Profissionais do setor editorial lembram trajetória e obras preferidas

Profissionais do setor editorial lembram trajetória e obras preferidas

Brasil

“Eu me orgulho muito de poder ver o meu nome nos créditos de livros que sejam realmente incríveis, saber que eu sou segmento de uma obra cuja leitura pode, eventualmente, ser a leitura da vida de alguém”.

Editor autônomo e publisher, Hugo Maciel de Roble formou-se em Recta e chegou a trabalhar em escritório de advocacia, mas ajustou a rota e abriu caminhos no mercado dos livros.

No contexto da expansão do setor editorial e livreiro no país nos últimos anos, com aumento do número de empresas, conforme apontou levantamento da Câmara Brasileira do Livro (CBL), profissionais entrevistados pela Dependência Brasil relataram porquê o setor possibilita que eles vejam propósito em seu trabalho. 

Desde que achou o novo rumo, Hugo assume que já perdeu a conta de quantos livros têm seu nome nos créditos.

“No término das contas, o que realmente importa é saber que, de qualquer jeito, eu ajudei a dar forma a ideias que circulam, são lidas, discutidas, questionadas ─ e continuam produzindo sentido no mundo.”

O livro pelo qual tem mais carinho é A Terreno Árida, do responsável T.S. Eliot, na tradução de Gilmar Leal Santos.

“É um dos meus poemas preferidos de todos os tempos. Oriente foi o primeiro livro que eu publiquei pelo meu selo, porquê publisher”, disse Hugo, acrescentando que preza por projetos que ajudem a pensar sobre o horizonte.

“A crise na Venezuela me lembrou de dois livros que merecem ser lidos juntos. Trabalhei porquê preparador de texto em ambos”, relembrou.

O primeiro deles ─ Autonorama, do Peter Norton ─ mostra que tipo de escolha política moldou o mundo para fabricar uma infraestrutura que corrói a vida social. O segundo ─ Estrada para Lugar Nenhum, do Paris Marx ─ amplia esse diagnóstico, ao explorar diversos mecanismos de concentração de poder, privatização das infraestruturas e controle social.

“Norton explica porquê chegamos até cá. Marx mostra a direção para a qual estamos sendo empurrados agora”, concluiu.

Ele destacou também um livro em que trabalhou e ainda não foi publicado: A Escada de Jacó, da escritora russa Liudmila Ulítskaia.

“É um romance monumental, construído a partir de cartas, diários e documentos, que acompanha várias gerações de uma família russa ao longo do Século 20, atravessando revolução, guerra, stalinismo, exílio e o término da União Soviética”, adiantou o editor.

“Oriente foi um dos projetos mais exigentes e intelectualmente estimulantes da minha trajetória, porque cada página cruza literatura, linguística, filosofia, música, ciência e história com uma densidade rara na ficção contemporânea”, explicou.

Tradição familiar

A leitura é porquê uma tradição na família, Hugo lê para o rebento desde seu promanação. Além dos livros em moradia, fazem visitas semanais a bibliotecas públicas.

“Ele agora já sabe ler sozinho, mas todas as noites eu e minha esposa lemos para ele, ou ao lado dele, e isso faz muito muito para nós três, para a nossa memória afetiva porquê leitores. Faz muito para o nosso horizonte”.

“Eu senhor livros. Aos 12 anos de idade, meu avô me deu o livro dele para eu comentar. Tudo começou aí. Um dia, ele chegou na minha moradia e foi direto até o meu quarto, fechou a porta e tirou um manuscrito de dentro de um envelope. Só me disse assim: ‘leia, quero a sua opinião, quando você estiver pronto, me avisa; mas é um sigilo, não conta para ninguém’”, revelou à reportagem.

Hugo sustentou o libido do avô, trabalharam no livro “em sigilo” até publicarem a primeira edição.

 


Editor autônomo e publisher Hugo Maciel de Carvalho e seu avô. Foto: Hugo Maciel de Carvalho/Arquivo pessoal
Editor autônomo e publisher Hugo Maciel de Carvalho e seu avô. Foto: Hugo Maciel de Carvalho/Arquivo pessoal

Editor autônomo e publisher Hugo Maciel de Roble e seu avô. Foto: Hugo Maciel de Roble/Registo pessoal

“Depois disso, a gente continuou trabalhando juntos nos livros dele, quatro no totalidade. Quando ele faleceu, a gente ainda estava trabalhando nos livros. Um dia ainda vou publicar suas ‘Obras completas’.”

O editor revela que o ritmo de trabalho é intenso e exige muito foco, com muitas páginas por dia.

“Não é alguma coisa que você lê e pronto, porquê um livro que você deita na rede para ler num sábado à tarde; precisa ler, reler, voltar pro início para ver se tem alguma incoerência, discutir com o responsável ou com a editora, ler mais uma vez para ver se ficou bom. Eu trabalho muito de madrugada, por conta do silêncio.”

“Paga muito pouco. As pessoas acham que ser revisor de textos é um ‘ponta’ interessante. Mas dá muito trabalho, se você sabe o que está fazendo. E nem sempre tem demanda. Portanto, tem horas que você precisa inventar trabalho ou vai rematar é revisando os boletos atrasados que vão se acumulando”, relatou Hugo, com bom humor.

Uma editora independente

Para Florencia Ferrari, sócia da Ubu, as editoras independentes, em universal, são resultado de um libido dos editores que querem publicar obras que gostam e que admiram.

“Eu não fujo à regra”, disse.

Ela conta que vê a Ubu porquê uma plataforma de projetos, onde há a oportunidade de geração e tirocínio, inclusive junto aos designers, artistas e autores.

