Peça leva Zeca Baleiro ao palco para pensar a felicidade

Peça leva Zeca Baleiro ao palco para pensar a felicidade – 06/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Zeca Baleiro já compôs trilhas sonoras para diversas peças teatrais, mas se incomoda quando anunciam sua estreia uma vez que ator em “Felicidade”, espetáculo que inicia temporada nesta quarta-feira (7), no Teatro Sérgio Cardoso. “Não posso macular o dom dos verdadeiros atores”, diz ele. “Somente coloco a minha faceta em cena.”

Com asas negras nas costas (“parece um criancinha erê”, descreve a diretora Dani Angelotti) e sempre com o violão a tiracolo, Baleiro participa de diversas cenas, seja para interferir na ação, seja para trovar alguma música da trilha sonora que compôs para a peça, na qual reverencia artistas uma vez que Luiz Tatit, Arrigo Barnabé, Tim Maia e Jorge Ben Jor. “Mas, na verdade, é uma homenagem a Tom Zé.”

A explicação está na origem da peça, que remonta ao período de isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, em 2020. Para combater o estresse e a melancolia, o cartunista, ilustrador e roteirista Caco Galhardo se agarrou à música de seus ídolos, principalmente Tom Zé. “Ouvia todo o repertório dele, mas a música ‘Vai (Moça Amanhã de Manhã)’ me deu um clique”, lembra o artista, cujas tiras são publicadas pela Folha desde os anos 1990. “Mormente os primeiros versos.”

Gravada em 1976, a música traz uma falsa descontração e um jogo de palavras que permitiram a Tom Zé criticar a ditadura militar com sutileza. “Moça, amanhã de manhã/ Quando a gente convencionar/ Quero te expor que a felicidade vai/ Desabar sobre os homens, vai”, diz o início da música que, se nos anos 1970, fazia menção a um clima de felicidade forçada.

No início dos anos 2020, a música despertou em Galhardo a procura por uma teoria de liberdade. “Comecei a imaginar uma vez que seria se, no dia seguinte, a felicidade desabasse sobre nós”, conta. “Pensei na cena de uma mulher que acorda muito feliz, sem o menor motivo. No mesmo momento, senti que aquilo daria uma peça. Escrevi, deixei o texto na portaria do Tom Zé e, ainda naquela tarde, ele me ligou dizendo que tinha gostado. Foi uma vez que se a felicidade tivesse desabado sobre mim.”

O cartunista ofereceu o texto à atriz Martha Nowill, com quem já havia trabalhado, mas o projeto não vingou. Galhardo continuou burilando a peça enquanto aguardava uma oportunidade, que surgiu com a adesão da diretora Dani Angelotti e das produtoras Célia Potente e Selma Morente. O resultado é um espetáculo híbrido, entre comédia e músico. “Os atores cantam e dançam, mas não com o rigor exigido na Broadway”, diz o cartunista.

Angelotti logo percebeu a compasso rápida com que as cenas se sucediam. “Era o mesmo ritmo dos quadrinhos e também da música, o que poderia resultar em uma união perfeita”, conta a diretora, que logo convidou Baleiro para produzir a trilha sonora e fazer uma participação pontual em cena. “Ele e Caco têm um humor semelhante, rápido e inteligente, o que facilitou a sincronia entre música e texto.”

A comédia também representou um refrigério para Nowill, que vinha encadeando uma série de dramas no palco. Ela interpreta uma jornalista e influenciadora de sucesso, mas em uniforme mau humor por não se relacionar muito com a mãe, o marido, o director e até antigos amigos da escola. Certa manhã, sem explicação aparente, a personagem acorda radiante, tomada por uma alegria indestrutível. A felicidade é tamanha que se torna insuportável para os outros, o que acaba isolando a mulher.

“A peça questiona uma vez que ser feliz em um mundo cruel”, afirma Galhardo, que se proeza no trabalho coletivo do teatro para contrabalançar o cotidiano solitário do quadrinista.

“Mostra também uma vez que a felicidade se transformou em um resultado, principalmente nas redes sociais”, diz Nowill, em seu terceiro trabalho com Galhardo. “Apesar do olhar masculino, as protagonistas dele são sempre mulheres. O tom dos textos e dos diálogos nasce de uma mistura do teatro com os quadrinhos. O resultado é sempre cômico, um tanto ‘nonsense’, porque há sempre um pormenor que desloca os personagens da verdade.”

“Desde o início, eu sabia que não podia ser uma montagem realista”, afirma a encenadora, que pediu a Kleber Montanheiro que criasse figurinos e cenários inspirados nos quadrinhos. “As roupas têm traços incompletos, uma vez que se fossem desenhos, enquanto a cenografia traz portas e janelas levemente tortas, que também remetem às HQs. Só faltaram os balõezinhos com as falas dos personagens”, brinca Montanheiro. Em cena, a percussionista Layla Silva cuida dos efeitos sonoros, além de escoltar Baleiro.

Apesar do tom muitas vezes farsesco, Nowill enxerga o espetáculo uma vez que uma reflexão sobre as contradições que cercam o sentimento de felicidade em um contexto marcado por conflitos e tristezas. “Por trás da ingenuidade da personagem há uma consideração política sobre a felicidade coletiva. Uma vez que posso caminhar feliz se muitos à minha volta estão infelizes? A peça tenta lastrar a procura pela própria felicidade sem perder o olhar sisudo ao outro”, diz.

Folha

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