O ator parece estar sozinho em cena. Recostado contra uma parede, ele tem o ar de quem reflete profundamente. O cenho franzido sugere sofrimento. Na voz, angústia. As palavras saem lentamente, num murmúrio. “Ser ou não ser: eis a questão.”
É mal o escocês David Tennant inicia, em versão para a TV filmada pela BBC em 2009, a primeira cena do terceiro ato da peça “Hamlet”, de William Shakespeare.
Fica difícil evitar os superlativos. Esta é a frase mais conhecida da mais famosa obra de William Shakespeare. Ele, por sua vez, o responsável de teatro mais comemorado da literatura ocidental.
Mas qual é a história por trás dessa frase?
E o que faz de “Hamlet” uma peça tão badalada? Do que ela trata? Por que tantos atores famosos querem fazer o papel de Hamlet e qual é a relevância dessa peça nos dias de hoje?
A BBC News Brasil tentou responder a essas perguntas com a ajuda de especialistas em Shakespeare e da diretora de tradução teatral da prestigiosa Royal Academy of Dramatic Arts (RADA), Sinéad Rushe.
Trazemos ainda um prova de registo em que Tennant fala porquê foi, para ele, interpretar Hamlet, e do poder “quase transcendental” dos textos de Shakespeare.
Comecemos por alguns fatos básicos sobre a peça e um resumo da trama.
O inglês William Shakespeare, nascido por volta de 1564, morto em 1616, escreveu “A Tragédia de Hamlet“ (nome completo da obra) por volta de 1599. Nesse período, ele já era um rabino na arte da dramaturgia, e “Hamlet” fez sucesso imediatamente.
A mais longa peça do dramaturgo, restam dela várias versões. As mais completas ultrapassam quatro horas de duração.
“Hamlet” nos deu, além de “Ser ou não ser”, várias outras frases memoráveis, porquê “Há um tanto de podre no Reino da Dinamarca” e “Há mais coisas no firmamento e na terreno, Horácio, do que as sonhadas por sua filosofia”.
A história, em linhas gerais, é a seguinte:
O fantasma do rei da Dinamarca pede a seu fruto, o príncipe Hamlet, que vingue sua morte. Ele diz ao fruto que quem o matou foi seu próprio irmão, tio de Hamlet e atual rei, Claudius, agora casado com a mãe de Hamlet, Gertrude. À orla da insanidade – ou fingindo estar à orla da insanidade – Hamlet reflete sobre a vida e a morte, e planeja matar seu tio.
Temendo por sua vida, Claudius também faz planos para matar o sobrinho. A peça culmina em um duelo ao final do qual Claudius, Gertrude, o oponente de Hamlet e o próprio Hamlet estão mortos. A família real está morta. Entra em cena Fortinbras, o príncipe da Noruega, que agora assumirá o trono e tomará o poder na Dinamarca.
O resumo supra não deixa dúvidas: “Hamlet” é (entre outras coisas) uma peça sobre vingança. Um tema muito popular no teatro na era em que ela foi escrita. Só que Shakespeare fez dissemelhante.
“Dramaticamente, vingança é um grande tema porque contém ação e reação, e isso dá uma estrutura para a peça”, comentou o professor Jonathan Bate, da Oxford University, falando à Rádio 4 da BBC em 2017.
Ou seja, assim porquê nos filmes de ação hoje, as peças de vingança na Inglaterra de Shakespeare eram espetáculos movimentados, onde muita coisa acontecia.
“Mas o que é tão inovador nessa peça é que, enquanto versões anteriores de peças de vingança tinham porquê foco as ações do vingador, Hamlet para e pensa”, prossegue Bate.
“Logo, a peça tinha mais solilóquios, mais momentos de reflexão interno do que qualquer outra peça que tinha vindo antes.”
Solilóquio é um recurso dramático em que o personagem fala consigo próprio.
Em “Hamlet”, o efeito desse recurso é que o príncipe da Dinamarca não revela a ninguém na galanteio seus pensamentos, mas desnuda sua psique para toda a plateia.
Ao longo de quatro séculos, grandes atores, homens e mulheres (sim, mulheres também), vêm aproveitando as incríveis falas que Shakespeare colocou na boca de Hamlet para exibir seus talentos dramáticos.
No século 20, Laurence Olivier, Ian McKellen, Ralph Fiennes, Keanu Reeves e Kenneth Branagh foram alguns.
Já neste século, Benedict Cumberbatch, por exemplo. No Brasil, Wagner Moura e Thiago Lacerda aceitaram o repto.
Em 2008, a invitação da prestigiosa companhia de teatro britânica Royal Shakespeare Company, David Tennant ofereceu sua versão do príncipe dinamarquês. Em 2023, ele relembrou a experiência em entrevista à BBC.
“[Hamlet] é um desses papeis que, quando você estuda teatro, você fantasia um dia interpretar”, conta Tennant.
Talvez por isso, receber o invitação o deixou apavorado, mas ele não podia recusar, confessa.
“Você tem consciência da linhagem de atores amados que vieram antes de você e, simples, é maravilhoso segurar aquela tocha por um tempo. Para um ator, é quase porquê um evento olímpico. Definitivamente é o melhor papel do cânone.”
