Peça revê justiça poética de nelson rodrigues no século 21

Peça revê justiça poética de Nelson Rodrigues no século 21 – 31/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em um momento de acirrados debates sobre moral e impunidade no país, o diretor Nelson Baskerville apresenta um olhar tão contemporâneo quanto necessário para a obra do mais polêmico dramaturgo brasílico. O espetáculo “17x Nelson – Onde os Canalhas Pagam por seus Crimes” é um mosaico que reúne fragmentos das 17 peças de Nelson Rodrigues, do consagrado ao obscuro, tecendo uma narrativa sobre culpa, consequência e a hipocrisia social.

Com estreia em 1º de novembro no Espaço Barra, a montagem coloca 18 artistas em cena, desafiando-os a dar vida a 50 personagens em um turbilhão de paixões e falhas humanas.

“O Nelson Rodrigues sempre disse que o único lugar onde as pessoas pagavam pelos seus pecados era nas peças dele. Esse foi o mote que abracei, aproveitando toda a situação que vivemos –e ainda estamos vivendo–, uma tentativa de, de novo, pegar o Brasil e tentar coibir alguns maus hábitos que temos uma vez que sociedade”, reflete Baskerville, em entrevista.

Esta é a terceira investida do diretor em sua missão de interpretar o universo rodriguiano. O projeto, que começou em 2005 com “O Inferno de Todos Nós” e seguiu em 2012 com “Se não é Eterno, não é Paixão”, consolida uma trilogia que marcou a cena cultural ao revisitar Rodrigues longe dos clichês, destacando sua atualidade e profundidade psicológica.

Para Baskerville, a obra de Rodrigues é um diagnóstico perene da espírito vernáculo. “Nos anos 1940, o dramaturgo começou a detectar esse tipo brasílico, racista sem parecer racista, homofóbico sem parecer homofóbico, misógino sem parecer misógino. Uma vida onde as pessoas usam máscaras. Em suas peças, Nelson faz tombar essa máscara”, analisa.

O diretor vai além e relaciona a temática ao momento político atual. “Estamos vivendo realmente o final de uma tragédia, e espero que dessa vez os canalhas paguem por seus crimes”, provoca, defendendo a relevância do responsável. “Nelson Rodrigues tinha de ser estudado nas escolas, assim uma vez que o inglês é alfabetizado com Shakespeare; o gálico, com Molière; o teutónico, com Goethe. O ensino médio deveria ter uma material sobre ele para entendermos a sociedade.”

A gênese do espetáculo está intimamente ligada ao método de Baskerville, que alia a geração artística ao ensino. “Essa peça nasceu de uma oficina. Pela minha vocação de professor, esse é o envolvente onde me sinto muito livre para a geração, e fomento muito a liberdade dos atores”, explica.

Ele relembra suas raízes nos anos 80, uma quadra de produção independente e colaborativa. “Sempre fizemos teatro desse jeito: juntar as pessoas em torno da pesquisa e depois realizar. É um lugar onde eu divido com eles o ofício de ser ator.” Esse protótipo, segundo ele, é uma resposta vital à veras do mercado. “Os atores saem da escola muito sem colocação. A porcentagem de um ator que sai de uma escola e imediatamente começa a trabalhar é ínfima. O que eu fomento cá é a urgência de se juntar, de estudar e de aprender a se produzir.”

Com uma trajetória de mais de duas décadas, Baskerville reflete sobre a evolução de sua linguagem, que ele labareda de “Expediente Heróico”. “Cheguei a um ponto onde sinto que quase esgotei essa linguagem. Hoje, negocio mais os elementos dramáticos e épicos”, pondera.

Uma máxima do dramaturgo Tennessee Williams serve uma vez que sua bússola criativa: “Ele dizia ser o oposto de um mágico, pois enquanto o mágico faz a patranha parecer verdade, ele quer fazer a verdade parecer patranha. Isso me permite certos exageros em cena.” Essa abordagem justifica os momentos de ruptura e estranhamento que pontuam seus trabalhos, sempre com o objetivo de “ter sempre um pouco que incomode, que seja ácido ou que quebre o fluxo”.

Dissemelhante das edições anteriores, a montagem não segue uma risca cronológica. “A passagem de uma peça para outra é praticamente sem pausa. Trata-se de um grande desfile de personagens e situações”, descreve Baskerville. A ordem das cenas foi ditada pela dinâmica do elenco e pela encenação, criando um ritmo de colagem vertiginoso.

O cenário, idealizado pelo diretor, é constituído por estruturas móveis semelhantes a andaimes, que permitem a geração de múltiplas ambientações em poucos segundos – uma metáfora arquitetônica para a construção e desconstrução das personalidades. Os figurinos de David Parizotti mesclam elementos das décadas de 40 a 80 com toques contemporâneos, borrando as fronteiras temporais e reforçando a atemporalidade dos conflitos.

A trilha sonora é um personagem à segmento, tão eclética e multifacetada quanto a obra em questão. “Não poderia ser homogênea, seria insuportável”, justifica Baskerville. O repertório salta de Astor Piazzolla a Queen, de Roberto Carlos à ópera, em uma curadoria que espelha a genialidade e a dissonância do universo rodriguiano. O diretor ainda cita uma invenção recente: o compositor português Carlos Bica, cuja música “abre um dos espetáculos” com uma fusão de Beethoven e elementos contemporâneos que cria “um pouco altamente estranho e bacana”.

Para Baskerville, a juventude do elenco não é um pormenor, mas uma potência. “O papel cá do encenador é realmente transfixar o olhar, a mente, dos jovens artistas para a obra do Nelson, que sempre estará em voga, sempre será moderna e contemporânea.” Ele acredita que é através desse encontro entre a novidade geração e o texto clássico que a obra se revitaliza e encontra seu repercussão no presente.

“17x Nelson – Onde os Canalhas Pagam por seus Crimes ” é um projeto de longo prazo que afirma a permanência de Nelson Rodrigues uma vez que o grande tradutor dos dilemas nacionais. Na visão de Baskerville, encenar Rodrigues é um ato de resistência e compreensão. “Explorar as complexidades da espírito humana é o que torna Nelson Rodrigues um responsável obrigatório”, finaliza o diretor, que promete seguir estudando e encenando a obra do rabino “até morrer”.

Folha

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