Ponte Preta teve 1º jogador negro do país, diz pesquisa

Ponte Preta teve 1º jogador negro do país, diz pesquisa – 19/11/2025 – Esporte

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O livro “O preto no futebol brasílico” (1947), clássico de Mário Fruto, irmão do dramaturgo Nelson Rodrigues, consagrou o jogador Francisco Carregal uma vez que o primeiro preto a participar de uma partida no Brasil, defendendo o Bangu contra o Fluminense, do Rio de Janeiro, em 14 de maio de 1905. Uma pesquisa do historiador José Moraes dos Santos Neto, realizada no Núcleo de Memória da Unicamp, pretende mudar o rumo da história: com base em documentos, principalmente da Câmara Municipal de Campinas, o pesquisador aponta que Miguel do Carmo foi o primeiro afrodescendente a pisar num campo no país, na portanto recém-fundada da Ponte Preta, em 1900.

Uma vez que Carregal, que era funcionário Companhia Progresso Industrial do Brasil —e tinha no futebol uma atividade paralela—, Miguel do Carmo era ferroviário: trabalhava na Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Era fruto de escravizados e nasceu livre, em 1885, beneficiado pela Lei do Ventre Livre. A lei, de 1871, concedia liberdade a partir daquela data aos filhos nascidos de escravizadas. “Quando tinha 15 anos, em 1900, Miguel participou de maneira amadora, coisa de menino mesmo, da instalação do primeiro time da Ponte Preta”, disse Santos Neto.

De convenção com a pesquisa do historiador, a primeira equipe da Ponte Preta nasceu dentro da Vila Operária da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, fundada em 1868 para vincular Jundiaí a Rio Evidente, diante da expansão cafeeira daquela região. “Em 1872 foi construída a vila operária da companhia, em Campinas, e é lá que se formou a equipe de futebol”, observou o historiador. “Importante ressaltar que em 1900, quando se constitui essa equipe de futebol, respirava-se no proletariado os ideais de paridade do anarquismo, trazido pelos imigrantes, por isso foi aceito um jogador preto, na contramão do que acontecia no resto do país, onde o esporte era altamente elitizado.”

Alguns clubes, na idade em que Miguel do Carmo despontou no futebol, tinham regras que chegavam a proibir explicitamente a presença de negros em seus quadros. Apesar do ineditismo, de colocar o primeiro afrodescendente em campo, a Ponte Preta demorou mais de um século para ter seu primeiro presidente preto. Foi somente em 2019, quando Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, assumiu o função depois a repúdio de José Armando Abdalla. Ele ficou na presidência até 2022.

A história e o próprio nome da Ponte Preta estão ligados ao bairro onde o clube foi fundado. De convenção com o jornalista e pesquisador Edu Cerioni, a ferrovia, com seus trilhos, isolou um bairro de Campinas, onde havia murado de 200 casinhas —uma delas habitada por Miguel do Carmo. Houve protestos dos moradores —em função do isolamento— e uma ponte foi instalada pela Companhia Paulista, sendo pintada com piche para maior conservação. “Foi ela que inspirou o nome do bairro para Ponte Preta e também batizou a novidade associação atlética que surgia”, explicou Cerioni.

Miguel jogou por pouco tempo nessa equipe da Ponte Preta, até 1904, de convenção com Santos Neto. Depois continuou curso de ferroviário, na Companhia Paulista, uma vez que fiscal de risca, até 1925. É da carteira funcional dessa empresa a única retrato que restou do desportista. Morreu em 1932, aos 47 anos.

Raquel do Carmo, neta de Miguel, que vive em Campinas, disse que até saber da pesquisa do historiador a família desconhecia o ineditismo da atuação do avô no futebol. “Nunca imaginamos que ele foi o primeiro preto, foi uma surpresa”, afirmou. “Pena que não temos nenhum registro dele, foi tudo extinto pelo tempo.”

Ela contou que seus avôs tiveram oito filhos, e a avó teve que criá-los sozinha depois da morte do marido. “A sobrevivência era dura e não havia tempo para cultivar a memória.”

Apesar da falta de registros, o interesse pelo futebol permaneceu na família e três bisnetos de Miguel tentaram curso profissional. Nenhum conseguiu seguir adiante, mas um deles, Lucas do Carmo, fruto de Raquel, profissionalizou-se uma vez que exegeta tático individual de atletas. “Trabalho a performance de jogadores que atuam no Brasil e no exterior”, contou Lucas. “A história do meu bisavô virou nossa principal legado e está no nosso sangue.”

Essa história ganhou destaque internacional por meio de uma missiva enviada, em 2003, pelo pesquisador Santos Neto à Fifa (Federação Internacional de Futebol), relatando sua invenção. Em resposta, o dirigente de relações públicas da entidade, Frederico Addiechi, afirmou: “Histórias uma vez que essa e esforços em prol da integração e contra qualquer forma de discriminação são um positivo legado para o futebol mundial e um exemplo que deveria ser imitado em todo mundo”.

Folha

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