Zeca Baleiro já compôs trilhas sonoras para diversas peças teatrais, mas se incomoda quando anunciam sua estreia uma vez que ator em “Felicidade”, espetáculo que inicia temporada nesta quarta-feira (7), no Teatro Sérgio Cardoso. “Não posso macular o dom dos verdadeiros atores”, diz ele. “Somente coloco a minha faceta em cena.”
Com asas negras nas costas (“parece um criancinha erê”, descreve a diretora Dani Angelotti) e sempre com o violão a tiracolo, Baleiro participa de diversas cenas, seja para interferir na ação, seja para trovar alguma música da trilha sonora que compôs para a peça, na qual reverencia artistas uma vez que Luiz Tatit, Arrigo Barnabé, Tim Maia e Jorge Ben Jor. “Mas, na verdade, é uma homenagem a Tom Zé.”
A explicação está na origem da peça, que remonta ao período de isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, em 2020. Para combater o estresse e a melancolia, o cartunista, ilustrador e roteirista Caco Galhardo se agarrou à música de seus ídolos, principalmente Tom Zé. “Ouvia todo o repertório dele, mas a música ‘Vai (Moça Amanhã de Manhã)’ me deu um clique”, lembra o artista, cujas tiras são publicadas pela Folha desde os anos 1990. “Mormente os primeiros versos.”
Gravada em 1976, a música traz uma falsa descontração e um jogo de palavras que permitiram a Tom Zé criticar a ditadura militar com sutileza. “Moça, amanhã de manhã/ Quando a gente convencionar/ Quero te expor que a felicidade vai/ Desabar sobre os homens, vai”, diz o início da música que, se nos anos 1970, fazia menção a um clima de felicidade forçada.
No início dos anos 2020, a música despertou em Galhardo a procura por uma teoria de liberdade. “Comecei a imaginar uma vez que seria se, no dia seguinte, a felicidade desabasse sobre nós”, conta. “Pensei na cena de uma mulher que acorda muito feliz, sem o menor motivo. No mesmo momento, senti que aquilo daria uma peça. Escrevi, deixei o texto na portaria do Tom Zé e, ainda naquela tarde, ele me ligou dizendo que tinha gostado. Foi uma vez que se a felicidade tivesse desabado sobre mim.”
O cartunista ofereceu o texto à atriz Martha Nowill, com quem já havia trabalhado, mas o projeto não vingou. Galhardo continuou burilando a peça enquanto aguardava uma oportunidade, que surgiu com a adesão da diretora Dani Angelotti e das produtoras Célia Potente e Selma Morente. O resultado é um espetáculo híbrido, entre comédia e músico. “Os atores cantam e dançam, mas não com o rigor exigido na Broadway”, diz o cartunista.
Angelotti logo percebeu a compasso rápida com que as cenas se sucediam. “Era o mesmo ritmo dos quadrinhos e também da música, o que poderia resultar em uma união perfeita”, conta a diretora, que logo convidou Baleiro para produzir a trilha sonora e fazer uma participação pontual em cena. “Ele e Caco têm um humor semelhante, rápido e inteligente, o que facilitou a sincronia entre música e texto.”
A comédia também representou um refrigério para Nowill, que vinha encadeando uma série de dramas no palco. Ela interpreta uma jornalista e influenciadora de sucesso, mas em uniforme mau humor por não se relacionar muito com a mãe, o marido, o director e até antigos amigos da escola. Certa manhã, sem explicação aparente, a personagem acorda radiante, tomada por uma alegria indestrutível. A felicidade é tamanha que se torna insuportável para os outros, o que acaba isolando a mulher.
“A peça questiona uma vez que ser feliz em um mundo cruel”, afirma Galhardo, que se proeza no trabalho coletivo do teatro para contrabalançar o cotidiano solitário do quadrinista.
“Mostra também uma vez que a felicidade se transformou em um resultado, principalmente nas redes sociais”, diz Nowill, em seu terceiro trabalho com Galhardo. “Apesar do olhar masculino, as protagonistas dele são sempre mulheres. O tom dos textos e dos diálogos nasce de uma mistura do teatro com os quadrinhos. O resultado é sempre cômico, um tanto ‘nonsense’, porque há sempre um pormenor que desloca os personagens da verdade.”
“Desde o início, eu sabia que não podia ser uma montagem realista”, afirma a encenadora, que pediu a Kleber Montanheiro que criasse figurinos e cenários inspirados nos quadrinhos. “As roupas têm traços incompletos, uma vez que se fossem desenhos, enquanto a cenografia traz portas e janelas levemente tortas, que também remetem às HQs. Só faltaram os balõezinhos com as falas dos personagens”, brinca Montanheiro. Em cena, a percussionista Layla Silva cuida dos efeitos sonoros, além de escoltar Baleiro.
Apesar do tom muitas vezes farsesco, Nowill enxerga o espetáculo uma vez que uma reflexão sobre as contradições que cercam o sentimento de felicidade em um contexto marcado por conflitos e tristezas. “Por trás da ingenuidade da personagem há uma consideração política sobre a felicidade coletiva. Uma vez que posso caminhar feliz se muitos à minha volta estão infelizes? A peça tenta lastrar a procura pela própria felicidade sem perder o olhar sisudo ao outro”, diz.
