Podcast narra como dor feminina é subestimada em cesáreas

Podcast narra como dor feminina é subestimada em cesáreas – 20/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A uma certa profundidade da segunda temporada de “The Retrievals”, a narradora Susan Burton se lembra de uma frase recorrente no mundo da medicina: “O que é medido importa”. Pode-se proferir que as duas temporadas da série documental dialogam com esta teoria.

Na primeira, a repórter do New York Times aborda as denúncias de mulheres que não teriam recebido anestesia de forma adequada ao realizarem coleta de óvulos. É daí que vem um primeiro sentido do nome: “retrieval” é o termo em inglês para coleta, mas também significa, em sentido grande, recuperação. Os casos aconteceram na clínica de fertilização da Universidade Yale em razão de uma enfermeira que roubava os anestésicos para consumo próprio.

Ao resgatar as histórias e traumas sofridos pelas mulheres que passaram por lá, Burton também retrata numa lente ampliada a dor e uma vez que ela é ignorada ou negligenciada. Ao fazê-lo, evita tornar a enfermeira uma vilã ou motivo única do que ocorreu em Yale; o que se traz à tona é, sobretudo, o problema de uma cultura médica que trata a dor uma vez que fenômeno secundário.

A motivação para uma novidade temporada surgiu das muitas mensagens recebidas pela jornalista de mulheres contando outras experiências de dor. Burton investiga agora a dor negligenciada em cesarianas e uma vez que ela perdura posteriormente o parto, afetando inclusive as relações de mulheres com parceiros e filhos.

“Escolhi esse tema por dois motivos: primeiro, acho uma loucura que mulheres sintam dores por cirurgias abdominais uma vez que essa; segundo, a dor em cesarianas é um problema que as pessoas estão buscando ativamente resolver”, diz a jornalista.

Se a primeira temporada mostrou a dor uma vez que um pouco que está fora do que se mede, a segunda questiona as próprias formas de medir a dor. O que essas medições são capazes de proferir? Quão adequadas são para conversar a experiência individual de quem sente? E que efeitos isso tem na relação entre médicos e pacientes?

São esses desafios que as personagens desta temporada lançam à medicina em suas trajetórias para produzirem mudanças. É o caso de Susanna, que, a partir do sofrimento vivenciado no parto de seu fruto, decidiu buscar histórias semelhantes.

Descobriu não só muitas outras, mas também que eram dores também ignoradas. Essa coleta serviria de base para a construção de um novo protocolo médico para julgar e mourejar com a dor de pacientes, que envolve desde uma mudança de linguagem da equipe médica até assumir novos pressupostos em cirurgias —uma vez que considerar, em primeiro lugar, que uma anestesia não funcionou.

Ao questionarem a objetividade médica, essas histórias também ressoam o vazio de novos jargões desta prática, uma vez que “notar à experiência do paciente” —orientação que deveria estimular uma atenção mais cuidadosa às particularidades, mas que, na prática, só produz formulários anódinos.

Uma vez que narradora, Burton enfrenta ela mesma o dilema que atravessa a série: uma vez que conversar a experiência da dor? Pode o outro ser poroso a ela? São recursos diversos que ela mobiliza para isso.

Uma escolha marcante se estabelece desde o prelúdios: Burton convida o ouvinte a perceber a série uma vez que se fosse um típico drama médico de ficção, descrevendo movimentos de câmera, cortes, pontos de vista ou sinalizando momentos de ênfase ou tensão.

A maneira uma vez que isso é narrado —com somente uma trama elegante de voz e trilha sonora— serve uma vez que memorandum da divertida máxima de que o “áudio é um meio muito visual”.

À primeira escuta, esse recurso metalinguístico soa uma vez que ironia sobre a recorrência desse tipo de programa, uma vez que se, ao recordar esse formato televisivo, a narradora sinalizasse ao público: isso não é uma ficção, mas eu sei que a dramatização é capaz de sensibilizar, e sei que de tanto que isso já foi feito talvez ninguém se sensibilize mais.

Mas, no passar dos episódios, esse ceticismo se dilui. Essas evocações ao gênero de drama médico são antes uma memorandum da força transformadora de disseminar histórias. “As personagens dessa temporada perceberam o poder que histórias têm de carregarem mensagens. Minha reportagem sugere que narrativas podem ser um agente de mudança na medicina tal uma vez que um trabalho de pesquisa”, diz Burton.

Num meio em que a performance de quem narra diz tanto do estilo de um resultado, resolver que voz assumir diante de um tema uma vez que esse é quebrável. Burton não se força a uma conversa com o ouvinte e, sem afetação, sustenta um tom ao mesmo tempo grave e sereno.

Ela conta de perto cenas viscerais de salas de cirurgia, descrevendo costelas sendo deslocadas numa paciente em que a anestesia não pegou —e as narra para que seja verosímil, ao menos, imaginá-las.

Essa alternância entre histórias particulares e um projecto mais grande é feita com tal habilidade que a série parece por vezes um experimento a muitas vozes sobre a dor e as formas de vivê-la.

“Fazer esta série uma vez que podcast é uma forma de dar relevo aos sentimentos daqueles que se elege uma vez que personagem”, diz Burton. Ela relembra a força do exposição sobre a dor feito por Susanna numa conferência diante de seus pares e da intensidade com que o público reagiu.

“Daria para transmitir isso no papel? Talvez, mas sem a mesma viveza. Uma vez que eu estava trabalhando com som, eu passei muito tempo naquela sala com essas vozes. ‘Passar mais tempo com vozes’: essa é talvez uma boa frase de efeito para proferir uma vez que um podcast difere de um texto.”

É, talvez também, uma tradução das expectativas das mulheres sobre quem esta série nos conta em relação aos seus médicos.

Folha

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