O sentido deste trabalho, para ela, vai além de gerar renda: “é um lugar de realização e uma forma de estar no mundo”.

Ela ressalta ainda a influência de boas relações de trabalho nesse contexto. “Eu já vivi ambientes de trabalho tóxicos, competitivos, de vigilância, de controle. E eu paladar de pensar que a gente criou na Ubu um envolvente que se caracteriza por troca, tirocínio, colaboração, espeque, desvelo e pela liderança das pessoas que conhecem suas áreas.”

Além de um envolvente de trabalho saudável, da produção de conhecimento e divulgação de ideias, Florencia ressalta que o posicionamento ético e político integra o modo de atuação da editora.

“Eu acho que isso também é particularidade de algumas editoras independentes: eu vejo a Ubu porquê um lugar de posicionamento e de pensamento, inclusive de atitude sátira, no sentido do Foucault, de atitude política, de se colocar. Não fazendo disso uma militância, mas sim uma moral política”, explicou.

Mais de 500 livros

Atualmente professor da Universidade Federalista do Rio Grande (FURG), mas sem deixar a profissão de tradutor, Adail Sobral já traduziu mais de 500 livros. Foi também membro do corpo de jurados do Prêmio Jabuti nos anos de 2004, 2007, 2008 e 2018.


Brasília (DF), 09/01/2026 - Setor editorial. Adail Sobral. Foto: Adail Sobral/Arquivo Pessoal
Brasília (DF), 09/01/2026 - Setor editorial. Adail Sobral. Foto: Adail Sobral/Arquivo Pessoal

Professor da Universidade Federalista do Rio Grande e tradutor Adail Sobral. Foto: Adail Sobral/Registo Pessoal

“Eu comecei por contingência, mas aí eu me apaixonei pela tradução. E não parei.”

A tradução do primeiro livro ─ Atos de fala, de John Searle ─ aconteceu enquanto era aluno de pós-graduação, em 1981, quando a tradução fazia segmento das atividades acadêmicas.

“Eles convocaram todo mundo para inaugurar a trasladar. Era a universidade que traduzia e fazia segmento de nossas atividades. A gente traduzia de perdão. Ali, não era profissional ainda”, contou Adail.

De 1985 até 1999, ele se dedicou totalmente à profissão, em grande segmento junto à sua esposa na quadra, Maria Stela Gonçalves (1954-2015).

“Em uma quadra, eu traduzi bastante coisa de informática. Era o que me sustentava. Depois, comecei a trasladar da espaço de ciências humanas, e aí teve um monte de coisas”, lembrou Adail, citando autores porquê Jean Baudrillard, Jonathan Barnes, David Harvey e Félix Guattari, além de títulos religiosos. Depois, o tradutor se especializou na espaço de medicina. “É o que dava numerário”, revela.

Uma das obras que mais gostou de trabalhar foi Herói de Milénio Faces, de Joseph Campbell.

“Ele escreve sobre mitologia de uma maneira que é literária e também é técnica. Portanto é um livro bonito, que esteticamente agrada, não só o teor mas a forma, a maneira porquê ele é organizado. E essa tradução tinha uma particularidade. Não deu tempo de ser editada, não teve revisão. A revisão foi minha mesmo, eu mesmo traduzi, eu mesmo revisei”, lembrou.

“Eu gostei também de trasladar, junto com Maria Stela, o Jean Baudrillard: A troca simbólica e a morte, que saiu em 1996. Esse livro tem também uma particularidade, o primeiro capítulo dele é uma transcrição de fala. Nós conseguimos reproduzir por escrito a fala, ficou muito bonito”, contou.

O parelha traduziu ainda as obras completas de Santa Teresa de Jesus, que é outro dos trabalhos que mais lhe trouxe satisfação, apesar de exigir intensa dedicação.

“Era um original do Século 16, e a tradução teve que ser adaptada para o tempo moderno. Eram 2 milénio páginas. Passamos um ano traduzindo,180 [páginas] por mês, mais ou menos”, lembrou.

“Esses três [trabalhos] eu adoro. Esses livros eu adoro de toda maneira. E o da Santa Teresa, imagina, levamos um ano convivendo com uma obra”, disse com exaltação.

Valorização profissional

Adail menciona o cansaço causado pelo ofício e suas longas jornadas de trabalho, ainda que tenha se encontrado na profissão.

“Eu fiquei traduzindo 15 anos fora da universidade. Depois, eu resolvi voltar porque eu estava cansado de só trasladar. Uma quadra, eu traduzia 14 horas por dia, tinha dois ou três clientes [ao mesmo tempo]”, lembrou.

Em relação ao padrão de contratação no setor editorial e livreiro naquela quadra, ele avalia que era uma relação quase paternalista.

“De claro modo, a gente não era considerado um profissional. A remuneração não era boa, você tinha que trasladar bastante para conseguir sobreviver. Hoje eu acho que está um pouco melhor, mas nem tanto também.”

Adail menciona que os empregadores justificavam um salário menor por conta do pagamento ao Instituto Pátrio do Seguro Social (INSS). Atualmente, os tradutores prestam serviços porquê pessoa jurídica, mas ainda há desvalorização profissional.

“As grandes editoras [no país] determinam qual é o preço que elas vão remunerar para a tradução. As menores negociam um pouco, mas justamente elas não têm poder de pagamento”, comentou sobre as dificuldades da profissão no país.

Segundo ele, os profissionais alcançam melhor remuneração em traduções de áreas técnicas ─ que exigem precisão terminológica ─ e na prestação de serviços para clientes estrangeiros.

Fonte EBC

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