Peça tematiza ataque à arte com obra de Wislawa Szymborska

Peça tematiza ataque à arte com obra de Wislawa Szymborska – 16/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A poeta caminha a passos lentos sem saber que o transe está à espreita. Com os olhos perdidos nas páginas de um livro, ela ignora a assassina que segue cada um de seus movimentos. De repente, o corpo da escritora tomba inerte sobre o palco. Já não há leitura ou passeio. A poeta está morta.

Mais do que chacinar uma pessoa, a personagem de Clara Roble na peça “Projeto Wislawa” almeja expelir um ideal.

Em papeleta no Teatro Paulo Eiró, na capital paulista, o espetáculo tem porquê fio condutor um atentado contra a poeta polonesa Wislawa Szymborska, ganhadora do Nobel de literatura em 1996. A produção, porém, não tem qualquer pretensão biográfica. Na vida real, a artista não foi assassinada, mas morreu de forma tranquila enquanto dormia, aos 88 anos.

O diretor e dramaturgo Cesar Ribeiro decidiu, no entanto, reescrever a história de Szymborska para refletir sobre a perseguição à arte.

Na peça, é porquê se a poeta polonesa encarnasse a formosura, o lirismo e a sensibilidade. No outro extremo, a sua assassina materializa a antítese de todos esses princípios. Enquanto um lado evoca a vida e a geração, o outro representa a morte e a devastação.

Esse embate é traduzido na cenografia por meio da presença no palco de uma cadeira elétrica e de um carrinho de bebê, objetos que parecem anunciar o termo e o prelúdios.

“É uma peça que fala sobre a tentativa permanente de desqualificar a trova e de ridicularizar a arte, fazendo dela alguma coisa desnecessário”, diz Vera Zimmermann, que dá vida no espetáculo a Szymborska, além de outras três personagens.

“Acho que é um trabalho bastante atual, porque nós passamos quatro anos vivendo a devastação da arte.”

A artista se refere ao governo de Jair Bolsonaro, político que criticou diversas vezes a classe artística e promoveu um desmonte do Ministério da Cultura durante a sua gestão.

“Nós fomos sobreviventes desse período. Isso reverbera até hoje e a gente tem a consciência de que talvez essas reverberações nunca acabem. Finalmente, os destruidores da arte estão por aí.” Sobreviver, aliás, foi um verbo que Szymborska precisou conjugar bastante ao longo da vida.

Nascida no vilarejo de Bnin, ela se mudou ainda moço para Cracóvia, onde testemunhou os horrores da ocupação nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. Posteriormente o termo do conflito, viveu sob o tirania do regime comunista, que chegou a criticar o seu primeiro livro, lançado em 1949.

A artista, no entanto, nunca se rendeu à secura tão particularidade daquele período, alguma coisa que deixou simples em um de seus poemas mais célebres. “Sou, mas não tenho que ser filha da minha estação”, escreveu ela, em “Gabo dos Sonhos”.

Por esse motivo, seus versos deixavam de lado a rijeza e a solenidade em obséquio de uma linguagem simples, alcançável e, por vezes, zombeteira. É isso o que se observa em poemas porquê “Reconhecimento”, “Um Grande Número” ou “Sob uma Estrela Pequenina”.

Assim porquê a poeta, as atrizes em cena têm o humor de quem não se leva a sério demais. Exemplo disso é quando Zimmermann declama “Visto do Sobranceiro” —uma trova em que Szymborska reflete sobre a morte.

No lugar de adotar um tom solene ou grandioso, a artista diz os versos porquê se fosse uma moço, gesticulando de forma exagerada num flerte com o farsesco. “A direção do César escolhe ir ao extremo, no limite da versão. Ele não acredita nesse naturalismo, e sim num teatro expressionista.”

Essa intensidade toda se traduz também por meio das canções que tocam ao longo da peça, uma escolha sonora que conta com pop e clássico. Em oferecido momento, as personagens começam a dançar ao som de “Hello”, parceria do DJ galicismo Martin Solveig com a orquestra Dragonette.

“É uma fricção de universos”, diz Clara Roble, que vive no espetáculo a assassina da poeta. “É o encontro entre a sutileza dos poemas dela e esse impacto sonoro extremado e desconcertante que a direção propõe.”

Embora conhecida pela sutileza, a produção de Szymborska muitas vezes aborda temas espinhosos, porquê a tragédia e a violência. Evidência disso é “Retrato de 11 de Setembro”, um dos poemas lidos durante o espetáculo. Nos versos, a polonesa descreve a imagem de pessoas se jogando das Torres Gêmeas durante o atentado terrorista de 2001.

“Só posso fazer duas coisas por elas — descrever esse voo e não aumentar a última sentença”, escreveu a artista, no final da trova.

Szymborska também era conhecida por usar a arte para refletir sobre a própria arte, criando um tirocínio metalinguístico que se faz presente em diferentes momentos da peça.

“Em outros poemas, ela fala muito sobre o cotidiano, ou seja, sobre aqueles momentos que parecem não ter influência, mas que se tornam interessantes por meio da arte”, diz Roble. “Para mim, é um trabalho que ressalta a influência da delicadeza e do olhar discreto.”

Folha

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