No texto “Não está na hora de criticar o pensamento crítico?”, Wilson Gomes mais uma vez ataca os estudos e políticas em torno das identidades subalternas. Desta vez, repete o mantra do movimento iniciado por liberais porquê Mark Lilla e Yascha Mounk e sustenta que a universidade e secção do campo intelectual tornaram-se reféns de um oração militante, repleto de jargões e de “sinalização de virtude”, mais preocupado em parecer engajado do que em compreender o mundo.
A sátira é espirituosa, mas padece do mesmo problema que denuncia: secção de um vestuário real, mas o distorce até transformá-lo numa resguardo da velha fantasia da neutralidade.
Gomes ironiza conceitos porquê “racismo estrutural”, “epistemologias”, “queer” e conclui que tais expressões servem somente para demarcar pertencimento à “tribo” da “esquerda progressista”. O que ele trata porquê caricatura, porém, é resultado de um processo histórico: a ingressão, ainda que tardia, de vozes e perspectivas subalternizadas na produção do conhecimento.
Termos porquê “corpos-territórios”, “decolonialidade” ou “afrodiaspórico” não são modismos; são formas de nomear experiências que a linguagem eurocêntrica da ciência moderna nunca conseguiu albergar, são transformações epistemológicas em curso e que fazem secção da própria organização dos campos científicos. São essas novas epistemes que Gomes, Lilla, Mounk e muitos outros intelectuais não suportam.
É legítimo criticar o uso automático desses novos conceitos. Mas confundi-los com vazio intelectual é ignorar as diversas transformações epistemológicas que a própria ciência passou, é ignorar toda uma tradição de pensamento crítico que, de Marx a Paulo Freire, de Angela Davis à Escola de Frankfurt, sempre insistiu que compreender o mundo sem transformá-lo é somente uma maneira de aceitá-lo.
O responsável lamenta que a 11ª tese de Marx sobre Feuerbach tenha sido lida porquê um chamado à militância. Marx, no entanto, não opôs versão e transformação: mostrou que a primeira é infecundo sem a segunda. O que Gomes labareda de “honestidade científica” não é neutralidade —é privilégio fantasiado de método. Nenhum conhecimento é produzido fora das disputas de poder. Fingir o contrário é, esta sim, uma forma de desonestidade intelectual.
Há, é verdade, uma crise na produção de conhecimento. Mas ela não decorre de um suposto tribalismo progressista. O que corrói a universidade é o negacionismo, a desinformação, a precarização do trabalho docente, o produtivismo sem reflexão e o desmonte do financiamento público.
Mostrar o jargão porquê sintoma da decadência do pensamento é um diagnóstico cômodo —e socialmente míope. Enquanto professores acumulam jornadas e pesquisadores disputam migalhas de editais, o risco real é o da superficialidade imposta pela lógica de mercado, não o da reflexão sátira.
Não há zero de risível em pesquisas que articulam raça, gênero, colonialismo e desigualdade. Ao contrário: há nelas o esforço de reconstruir as condições históricas de produção do saber. O que o responsável labareda de “sinalização da virtude” é, muitas vezes, o gesto de tornar visíveis sujeitos e experiências que foram sistematicamente apagados do horizonte da razão ocidental.
Falta, sim, quem explique o mundo —mas sobretudo quem o explique sem fingir que o faz de um lugar neutro. Falta quem reconheça que todo pensamento é situado e que a sátira, longe de ser um adorno retórico, é o que impede a rendição à barbárie.
Quando Gomes lamenta que “falta quem entenda e explique o mundo com honestidade”, o que de vestuário lamenta é a perda do monopólio dos velhos mediadores —o professor, o filósofo, o jornalista (em privativo, aqueles que sempre ocuparam lugares hegemônicos sem sofrerem, justamente, o vistoria da sátira)— sobre o que deve ou não ser reconhecido porquê conhecimento legítimo.
A sátira, já afirmava Kant, é o vistoria da razão. Para Foucault, ela é sinônimo de insubordinação, permanente insurgência. A sátira da sátira é necessária, mas se for feita com pensamento genuíno, sem a teoria errônea de que o conhecimento é neutro, positivista e as epistemologias imutáveis e estáticas.
Desqualificar a sátira em nome de uma suposta “honestidade” é nostalgia de um tempo em que poucos tinham o recta de falar e de produzir conhecimento. O que a universidade e a democracia precisam hoje não é menos sátira, e sim mais rigor, mais imaginação e mais compromisso com a vida coletiva. O pensamento crítico não pertence a uma tribo, ele é o esforço humano de olhar o mundo de frente e sob diferentes perspectivas —inclusive quando ele nos contradiz.