Tennant prossegue: “Uma vez que ator, você recebe essas palavras que são um pouco mágicas e no início um pouco difíceis porque elas têm 400 anos de idade. Elas precisam porquê que ser decodificadas e não se encaixam imediatamente na sua boca. É preciso traduzi-las, dá um pouco de trabalho. Do ponto de vista da plateia, isso também acontece”.
“Mas tem alguma coisa nessas palavras que, quando você entra nelas, quando você assume o controle delas (…), quando você sente, por um segundo, que está dirigindo as palavras e não elas dirigindo você… existe um tanto quase transcendental nelas.”
Entre essas palavras mágicas estão aquelas que dão título a essa reportagem.
‘Ser ou não ser: eis a questão’
A sátira de teatro e tradutora brasileira Bárbara Heliodora, morta em 2015, é autora da tradução de “Hamlet” mais usada no Brasil.
Heliodora optou por uma versão mais coloquial da célebre frase: “Ser ou não ser, essa é que é a questão”, ela propôs.
As linhas seguintes ficaram assim:
“Será mais superior suportar na mente
As flechadas da trágica riqueza,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer?”
Segundo o verbete “Ser ou não ser” da Enciclopédia Britannica, o solilóquio expressa a preocupação de Hamlet com uma importante questão moral. É correto que Hamlet vingue a morte de seu pai matando o suspeito pelo assassínio, Claudius? O solilóquio, diz o verbete, também trata da preocupação de Hamlet com os conceitos vida, “ser” e morte, “não ser”.
Quanto ao significado do solilóquio, a enciclopédia cita duas linhas de tradução. De concórdia com a primeira, Hamlet estaria expressando o temor de que, ao matar seu tio Claudius, estaria cometendo um gravíssimo vício. Uma vez que resultado, sua psique seria condenada à danação eterna.
A segunda tradução seria que Hamlet estaria considerando cometer suicídio.
Ambas as interpretações têm fortes defensores e detratores, prossegue o verbete na Enciclopédia Britannica. E as várias nuances no significado do solilóquio refletem a complicação psicológica na construção do personagem.
Uma vez que é, para um diretor, guiar essa cena?
Foi o que a BBC News Brasil perguntou à irlandesa Sinéad Rushe, que conversa com a reportagem ao final de um dia de ensaios com sua própria companhia de teatro para uma montagem experimental de “Hamlet” em parceria com a RADA.
Em sua resposta, às vezes encarnando o personagem e em outras falando de Hamlet na terceira pessoa, a diretora vai apresentando uma provável tradução do solilóquio.
Rushe diz que, primeiro, é preciso entender a situação em que o personagem se encontra. Ele está sozinho, perdeu o pai, o tio casou com a mãe, a mãe não dá mais atenção a ele. Hamlet também vê uma Dinamarca corrupta, incapaz sequer de seguir o período adequado de luto em saudação ao seu pai morto.
Rushe descreve o mundo pela ótica de Hamlet. Sem cor, sem vida, pleno de desesperança, corrupto, mau-cheiroso.
“Hamlet está perguntando a si mesmo, vale a pena viver nesse mundo?”
“Meu sofrimento é tão grande, estou pensando em me retirar desse mundo.”
Mentalmente, o ator se coloca nesse clima. E o solilóquio é formado de uma série de perguntas, ela explica.
“É melhor permanecer vivo ou dar termo à minha vida?
É mais superior enfrentar o que a vida coloca no meu caminho ou dar um termo a mim mesmo?”
“Hamlet se imagina morto, reflete que talvez a morte traga imenso consolação. Talvez ele possa dormir, resfolgar, sonhar… mas e se ele tiver sonhos ruins? Ele se lembra do que o espírito de seu pai lhe disse, que estava recluso no purgatório.”
“Se eu me matar, talvez vá para o purgatório, talvez eu sofra terrivelmente.”
Logo, Hamlet sente pavor, diz Rushe.
“O pavor do que está além é tão grande, é por isso que nós não nos matamos, o pavor impede que eu tire minha própria vida e impede que eu faça qualquer coisa. Logo, não faço zero.”
Rushe diz que, para ela, o solilóquio é interessante por ser uma espécie de epístola suicida encenada pelo ator.
“Uma epístola que depois é rasgada”, diz a diretora.
Um príncipe sedento por poder ou à orla da loucura?
Quando se trata de encenar Shakespeare, no entanto, decisões do diretor e da produção podem transformar profundamente o sentido dessa cena – e simples, da peça inteira. É o que diz à BBC News Brasil a profissional em Shakespeare Sheila Cavanagh, professora da Emory University em Atlanta, Georgia, Estados Unidos.
“Uma das grandes questões em “Hamlet” é se suas faculdades mentais estão mesmo alteradas ou se seria tudo segmento de uma estratégia dele.”
Em produções estreladas por grandes nomes, no entanto, é muito mais geral que Hamlet seja representado porquê uma figura reservada, enigmática, que não está louca, somente finge estar, ela explica.
