'permanência Em Lugar Nenhum' Desafia A Era Da Aceleração

‘Permanência em Lugar Nenhum’ desafia a era da aceleração – 20/10/2024 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Os tempos estão mais para choques calculados em filmes de Ruben Östlund ou Yorgos Lanthimos, mas convém ajustar nosso ritmo para um outro tipo de cinema que a Mostra pode proporcionar.

“Permanência em Lugar Nenhum”, longa mais recente de Tsai Ming-Liang, nos convida, mais uma vez, a testar um outro tempo narrativo, ou não narrativo: o tempo da contemplação.

O longa é o décimo de uma série conhecida porquê “Walker”, iniciada em 2012, que acompanha o ator-fetiche do cineasta, Lee Kang-Sheng, caminhando muito lentamente —mas muito lentamente mesmo, só vendo para confiar— por lugares do mundo, com os pés descalços, a cabeça raspada e vestindo um véu vermelho.

Quem conhece o cinema de Tsai, sabe que o desvelo com a constituição dos quadros é uma manente. Logo, ver o monge atravessando esses quadros brilhantemente construídos é um espetáculo visual que compensa o sacrifício de desaceitar da perturbação dos tempos atuais.

Os primeiros filmes da série são todos curtas. A partir do sexto, “Jornada ao Oeste”, de 2014, Tsai procura uma maior duração. Ainda timidamente, 56 minutos, mas era um sinal.

O anterior, “Where”, de 2022, tem 91 minutos, sendo o maior de toda a série. Nascente mais recente tem 79 minutos: um invitação à contemplação semelhante ao de uma videoinstalação.

Se nos filmes anteriores da série vemos um experimento sobre o tempo e o espaço, mas também sobre a incidência de luz nesse espaço, em “Permanência em Lugar Nenhum” há uma curiosa mudança, ao menos no início: a constituição não parece tão burilada.

Talvez a classificação do filme porquê um documentário seja um despiste. Coerentemente, no início, vemos uma imagem mais casual, sem o rigor com que estamos habituados em seus trabalhos.

A câmera agora está frequentemente mais próxima do monge, alternando as imagens dele na natureza com as de outro ator, Anong Houngheuangsy, com quem Lee Kang-Sheng contracena em “Dias”, de 2020, e no já mencionado “Where”.

Porquê resultado dessa alternância, o tempo já não é mais tão expandido, tornando-se um pouco mais palatável. Ou menos insuportável, pensando nos mais apressados.

Em seguida 15 minutos, reconhecemos um dos cenários: o monge agora leva seu lento caminhar para Washington, capital dos Estados Unidos, na terreno do cinema de ação de ritmo aceleradíssimo, o invitação para a mergulho em um outro tempo. Interessante provocação.

A imagem distante do obelisco, com o monge atravessando o quadro num ponto intermediário entre a câmera e o monumento, só não é mais impactante porque Tsai corta antes que ele atravesse todo o caminho da esquerda para a direita.

Quando o monge chega no revérbero do obelisco no lençol de chuva por trás de seu corpo, muito no meio do quadro de simetria espantosa, acontece o namoro. Em outros momentos, o namoro também surge antes do que aprendemos a esperar por seus filmes anteriores. Tsai está menos radical. Ainda assim, é radical o bastante.

É incrível que mesmo no décimo filme da série sejamos atingidos pelo humor que se desprende dessa figura desafiadora. Vemos que as pessoas o observam entre a incredulidade e a curiosidade, e é esse contraste que pode nos levar ao riso.

Para Tsai, não importa muito se o público vai aderir ou não a essa experiência. Importa que os que aderirem fiquem com ele até o termo. Nesse sentido, o filme trafega por uma superfície limítrofe entre a sétima arte e outras artes visuais. Por isso vemos sempre espaços artísticos em seus filmes.

Seu cinema frequentemente se confunde com as instalações em vídeo que ele realiza pelo mundo. Um dos últimos filmes que realizou, “Wandering”, de 2021, mostra uma atriz que se desloca por vários espaços, todos exibindo trechos da série do andarilho. Em um dos espaços que entra, está o próprio Tsai Ming-Liang, observando as imagens criadas anteriormente.

No final dos anos 1990, prelúdios dos anos 2000, o cineasta era um dos mais celebrados no giro de festivais. Filmes porquê “Vive L’Amour”, 1994, “O Rio”, 1997, “O Buraco”, 1998, “Que Horas São Aí?”, 2001, e “Adeus Dragon Inn”, 2003, passavam com grande ostentação, encantando um grupo considerável de entusiastas.

Atualmente, Tsai não é mais tão badalado. Mas seus filmes proporcionam experiências muito superiores aos dos diretores que procuram incubar a qualquer dispêndio. Talvez por isso seu cinema seja ainda mais importante hoje.

Folha

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