Com direção e dramaturgia de Zé Henrique de Paula e música original de Fernanda Maia, “Codinome Daniel” resgata a vida plural de Herbert Daniel — militante contra a ditadura, varão gay e ativista pioneiro contra a discriminação do HIV/Aids — em um momento crucial de reflexão golpismo e punição no Brasil. Mais do que uma biografia, a obra se afirma uma vez que ato de teatro-intervenção histórica.
O espetáculo inova ao desdobrar a trajetória de Daniel a partir de uma tripla clandestinidade: a política (na luta armada), a sexual (na homossexualidade reprimida até pela própria esquerda) e a existencial (uma vez que soropositivo enfrentando o que chamou de “morte social”). A dramaturgia escolhe focar na intimidade: um confinamento de quase três meses em Niterói, onde Daniel conheceu o grande paixão de sua vida, Cláudio Mesquita. É nesse espaço afetivo que o ícone político se humaniza, ressurgindo uma vez que um pioneiro da luta por direitos intersecionais.
“Codinome Daniel” é a peça final da “Trilogia para a Vida”, que investiga o HIV/AIDS no Brasil. Antes vieram “Lembro Todo Dia de Você” (sobre a vivência individual) e “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” (sobre guarida coletivo). Cá, o Núcleo Experimental atinge sua maturidade metodológica: aborda o tema de forma anti-trágica, transformando o diagnóstico em um caminho de reafirmação e luta política, nunca em sentença de morte.
Esteticamente, a montagem funde o heróico brechtiano ao lirismo existencial. A estrutura é não-linear, permitindo que personagens e tempos históricos diferentes coexistam em cena — tudo orquestrado com notável unidade. Um narrador/responsável guia a narrativa, explicitando o propósito da peça: usar o teatro para resgatar Daniel do esquecimento. A trilha original de Fernanda Maia atua uma vez que cola emocional, deslizando entre o afetivo, o passional e um quase-kitsch consciente, penetrando no testemunha sem mediações racionais.
No elenco, Davi Tápias confere ao protagonista uma dimensão comovente e empática, sustentada por sua intimidade com a temática (já havia vivido um personagem soropositivo na trilogia). Ao seu volta, um conjunto versátil — incluindo Cleomácio Inácio, Luciana Ramanzini, Fabiano Augusto, Robson Lima, Bruna Guerin, Renato Caetano e Fábio Enriquez — transita com facilidade entre figuras históricas e tipos cotidianos, funcionando uma vez que a memória coletiva que murado Daniel.
Ao revisitar as feridas abertas do pretérito e comemorar a luta pela vida, “Codinome Daniel” se consolida uma vez que prelecção de ativismo intersecional e, em tempos de fragilidade democrática e afirma o teatro músico autoral uma vez que veículo potente de memória, identidade e esperança.
Três perguntas para…
… Zé Henrique de Paula
A obra encerra o ciclo de peças do Núcleo Experimental que tratam da questão do HIV/Aids no Brasil. Qual o significado de finalizar essa trajetória com a figura de Daniel, que ligou a militância de esquerda, a homossexualidade e o ativismo pela vida em um só corpo?
É muito importante para a gente fechar essa trilogia falando do Herbert Daniel, porque isso dá a sensação de que fomos do privado para o universal. Saímos de um microcosmo para um macrocosmo. Começamos, em “Lembro todo dia de você”, falando de um integrante do próprio Núcleo Experimental, o Rafa Miranda. Esse músico de 2017 fala da experiência dele uma vez que jovem soropositivo e as questões que envolveram essa requisito.
Depois expandimos para um contexto maior com “Brenda Lee e o Palácio das Princesas”, com a figura da Brenda Lee, essa travesti que saiu de Pernambuco, veio para São Paulo e se dedicou a acomodar, cuidar e tratar travestis portadoras do HIV e Aids nos anos 1980 e início dos 1990.
E agora chegamos no Herbert Daniel, uma figura que extrapolou as fronteiras do Brasil. O slogan “viva a vida”, que ele criou, acabou sendo conectado à figura dele e usado em campanhas da Organização Mundial de Saúde. Ele foi homenageado no exterior e ajudou a ortografar a Enunciação Universal dos Direitos dos Portadores de HIV e doentes de Aids.
