Mulher de cabelos curtos e castanhos, usando óculos e camisa branca, gesticula com as mãos enquanto fala. Ela segura um caderno apoiado nas pernas, com fundo preto ao redor.

Peça ‘Rainha Lira’ será encenada pela primeira vez – 25/02/2026 – Teatro

Celebridades Cultura


São Paulo


A peça “Rainha Lira”, publicada em livro em 2022 pelo crítico literário Roberto Schwarz, enfim será interpretada em uma edição próprio do projeto Sete Leituras, de Eugênia Thereza de Andrade, no dia 3 de março, no Sesc Pompeia.

O programa, zona limiar entre a leitura convencional e a montagem completa, comemora duas décadas neste ano. Eugênia decidiu incluir no cronograma principal esta edição próprio. “Não poderia deixar de fazer essa leitura. A forma porquê Schwarz aborda a situação política brasileira nos ajuda a compreendê-la”, afirma ela.


A atriz Denise Weinberg, que participa da peça ‘Rainha Lira’, em São Paulo


Alicia Peres/Divulgação

Ela convidou para a direção Kiko Marques, que também é dramaturgo. Juntos, capturaram para o elenco figuras porquê Denise Weinberg, que lê o papel da rainha. A versão que chega ao público é o resultado da troca entre Weinberg, Marques e Schwarz.

Quando surgiu a oportunidade de encenar sua obra, Schwarz tomou uma decisão radical. Não seria verosímil trabalhar com a íntegra do texto no formato do projeto Sete Leituras. Mas o responsável temia apropriar o texto e comprometê-lo. Quis, portanto, fazer um namoro drástico e apresentar exclusivamente o desenlace da obra.

Em “Rainha Lira”, o jornalista digeriu por meio da parábola política a história recente do Brasil desde as manifestações de 2013 até a soltura de Lula em 2019, posteriormente 580 dias de prisão, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff e o pleito que elegeu Jair Bolsonaro. Disso restaria, posteriormente o recorte, o pedaço final da trama, que compreende a subida da ultradireita populista e o subsequente retorno de Lula —cá rei Lalu.

Marques, o diretor, discordou da decisão. Achou que muito se perderia com o sacrifício das primeiras partes e decidiu propor sua própria versão, enxugando o texto sem terebrar mão da estrutura universal. O resultado acalmou —e satisfez— o crítico literário, que viu seu texto lucrar outra pujança na novidade versão.
“O trabalho que a gente fez foi justamente tirar do texto aquilo que, do ponto de vista da encenação, é excesso e funciona melhor no texto publicado”, diz Marques.

Na sua opinião, há potência na peça para além do diálogo com a situação política imediata. “Ela secção desse momento do Brasil, mas fala sobre as questões intrínsecas à sociedade. Você poderia pegar uma peça porquê ‘Hamlet’ e proferir que ela é datada, porque as pessoas lutam com punhal. Não é essa questão, porque a tese que está se trabalhando ali é muito maior, pertence à humanidade. Acho que a peça do Roberto tem isso.”

A decisão de Marques permitiu preservar a abrangência da obra, reconhecida pelo responsável porquê uma de suas forças. Há ali a tentativa de conquistar o círculo completo de um movimento histórico: “Uma passeata que pressiona o poder, o derruba e depois tem de optar pelo horizonte, não opta e tudo se atola”, nas palavras de Schwarz.

É a leitura que ele faz do saldo dos levantes que levaram à derrubada de Dilma, cá rainha Lira, e culminaram primeiro em uma guinada à direita e depois no retorno de Lula ao poder.

“Esse teatro e essa literatura com anelo abrangente sempre foram ligados à teoria de apresentar um ciclo completo que vai para qualquer lugar. Depois se impôs a teoria de que nós não vamos para lugar nenhum, e portanto a abrangência ficou desautorizada. Eu tentei fazer uma obra que, ao mesmo tempo, tem abrangência e não vai para lugar nenhum, e penso que isso tem a sua potência de revelação.”

Porquê reconhece seu responsável, é uma peça de orientação universal brechtiana —porquê Bertolt Brecht, o dramaturgo e encenador teutónico do século 20, busca-se ali encontrar uma potência poética dentro do diálogo político. “O espaço público é forçoso, e a arte se encolheu para o espaço privado, subjetivo. Evitei isso”, afirma o jornalista. “Procurei, dentro do verosímil, extrair uma espécie de música da discussão política, que tem uma formosura nela mesma. Tem jogo, tem astúcia, tem surpresas.”

Apesar disso, não há na obra de Schwarz zero parecido com as lições típicas das conclusões das peças de seu predecessor teutónico. Trata-se, ele diz, de uma peça pós-Brecht, escrita em um momento de maiores incertezas, em que já não cabe aos artistas indicar a direção das coisas. “Não vejo isso porquê uma opção pessoal, no sentido estreito da termo. Vejo porquê uma tentativa de captar a situação histórica real. Penso que Brecht, se escrevesse hoje, não daria lição final.”

Conforme o protótipo do Sete Leituras, “Rainha Lira” será encenada uma única vez, posteriormente três ensaios. A leitura carrega a expectativa de Schwarz e de quem o acompanha de enfim desencadear outras montagens do texto, que custou a trespassar do papel por justificação de seu formato reptante.

Rainha Lira
Dir.: Kiko Marques. Com: Adriana Lessa, Carlos Careqa, Denise Weinberg, Genézio de Barros, Virgínia Buckowski. 3/3, às 20h. Sesc Pompéia – Rua Clélia, 93, Chuva Branca, região oeste. 12 anos

Folha

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