Pedaços de obras vandalizadas no 8 de Janeiro viram arte

Pedaços de obras vandalizadas no 8 de Janeiro viram arte – 07/01/2026 – Política

Celebridades Cultura

Três olhos observam agora os cacos de um vaso italiano quebrado no Palácio do Planalto em 8 de janeiro de 2023. A ânfora azul e branca, de responsável incógnito, foi restaurada e devolvida ao montão da Presidência da República.

Pelas mãos do artista plástico João Angelini, os fragmentos da peça inservíveis para a restauração ajudam a lembrar a invasão de três anos detrás, quando 21 obras de arte expostas na sede do Poder Executivo foram vandalizadas.

Assim uma vez que os sobras do vaso deram origem à obra de Angelini, sete chassis de telas destruídas no 8 de Janeiro foram usados por Marcos Antony para a “Constituição para sete quadros em virente e amarelo”, propositadamente instável para quem a observa no segundo marchar do palácio.

“Sem conversar tanto, todos esses artistas mantiveram essa fratura e deixaram os materiais bastante crus. Essa teoria de um gesto violento está ali, o que no restauro não fica evidente. Esses materiais mantêm essa memória, essa história”, explica a artista visual Luciana Paiva, curadora do projeto.

Os fragmentos chegaram a Luciana por meio do diretor-curador dos palácios presidenciais, Rogério Roble.

Com as obras do Palácio do Planalto reparadas e devolvidas no início do ano pretérito, algumas coisas o inquietavam naquela ocasião: a vontade de dar uma destinação artística aos resíduos, aproveitando todo o material, de marcar um evento histórico e de deixar o montão da Presidência mais plural.

Ao ver a caixa de resíduos que tinham sobrado da restauração das obras, Luciana diz ter se deparado não com uma possibilidade, mas quatro.

“Quando eu cheguei no meu ateliê, eu percebi que o que tinha ali era quase uma exposição. Pensei em quatro artistas do Província Federalista que têm mais proximidade com esses materiais e achei mais interessante coletivizar esse processo”, diz Luciana.

A artista visual Paula Catu, radicada em Brasília, recebeu retalhos da tela que fazia a contenção da pintura “As Mulatas”, de Di Cavalcanti —uma das mais célebres do artista e também a principal peça que estava exposta no Salão Superior do Planalto em 8 de janeiro de 2023.

Com uma pesquisa sobre gênero e arte têxtil, Catu bordou ela própria os sete rasgados. “Era uma grande responsabilidade ter em mãos esse material tão valedouro, que já era importante por ser uma obra de Di Cavalcanti e por ter toda a trajetória de ter sido esfaqueada”, diz.

“Eu não queria tapar completamente os flagelos. Pensando nesse lugar de registro, quis deixar o flagelo acessível, mas, ao mesmo tempo, edificar um tanto em cima.”

Os demais materiais foram recebidos pela artista visual Letícia Miranda: pedaços de madeira e parafusos da obra “Galhos e Sombras”, de Frans Krajcberg, além de lixo deixados pelos invasores dentro do vaso italiano.

As peças produzidas por Catu e Miranda estão em tempo de finalização e serão expostas perto das originais —de Di Cavalcanti e de Krajcberg. A ânfora e a obra de Angelini foram colocadas no terceiro marchar do Palácio do Planalto, onde fica o gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Das 21 obras vandalizadas, 20 foram recuperadas. Somente uma, a tela “Bandeira do Brasil”, de Jorge Eduardo, foi devolvida ao Palácio do Planalto com marcas evidentes do dano —o quadro, antes pendurado no térreo, agora está no segundo marchar, dentro de um suporte de vidro e madeira.

“O Palácio do Planalto é a sede do governo. É onde o presidente da República recebe chefes de Estado, além de outras autoridades cotidianamente. Houve o entendimento de que o espaço deveria ser recomposto com qualidade de apresentação”, explica Roble.

“A ‘Bandeira do Brasil’, de Jorge Eduardo, foi mantida na mesma exigência justamente por conta de toda a fardo simbólica por trás: uma bandeira hiper-realista, muito ligada a um símbolo pátrio, foi retirada da parede e jogada no soalho justamente para que as pessoas que estavam circulando cá não molhassem os pés em um espaço que elas mesmas tinham inundado”, completa.

As novas peças também ajudam na transformação gradual do Palácio do Planalto de moderno para contemporâneo. Em 2025, 74 obras foram doadas por artistas ao montão da Presidência (que reúne os itens do Planalto e do Palácio da Alvorada).

“São quatro artistas contemporâneos que produzem a partir de materiais muito inusitados. E são linguagens também muito diferentes: não é pintura, não é estátua. Há uma predominância dessas linguagens mais tradicionais, naturalmente, porque é um montão que traz segmento da história”, avalia Luciana.

Desde o ano pretérito, a bandeira do Brasil e a elaboração de Antony dividem o espaço do segundo marchar com Daiara Tukano (a primeira artista indígena do Planalto) e Antonio Kuschnir.

“O que me importa é trazer pluralidade para o Palácio do Planalto. O que eu não posso é concordar com a manutenção de um montão 80% masculino, branco, hétero e burguês no governo Lula”, afirma Roble.

Folha

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