O preparo físico tem sido um fator determinante na Despensa do Mundo de Clubes, disputada no verão dos Estados Unidos, com segmento dos jogos iniciada ao meio-dia e com termômetros frequentemente supra da moradia dos 30°C. A questão vem sendo associada à dificuldade encontrada por alguns dos principais times europeus na competição, com derrotas consideradas surpreendentes.
É inegável que os atletas das equipes da Europa estejam habituados a atuar em temperaturas mais amenas. Também não se pode contraditar o trajo de que eles venham de uma temporada completa e disputem o Mundial em um momento do ano no qual geralmente estão de férias. O que não se pode proferir é que estejam desgastados porque jogaram mais do que os brasileiros.
Levantamento feito pela Folha a partir de dados do site Transfermarkt mostra que são muito similares os números de partidas na confrontação entre as potências europeias e aqueles que vêm lhe causando mais problemas, os clubes do Brasil. Isso vale no recorte de 2025 e também no que engloba toda a temporada do futebol na Europa –que se inicia em agosto e geralmente é encerrada em maio, com folga em junho e julho.
Paris Saint-Germain e Real Madrid chegaram à Despensa do Mundo com 38 partidas disputadas por cada um neste ano, mesmo número de Palmeiras e Fluminense. Logo detrás aparecem mais um representante do Velho Continente, a vice-campeã continental Inter de Milão, e o Flamengo, com 37. O Botafogo entrou em campo 36 vezes antes do embarque aos Estados Unidos.
Mesmo se incluídos na conta os duelos da primeira metade da temporada 2024/25 do futebol europeu, o cômputo não indica uma diferença no desgaste que justifique algumas das zebras em território norte-americano. O PSG jogou 58 vezes de 1º de agosto até o início do Mundial, contra 60 do Botafogo, que o derrotou. A Inter fez 59 partidas, contra 61 do Fluminense, seu carrasco.
Já o Flamengo, derrubado nas oitavas por uma marcação sufocante, teve de enfrentar um opositor de menor milhagem. O Bayern chegou ao Mundial com exclusivamente 51 jogos na temporada 2024/25, fruto de eliminações relativamente precoces na Liga dos Campeões e na Despensa da Alemanha e de uma liga pátrio menor, com 18 clubes. No mesmo período, o time rubro-negro jogou 65 vezes.
Esses números, simples, não contam toda a história, e o cansaço não é medido exclusivamente pelo número de partidas. Os jogadores dos clubes do Brasil entraram em férias ao termo da última rodada do Campeonato Brasiliano, em 8 de dezembro, e se reapresentaram um mês depois. O Manchester City, por exemplo, atuou no Campeonato Inglês nos dias 29 de dezembro e 4 de janeiro.
Até mesmo atletas de equipes europeias que não estão na Despensa do Mundo de Clubes reclamaram de sua realização no período de 14 de junho a 13 de julho. A queixa aponta o desgaste aglomerado da temporada 2024/25 e o que promete ser uma longa temporada 2025/26, a ser finalizada na Despensa do Mundo, a de seleções, também no verão da América do Setentrião.
“Penetrar mão das férias para jogar um tanto obrigado é muito ruim”, afirmou o atacante Raphinha, do Barcelona, que não se classificou para o Mundial. “O Marquinhos e o Beraldo, por exemplo, jogaram a final da Champions pelo PSG, depois se apresentaram à seleção brasileira e agora estão nesse torneio. Não pararam. Muitos dizem que é desculpa, mas terebrar mão de férias é complicado.”
“O desgaste também é mental”, disse à Folha o preparador físico Altair Ramos. “A temporada europeia estaria terminando. Ou teria terminado, no caso, né? A nossa está no meio. São jogos duros, de intensidade muito grande. E o que também influencia o desgaste são os fatores ambientais. Eles estão jogando em uma temperatura muito subida”, acrescentou.
Hoje coordenador de performance das categorias de base do São Paulo, Altair estava na percentagem técnica tricolor do bicampeonato mundial de 1992 e 1993, comandada por Telê Santana. À idade facilitar do preparador Moraci Sant’Anna, trabalhou para que os atletas estivessem na melhor quesito para enfrentar o Barcelona, em 13 de dezembro, e o Milan, em 12 de dezembro.
“Era o contrário. Foi em final de temporada para a gente, eles estavam no meio. Mas, felizmente, o time se comportou muito, os jogadores entenderam o espírito”, afirmou, mostrando seu orgulho e lembrando que os torneios intercontinentais, em seus diferentes formatos, eram tradicionalmente disputados no termo do ano.
Na novidade Despensa do Mundo de Clubes, é dissemelhante. São os times europeus que chegam ao campeonato em termo de temporada. Mas eles não podem proferir que chegam com mais partidas na bagagem, porque o argumento não se sustenta.