Para nós, é uma trajetória muito interessante: transpor de uma situação muito íntima, muito privado — porque somos todos amigos do Rafa —, passar pela Brenda Lee em contexto vernáculo e chegar no Herbert em contexto internacional. E ver uma vez que ainda temos muito, muito a percorrer nesse caminho… para que, uma vez que diz o Daniel, as pessoas que vivem com HIV e Aids não sejam condenadas a uma morte social, que ele costumava invocar de morte em vida, através do preconceito, da intolerância e principalmente do estigma. E é contra isso que a gente está lutando até hoje.
A montagem é apresentada em um momento de intensa reflexão sobre o pretérito dominador do país. Porquê a sua direção trabalhou para que o resgate da memória de Herbert Daniel se torne um espelho e uma reflexão urgente sobre o quadro político e social atual?
Pesquisei durante três anos, mergulhando na história do Daniel a partir da biografia “Revolucionário Gay”, do James Green. A partir dali, novas portas se abriram. Fui estudar essas figuras tão importantes do nosso pretérito recente, desse capítulo tenebroso que foi a ditadura, de 1964 a 1985. E percebi o quanto a gente conhece pouco sobre essas histórias.
Vejo que uma vaga de obras — uma vez que o filme “Ainda Estou Cá”, do Walter Salles, “O Agente Secreto”, do Kleber Mendonça, e outras — está trazendo esse tópico à tona de novo. Espero que “Codinome Daniel” possa dar uma pequena taxa nesse caminho de reconhecer o que aconteceu naqueles 21 anos: quantos direitos foram transgredidos, quantas pessoas foram vilipendiadas, algumas perdendo até o recta à vida.
Que a peça possa oferecer a taxa do teatro, dessa experiência presencial, para que a gente comece, finalmente, um acerto de contas com esse período. Nunca sei se faremos as pazes com ele, mas um acerto de contas é necessário. E estamos num momento muito quebradiço sobre isso, inclusive com a punição dos envolvidos no golpe gorado de 2022.
Talvez a gente comece esse acerto de contas de trás para frente: de 2022, retrocedendo até a ditadura e até antes de 1964, nos eventos que foram o prólogo do golpe. Acho que esse acerto de contas, de veste, já começou.
O espetáculo celebra o modo brasílio de se fazer teatro músico. Quais elementos artísticos e estéticos você considera essenciais para definir essa identidade autoral brasileira dentro do gênero, e uma vez que ela se manifesta em “Codinome Daniel”?
Acredito que o movimento de fazer um músico autoral e totalmente brasílio começa pela escolha de temas que são nossas histórias. Temos personagens, fatos históricos e um imaginário rico — folclore, mitos, nosso jeito de viver e pensar — que merecem ser contados. É daí que surge a música.
No Núcleo Experimental, ao longo da trilogia para a vida — “Lembro Todo Dia de Você”, “Brenda Lee” e “Codinome Daniel” — buscamos um autoconhecimento artístico: entender quem somos, inseridos neste tempo e lugar, com uma história teatral e músico que vem desde o teatro jesuíta, passando pelas burletas e pelo teatro de revista do século 19, com nomes uma vez que Chiquinha Gonzaga.
Hoje, quando se pensa em teatro músico no Brasil, muitas vezes esquecemos dessa tradição, dominados pela influência da Broadway. Nosso esforço é pesquisar e gerar uma forma autenticamente brasileira de fazer músico. Já estamos preparando dois novos projetos para 2026.
Além da geração, nos dedicamos à documentação: publicamos as obras, gravamos álbuns com os elencos e músicos originais, disponibilizamos as músicas em streaming e publicamos as partituras digitalmente. É um passo importante para preencher uma vácuo que ainda existe no registro do nosso teatro músico.
Núcleo Experimental – rua Barra Fundíbulo, 637, Barra Fundíbulo, região oeste. Seg. a qua., 20h. Até 17/12. Duração: 120 minutos. A partir de R$ 20 (meia-entrada) em sympla.com.br. Haverá bate-papo depois todas as apresentações
