A encenação de “Velocidade”, do grupo mineiro Quatroloscinco, é impulsionada pela teorema médio do teatro uma vez que uma “máquina de desacelerar o tempo”, uma mediação tática contra o regime temporal dominante da contemporaneidade. Em um mundo regido pela fragmentação e pelo impulso de “rolar tela”, o espetáculo se erige uma vez que um espaço de duração controlada que convida o público a uma presença radical, oferecendo uma janela de desaceleração intensiva.
Esta proposta não é meramente poética, mas surge uma vez que resposta expressiva ao momento histórico pós-pandêmico. A peça de Assis Benevenuto e Marcos Coletta se configura uma vez que uma “reflexão tardia” sobre os anos de isolamento da pandemia e a frustração com o tempo hiperacelerado que se seguiu. Ao criticar a qualidade do tempo consumido digitalmente, a obra posiciona o teatro uma vez que refúgio necessário contra a fragmentação mental.
Formalmente, “Velocidade” adota uma arquitetura cênica duplamente inovadora. Concebendo-se uma vez que uma “peça-livro”, a obra se estrutura em sete partes análogas a capítulos, incorporando elementos uma vez que prefácio e posfácio. Esta escolha constitui um ato político contra a superficialidade da mídia contemporânea, opondo a linearidade estrutural do livro à não-linearidade fragmentada do scroll do dedo. Simultaneamente, ao se definir uma vez que “peça-sonho”, permite o uso de imagens não concatenadas que replicam a lógica onírica. A submersão inicia com um rito de passagem significativo: seis minutos de narração no escuro totalidade com áudios de sonhos reais.
O elemento cênico mais emblema reside no uso de bonecos de madeira que funcionam uma vez que avatares dos cinco atores. Estes duplos de 50 cm, rígidos e inanimados, materializam poderosamente a esquizofrenia identitária contemporânea, abstraindo o eu tal uma vez que o quidam depressa se projeta em formas digitais. O contraste entre o corpo vivo do ator e seu boneco atinge o orgasmo na cena do “queda livre talk show”, onde os duplos encarnam o “inconsciente selvagem” dos performers, vocalizando verdades que a pressa cotidiana suprime.
“Velocidade” recusa-se a ser uma distração passiva. Seu desfecho transfere ao público a responsabilidade de levar a desaceleração e a reflexão para a vida além da sala de teatro, completando sua missão uma vez que máquina de transformação temporal.
Três perguntas para…
… Assis Benevenuto
A peça é descrita uma vez que uma “máquina de desacelerar o tempo”. Uma vez que se constrói, na prática cênica, essa duração controlada? É uma questão de ritmo, de repetição, ou da própria arquitetura da encenação?
A teoria de “Velocidade” uma vez que uma máquina de desacelerar o tempo é uma provocação poética que fazemos ao público. Esse noção é citado por Vivian Abenshushan, escritora e editora mexicana, autora do experimento “Notas Sobre os Doentes de Velocidade” – obra que dentre várias outras nos nutriu durante o processo de geração da nossa peça. Neste experimento, a autora fala da literatura, e da arte em universal, uma vez que um verosímil mecanismo de desacelerar o tempo.
Entendemos essa provocação pela relação que se estabelece no teatro, onde o caso da poíesis se dá num mesmo espaço-tempo entre agentes criadores e espectadores. É preciso estar ali, coletivamente, ainda que cada um com sua vida e história, não dá para ser depois. Muito, mas, para além dessa questão ontológica do teatro, quisemos proporcionar aos espectadores algumas percepções sobre a passagem do tempo e a velocidade das coisas e da vida.
Aí, sim, entram vários aspectos, uma vez que a cena inicial: a trevas dilata nossas pupilas, o corpo torna-se mais sisudo, cria foco; o áudio com voz sonolenta também nos faz processar as informações noutro tempo. O espaço cênico tem poucos objetos, que vão sendo movidos pelo espaço ao longo da peça, e essa movimentação, que inclui também a dos atores, é realizada com desvelo, com limpeza, com calma, para que tudo aconteça e se transforme ali, na frente do público.
Os sete quadros do nosso livro-peça também criam essa noção de ritmo e repetição, ainda que cada capítulo tenha sua pulsação e duração distinta.