“Porque quando você tem esses grandes atores, eles querem parecer estar em controle. Agora, essa é somente uma tradução da peça. Outra tradução seria a de que Hamlet está realmente perturbado mentalmente. Tudo isso é disposto de lado por razões que podem não ter relação com a peça em si.”
A possibilidade de que a saúde mental de Hamlet esteja afetada talvez dê peso aos argumentos dos que defendem possuir conotações suicidas por trás das palavras “Ser ou não ser: eis a questão”.
Mas deixemos o solilóquio de lado para explorar outros grandes temas presentes nessa obra e a relevância de “Hamlet” hoje.
Uma decisão da direção que também altera radicalmente o sentido da peça, prossegue Cavanagh, tem a ver com a inclusão ou não do personagem Fortinbras, das quais pai, rei da Noruega, foi morto pelo pai de Hamlet durante uma guerra.
Na versão completa da peça, Fortinbras está a caminho da Dinamarca para vingar a morte de seu pai e restabelecer território tomado pela Dinamarca no pretérito. Nessa versão, Fortinbras chega com seu tropa, encontra a família real morta e toma o poder.
“Quando Fortinbras é separado, (a peça) vira uma tragédia doméstica”, diz Cavanagh.
Mas isso elimina da história uma dinâmica fundamental, ela explica. O que acontece com a família real tem sérias consequências para o povo dinamarquês.
“Acho que isso é um tanto muito importante nessa peça, esse vai e vem entre indivíduos, seus desejos, seu egoísmo, e a forma porquê isso afeta todos (na sociedade).”
Apelo
Sinéad Rushe diz que Fortinbras não foi separado de sua versão de “Hamlet”. E que na sua leitura da peça existem duas guerras em Hamlet. A externa, entre Dinamarca e Noruega, e a interna, entre Hamlet e Claudius.
“Nas interpretações modernas de “Hamlet” há uma ênfase no seu luto, na perda de seu pai e no seu relacionamento freudiano, edipiano, (com a mãe).”
Rushe lembra, no entanto, que Claudius usurpou o trono quando, na verdade, Hamlet seria o herdeiro legítimo.
“E a procura fundamental de Hamlet, seu libido, é tomar de volta o que é seu”, ela argumenta.
“Não importa se ele está pronto ou se alguém mais acha que ele seria um bom rei. Ele nasceu para ser rei.”
Na opinião de Rushe, temas porquê esses, invasões, conquistas, território, poder, e a noção de que “o mais potente vencerá” tornam “Hamlet” uma história atual.
“Para mim, tudo isso reverbera agora, politicamente, em termos de Rússia, Israel e Trump nos Estados Unidos”, diz. “Nessa teoria de que quem tem o poder está com a razão.”
Uma vez que é provável para um jovem ator hoje se identificar com a figura de Hamlet?, pergunta a reportagem. A resposta de Rushe pode valer também para plateias de todas as idades.
“Acho interessante pensar em Hamlet porquê alguém jovem e vulnerável, se conectando com um porvir que ele achava que ia ser de um jeito, mas não será.”
Ele se sente perdido, em conflito, não sabe o que fazer consigo próprio, se sente inútil, diz Rushe.
A diretora fala de um outro tema recorrente na peça: o monitoramento. Personagens sempre vigiam uns aos outros.
“A depravação na Dinamarca, a vigilância, a espionagem… todo mundo está sendo observado e controlado. Isso faz com que Hamlet se sinta prisioneiro, ele não pode desistir sua vida e escolher um caminho dissemelhante.”
Essas são questões com as quais jovens podem se identificar, diz.
“Uma vez que é sentir que você não tem nenhuma autonomia? Uma vez que é sentir que você foi extinto, que você não conta nesse mundo? Não sei porquê me encaixar, não sei qual é o meu papel.”
“(Hamlet) pode ser um príncipe, mas isso não torna sua situação menos difícil existencialmente.”
Relevante e atual, a história do perseguido príncipe dinamarquês continua a ser sucesso de bilheteria mundo afora.
No segundo semestre de 2025, só em Londres houve pelo menos duas montagens da peça. Uma no National Theatre. E a dirigida por Rushe, apresentada no teatro George Bernard Shaw, na Royal Academy of Dramatic Arts.
Eu pergunto a ela por que alguém deveria transpor de vivenda para presenciar “Hamlet” no teatro.
Rushe ri com paladar, talvez porque, para ela, a pergunta pareça quase uma provocação. E tenta explicar qual é, de verdade, o grande barato de Shakespeare.
“Muito, quando Shakespeare é muito feito, e o verso é entendido e realmente incorporado (pelo ator), ele soa tão simples, tão fala de gente, é difícil de crer”, diz Sinéad Rushe. “Ele soa rico, pleno de nuances, engraçado, inteligente e incrivelmente contemporâneo.”
“É porquê povo falando.”
Ela acrescenta:
“Aliás, tem tantas frases e imagens dessa peça na consciência coletiva, é maravilhoso ouvi-las no seu contexto.”
“Nosso repto”, conclui a diretora, “é fazer com que elas soem frescas, porquê se nunca tivessem sido ouvidas antes.”
Nascente texto está disponível originalmente cá.
