Público decide narrativa em espetáculo do MixBrasil 12/11/2025

Público decide narrativa em espetáculo do MixBrasil – 12/11/2025 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

A introdução do 33º Festival MixBrasil acontece nesta quarta-feira com o espetáculo “Cá, Agora, Todo Mundo”, no Cinesesc. A peça, primeiro solo teatral do ator Felipe Barros, é livremente inspirada no livro de Alexandre Mortágua e mergulha na mente fragmentada de um varão gay que tenta reorganizar sua história posteriormente um limite extremo. A obra se destaca por uma premissa ousada: a narrativa se transforma a cada sessão, conforme o público interfere e escolhe a ordem das cenas.

A apresentação faz segmento da Mostra Dramáticas e concorre ao Coelho de Prata, prêmio devotado ao melhor espetáculo. Para Felipe Barros, que também assina a dramaturgia e a produção, a indicação tem um sabor privativo. “Qualquer artista que disser que não gosta de receber ou ser indicado a um prêmio está mentindo. O nosso ego agradece e muito. Ainda mais para artistas independentes”, brinca. “Mas um prêmio é sempre fruto de um olhar sengo, carinhoso e incentivador. É alguém dizendo: ‘continua, isso que você está fazendo importa’.”

A estrutura não linear, onde a plateia decide o rumo da história, pode parecer um repto seivoso para um ator sozinho em cena. Felipe, no entanto, enxerga a interação não uma vez que uma pressão, mas uma vez que a núcleo da obra. “O público sempre foi segmento principal da narrativa. Não é um repto extrínseco; é o motor dramatúrgico da peça”, explica. “Estou mergulhado nas memórias quebradas desse personagem há mais de um ano. Quando a plateia reorganiza as cenas, ela só me oferece novas portas por onde esse personagem pode entrar. Eu trabalho com escuta, presença e disponibilidade.”

A concepção dessa narrativa maleável partiu do diretor Heitor Garcia. Ele conta que, durante os ensaios, a dupla buscou entender o que, além de fatores químicos e genéticos, poderia despertar a depressão no personagem. “Entendemos que a influência externa na vida desse jovem contribuiu significativamente para o seu diagnóstico. Por essa razão, transformei o público no mundo extrínseco, fazendo uma semelhança à sociedade”, revela Heitor. A plateia ficará disposta ao volta do ator, uma vez que em uma sala de júri, ditando o fluxo das memórias.

Essa escolha artística não é exclusivamente estrutural, mas também conceitual. “A história contada em ordem aleatória reafirma a maneira uma vez que a depressão atua na inconstância, na improbabilidade de um novo dia, em que você pode estipular muito hoje e muito deprimido amanhã. A flexibilidade da narrativa espelha a imprevisibilidade de uma mente depressiva”, analisa o diretor.

Para costurar essa submersão caótica, a trilha sonora, assinada por Jaloo, tem papel fundamental. Heitor Garcia destaca que a música é um dos elementos narrativos. “A Jaloo possui um pensamento muito magníloquo sobre saúde mental, e isso está profundamente ilustrado em sua obra”, diz. O processo de curadoria e escorço de som foi realizado pela DJ Aghata, que selecionou trechos da obra de Jaloo para produzir um gavinha sensível com cada emoção do personagem.

Para o responsável do livro que deu origem à peça, Alexandre Mortágua, a adaptação para o teatro potencializou uma questão médio de sua obra: a qualidade dos laços humanos. “Numa cidade tão grande, ‘Cá, agora, todo mundo’ fala muito sobre a qualidade do que te liga aos outros”, reflete. Ele vê na linguagem teatral experimental uma capacidade única de remeter a universalidade de sua história. “Foi bonito observar isso suceder. É a sensação de universalidade da história. Não é um pouco que um texto no papel dá conta.”

Levar essa discussão para um palco do MixBrasil, para Felipe Barros, é um ato que transcende o artístico. “É muito mais do que simbolizar a obra. É simbolizar uma comunidade que tantas vezes sofre calada. Para mim, é político, é afetivo, é profundamente pessoal.” E, com o humor que também marca o espetáculo, Felipe finaliza: “e, olha… todos os espetáculos merecem reconhecimento, mas o Coelho de Prata combinaria demais na minha prateleira novidade. Seria uma decoração muito conceitual”.

Cinesesc – rua Augusta, 2.075, Cerqueira César, região oeste. Brecha do Festival MixBrasil, com um teaser da peça, 12/11 (qua). Brecha da vivenda: 19h. Classificação: 14 anos

Teatro Sérgio Cardoso – rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, região médio. 14/11 (sex), 19h. Ingressos: gratuitos, retirados com 1h de antecedência.


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Folha

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