Assim, podemos pensar que a arquitetura da peça foi construída uma vez que um invitação poético e prático para que estejamos (atores e público) ali, no tempo presente, construindo a poética de “Velocidade”, talvez desacelerando das tantas presenças virtuais que hoje nos integram. No entanto, não diria que é uma duração controlada, pois essa provocação poético-prática que fazemos só se elabora no outro, e cada pessoa tem um tipo de percepção.
Os seis minutos iniciais no escuro inteiro, com áudios de sonhos reais, soam uma vez que um “rito de passagem”. Qual era a intenção ao sujeitar o público a essa submersão sensorial e de privação visual logo no início?
É uma forma de convocar o público a entrar noutro nível de percepção. As pessoas (nós também) entram no teatro cheias de informações externas. Tem gente que deixa para desligar o celular só depois que a peça já começou. Enfim, são muitos os motivos que nos mantêm ligados às redes, né? Mas esse “rito de passagem”, tal uma vez que você descreveu, é uma provocação sinestésica mesmo. Uma vez que disse anteriormente, nossa pupila dilata, o corpo reage, fica mais alerta, qualquer mudança de luz é percebida com mais sensibilidade; tem pessoas que começam a penetrar boca de sono quando escutam a minha voz no áudio – também bocejo várias vezes naquele áudio. É um áudio de um sonho real.
Durante o processo de geração nos debruçamos sobre os sonhos, sobre a nossa relação contemporânea com eles, sobre a história com os sonhos. Lemos a obra de Sidarta Ribeiro, entre outros cientistas que estudam esses aspectos. Em 2020, durante a pior segmento da pandemia, eu fui passar um tempo no interno, fugindo da cidade, fui morar com meus pais na roça no interno de Minas, para onde eles voltaram a viver há alguns anos.
Uma noite eu sonhei com o meu avô paterno, recém-falecido. O sítio era dele, onde meu pai cresceu. Acordei de madrugada muito tocado pelo sonho, peguei o celular e gravei o sonho para que no moca da manhã eu pudesse racontar a meus pais, com a riqueza de detalhes que se eu não tivesse gravado, certamente perderia.
Durante a geração de “Velocidade”, fizemos vários exercícios sobre os sonhos. Um dia, eu reuni todos e mostrei o áudio. O que aconteceu é que ao escutarmos juntos, alguma coisa aconteceu ali. Fomos conduzidos para qualquer lugar coletivamente, talvez isso que você diz: passamos juntos por uma experiência. Teve quem ponderou sobre o tempo de duração, mas entendemos que justamente era esse risco que nos interessava. Não temos o controle se todas as pessoas experienciam da mesma forma o início da peça. Já tivemos relato de gente que disse que ficou muito tocada, emocionada e até incomodada, mas talvez seja sobre isso: a pessoa foi afetada.
No final, a “máquina de desacelerar” é bem-sucedida somente se sua função continuar fora do teatro. Você acredita que uma experiência artística pode, de roupa, modificar de forma duradoura a percepção temporal de uma pessoa?
Não sei se podemos pensar que uma obra de arte seja bem-sucedida nesse sentido, porque o que acontece com o público não temos muito a dimensão, e a obra acontece é em contato com ele. O que eu digo ao final, nos agradecimentos, que “a contracapa do livro que fizemos juntos ainda será escrita, por cada um de vocês, em suas memórias e sonhos, a partir do momento em que saírem do teatro”, acho que tem a ver com isso de uma ininterrupção da experiência que cada um irá desenvolver, levar, olvidar, sei lá, mas é alguma coisa que a gente não domina.
A teoria da peça uma vez que uma máquina de desacelerar o tempo funciona uma vez que provocação poética, menos uma vez que um uso utilitarista da arte, uma vez que um objeto funcional. Acredito que uma experiência artística pode, sim, nos transformar de alguma forma, expandir, ou até mesmo nos endurecer, ou seja, nos afetar. Mas sobre a duração dessa experiência e suas consequências, não saberia delimitar.
CCBB – rua Álvares Penteado, 112, Meio Histórico. Qui. e sex., 19h. Sáb. e dom., 17h. Até 12/10. Duração: 100 minutos. A partir de R$ 15 (meia-entrada) em bb.com.br/cultura e na bilheteria do CCBB
