 400 anos, de se deparar com o sem razão e a farsa da peça conversando com a nossa vida hoje.
Teatro Arthur Azevedo – av. Paes de Barros, 344, Cimalha da Mooca, região leste. Qui. a sáb., 20h. Dom., 19h. Até 15/2. Duração: 85 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 10 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro
