Peça reúne Helena Ranaldi e filho e questiona maternidade

Peça reúne Helena Ranaldi e filho e questiona maternidade – 29/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Um varão e uma mulher estão desesperados. Eles não veem o fruto há dias e não têm a menor teoria do que pode ter ocorrido. Em procura de respostas, andam de um lado para o outro e encaram o soalho, o teto, as paredes e todos os cantos da sala, sem encontrar qualquer evidência. De repente, a guizo toca e o jovem entra, satisfeito, pela porta. A família se senta à mesa de jantar e é uma vez que se zero tivesse sucedido.

Uma vez que outras cenas da peça, essa situação se repete algumas vezes em “O Retorno”, mas as reações das personagens ficam cada vez mais estranhas. Na peça que estreia no Sesc Santana nesta sexta, que se passa num espaço revestido por telões de LED, sons e luzes guiam os reencontros entre os dois pais e a sua cria, um rapaz mandão. Interpretado por Pedro Waddington, ele se recusa a esclarecer os paradeiros e só pensa em salsichões com purê de batatas.

Frases projetadas nas paredes, extraídas do texto de Fredrik Brattberg, descrevem ações comuns à vida do parelha. No início, eles reagem à perda com a dor típica dos que perdem um progénito. Quando os ciclos se tornam mais frequentes, entretanto, a tristeza se transforma em aspecto e a felicidade, pouco a pouco, toma conta de seus corpos. Não há trilha sonora, iluminação ou envolvente idealizado que consiga manter a ordem do relacionamento —a dupla começa a desejar a escassez do fruto.

“Foi muito difícil, no primícias, separar o lado pessoal do profissional. São faces que se complementam”, diz Helena Ranaldi, mãe do jovem que interpretou Tiago Roitman na novidade versão de “Vale Tudo”. Ao atuar com ele pela primeira vez, ela brinca sobre conselhos que teriam ultrapassado certos limites nos primeiros ensaios. “A peça retrata justamente a influência que os filhos exercem na vida dos pais. Ela mostra o vazio que eles provocam e mexe com uma questão arquetípica.”

Para Leonardo Medeiros, que vive o pai, o flerte com comportamentos universais justifica o sucesso do dramaturgo norueguês, aclamado por “O Retorno” desde a estreia, em 2012. O espetáculo percorreu países uma vez que a Inglaterra, os Estados Unidos, a Romênia e a Turquia e esta é a primeira que um texto do responsável é montado na América do Sul. “É muito fácil de se identificar, já que a obra retrata situações com as quais todos já lidaram. Quem nunca teve um fruto que saiu de lar?”, questiona o ator.

Escrito uma vez que espécie de partitura músico, o espetáculo justapõe as ações dos personagens e a trilha sonora de Rafael Thomazini, performada ao vivo. Ao substanciar a artificialidade do projeto, do qual cenário oscila entre lar dos sonhos e lar de horrores, trovões, sintetizadores e arquivos que variam entre fantasias da Disney e filmes de tragédia guiam as reviravoltas dramáticas e o esgotamento familiar.

Os jogos de iluminação que, a depender das emoções do trio, usam vermelhos saturados ou amarelos suaves, também alimentam o rompimento com a veras. As ferramentas ao volta da crise tensionam os limites de uma suposta paternidade ideal e propõem uma questão —são os atores que controlam os sons e as luzes ou é esse sistema que controla o elenco?

“Se, ao longo das revoluções burguesas, o público quis entrar na alcova e ver dramas familiares próximos de seus dominantes, a hiperconexão dos dias de hoje aumenta essa premência voyeurística”, afirma o diretor José Roberto Jardim. Eclético, o artista já adaptou nomes da literatura fantástica que vão de H.P. Lovecraft a Valter Hugo Mãe e diz que a fabulação é oriundo aos que tentam vislumbrar, a partir de redes sociais e perfis digitais, a vida de outros.

“O texto de Brattberg pega questões que já apareciam em clássicos de Ibsen, Tchékhov e de outros papas do realismo. Mas é a forma uma vez que ele rasga e subverte essas temáticas, com estratégias menos óbvias, que provoca uma sentimento dissemelhante em quem vê.”

Medeiros, que se firmou com figuras uma vez que Zé Celso, faz coro ao não realismo. Ele diz que a linguagem convida o público a imaginar e se tornar participante ativo. Novidade nesse universo surreal, Ranaldi, por sua vez, descreve a experiência uma vez que desafiadora. “A estética que o José construiu obriga nossos corpos a se mexerem só em momentos específicos. Isso permite que a peça oscile entre o dramático e o cômico.”

Na tentativa de manter o afeto pelo perdido, os pais tentam ignorar as mágoas que são criadas por cada reencontro. Frente a um garoto que, quando presente, distribui ordens e se recusa a respondê-los, o parelha oscila entre dois extremos —hora sorriem de maneira histriônica, hora gritam com todas as forças.

Entre o pai postiço e a mãe verdadeira, Waddington vê “O Retorno” uma vez que um manobra fundamental para um jovem artista que acabou de finalizar um fenômeno uma vez que “Vale Tudo”. Questionado sobre a teoria de “nepo baby”, que descreve filhos de celebridades que escolheram a mesma profissão, ele diz só ver traços positivos. Mesmo as críticas que recebeu uma vez que neto de Odete Roitman ele classifica uma vez que “construtivas”.

“A atuação surgiu, para mim, de maneira oriundo, pelos meus pais. Eu via cenas de minha mãe na televisão e conversava com ela e meu pai [o diretor Ricardo Waddington] sobre o tópico na mesa de jantar. Mas eu era muito tímido e minha vontade de estar no palco viria muito depois”, explica. “Só depois entendi que o personagem nos protege da timidez. É ótimo ter pais que podem opinar ativamente em minha formação.”

Folha

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