'pedaço de mim' confronta nossa noção de normalidade 06/07/2025

‘Pedaço de Mim’ confronta nossa noção de normalidade – 06/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Na primeira cena de “Pedaço de Mim”, longa de estreia da diretora Anne-Sophie Bailly, uma mãe e seu rebento nadam numa piscina, filmados em câmera lenta, seus corpos se movimentando lindamente embaixo d’chuva. É um primórdio promissor, que o filme nem sempre irá seguir.

A protagonista é Mona, mulher de meia idade interpretada por Laure Calamy –uma atuação que recebeu elogios e críticas na mesma medida. Ela cuida do rebento neurodivergente Joel, aliás, Charles Peccia Galletto, um adulto tido porquê “lento” pela sociedade ao volta.

Por um inadvertência, Joel engravida sua companheira de trabalho Océane, personagem de Julie Froger, também neurodivergente. A partir desse acidente surge uma crise, tanto na relação mãe e rebento porquê de Mona com os pais de Océane. Estes a acusam de negligenciar os cuidados com o rebento, que, segundo eles, teria abusado de uma vulnerável.

Logo vemos que Joel pode ser considerado lento, mas Mona, que é considerada normal e tem a idade da maturidade, em muitos aspectos é mais infantil que ele.

O filme parece portanto se perguntar o que é a normalidade. Seria normal alguém retirar o tapete de outros no ocupação, se inebriar na saída do trabalho e espancar em sua esposa, dentro de um matrimônio muito de convénio com a sociedade patriarcal burguesa? Vemos atrocidades das mais diversas todos os dias e a maioria delas é normalizada. Por que neurodivergentes não podem ser considerados normais?

A partir dessa indagação, começamos a perceber que talvez um pouco de independência não fará mal a Joel. Pelo contrário. Talvez se desprender um pouco da mãe seja de vestimenta o que ele precisa, assim porquê Océane.

Evidente que eles precisam de alguns cuidados, de proximidade afetiva, de esteio para decisões mais importantes. Pensando muito, quem não precisa? Talvez algumas pessoas tidas porquê normais consigam sobreviver melhor à solidão, mas isso não as faz superiores a ninguém.

Cada pessoa tem sua particularidade, todos nós temos nossas limitações. Joel tem rompantes violentos. Mas Mona também, e o pai de Océane, e muitas outras pessoas. O que importa é que Joel é um personagem adorável, assim porquê Océane. Mesmo Mona, que pode irritar um pouco com suas inconstâncias e um evidente excesso na tradução de Calamy, acaba por ocupar nossa simpatia.

Mona conhece o belga Frank, vivido por Geert Van Rampelberg. Eles voltam a se encontrar na Bélgica, mas na viagem, Joel acaba se perdendo. Encontrado pela polícia, ele é levado para a morada do pai, que mal conhece –e que nós passamos a saber, ainda que superficialmente.

Quando Mona vai buscar Joel na morada de seu ex-marido, o filme quase se perde. Ninguém sabe recta o que fazer, e talvez aquele que tenha mais consciência do que se passa no momento seja mesmo Joel. Ali percebemos que sua mãe não é réplica, e que seu pai nunca soube mourejar com o rebento com deficiência. De perto, ninguém é normal, com o perdão do clichê.

Formalmente, o longa de Bailly remete ao primórdio deste século, um pouco semelhante aos que os irmãos Dardenne faziam em “O Fruto”, por exemplo. Isto torna “Pedaço de Mim” mais ultrapassado do que se remetesse aos anos 1970 ou 1980, pois nessas décadas o cinema ainda desfrutava de qualquer frescor da modernidade e suas radicalizações.

Esse modo de filmar muito de perto, com boa segmento da imagem desfocada e uma câmera que parece encurralar os personagens, já teve sua diluição em inúmeras derivações nos últimos anos, tornando-se mesmo um lugar-comum de festivais europeus.

Ainda assim, esse estilo, quando muito trabalhado, rende algumas cenas fortes, porquê a da piscina no primórdio, o momento em que Mona conhece Frank, o momento em que o reencontra na Bélgica, e, finalmente, a bela sequência final, que surpreende pela precisão do tom, mesmo dentro de uma certa previsibilidade.

Zero supera, mas, o movimento de recuo que a câmera faz, filmando do supino e cada vez mais de longe, o aparentemente perdido e desorientado Joel, que acompanha o desfile porquê mais um na turba. É um momento muito elogiado pela sátira francesa, com razão.

Essa imagem perturbadora, localizada no meio do filme, o resume e o explica ao mesmo tempo, além de confrontar nossa noção de normalidade. Concordemos ou não com a teoria que ela implica, sua força cinematográfica se afirma. É o mais importante quando analisamos um filme.

Folha

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