Remakes de filmes de outros países são comuns nos Estados Unidos, mas o inverso é um tanto incomum. Por isso, entre outros fatores, pareceu a Gabriela Amaral Almeida um movimento original o de assumir a direção de “Quarto do Pânico”, versão brasileira do thriller de invasão doméstica dirigido por David Fincher e lançado em 2002. Terceiro longa-metragem na trajetória da cineasta nascida em Feira de Santana, na Bahia, o filme entrou exclusivamente no streaming da Globoplay nesta sexta-feira (13).
Apesar de um trabalho de encomenda, dissemelhante de seus filmes anteriores, Amaral Almeida achou material ideal a seus interesses. Fazendo de “Quarto do Pânico” uma reelaboração mais do que uma refilmagem, ela escolheu não rever o filme de Fincher e se fixar no roteiro de David Koepp, ajustado por Fábio Mendes.
“Tinha duas instâncias separadas, a escrita fílmica e a escrita com a câmera. Eu não quis reviver a gramática fílmica de um cineasta usando minha sensibilidade, porquê fez, por exemplo, Gus Vant Sant no ‘Psicose’ de 1998. Me interessava acessar o texto e ver o que as condições de produção me propiciavam fazer”, diz ela.
Amaral Almeida trabalhou diretamente com Fábio Mendes a partir da adaptação que ele fez, tendo por base tanto o filme de Fincher quanto três versões do roteiro original de David Koepp enviadas pela Sony. Fábio fez alterações importantes, em privativo no mecha dramático da personagem, antes vivida por Jodie Foster e agora por Isis Valverde.
“A primeira coisa que eu quis mudar foi a premissa. No original, a mulher se separa do marido porque ele namora uma padrão. Com o quantia dele, ela vai alugar uma lar que, por eventualidade, tem um quarto do pânico. Na nossa versão, depois de um incidente infalível num assalto, a personagem decide mudar para uma lar justamente por conta do cômodo, e ela deseja cuidar de si e da filha”, afirma o roteirista.
O suspense de Fincher encanta Amaral Almeida pelo caráter simbolicamente feminino da premissa, que ela reconfigurou na versão brasileira. “O ‘Quarto do Pânico’, é um dos poucos filmes de Fincher em que a personagem meão é uma mulher. As questões do longa giram em torno disso e dela presa numa lar com homens que invadem e ameaçam romper o controle que ela acredita ter sobre a própria vida dela e da filha.”
Por isso a câmera de Amaral Almeida, na retrato de Fabrício Tadeu, transita pela arquitetura sinuosa e redonda da lar, porquê a invadir espaços íntimos. Isis Valverde, no papel meão, conta ter absorvido as relações de um corpo de mulher com as tensões do mundo. “A lar era o feminino e o quarto era um útero, onde a mãe gerava, de novo, uma relação com seu bebê, que é a filha juvenil”, afirma a atriz. “Porquê podemos nos sentir capazes quando o limite do cuidar se apresenta e não conseguimos proteger os que amamos?”
Situações tensas entre adultos e crianças é uma praxe nos filmes de Amaral Almeida. A maternidade, as exigências sociais de ser mulher e as aflições e angústias femininas aparecem na grande maioria de seus trabalhos, via chaves do suspense e do horror. Muito do insólito invadindo o tecido convencional da verdade ela herdou de leituras e estudos da literatura de Stephen King, sobre quem se debruçou em trabalhos acadêmicos antes de ir estudar roteiro em Cuba, em 2005.
Aos 45 anos, a cineasta é referência entre realizadores de terror no Brasil. Causou frisson em seu longa de estreia, “O Bicho Cordial”, em 2017, e deixou muitos na expectativa de um novo filme posteriormente o hiato de oito anos desde “A Sombra do Pai”, de 2018. A morosidade se deveu aos impactos da pandemia e ao desmonte cultural no governo de Jair Bolsonaro, o que engavetou, ainda no início da dez, dois projetos da cineasta.
Depois da experiência de trabalhar na Mundo, onde dirigiu capítulos da romance “Verdades Secretas 2”, ela decidiu voltar ao cinema e tem um novo filme em produção, “Crocodila”, definido porquê um “body horror” e previsto para ser filmado só em 2027.
“Para uma diretora, e não quero ser vitimista, as circunstâncias de produção são mais demoradas do que a um varão. Condições de filmagem são mais reduzidas, o orçamento e o prazo de realização também e por isso as narrativas ficam mais contidas”, diz ela. “Do ponto de vista do capital, da economia do cinema, existe sim um ‘olhar feminino’ que molda uma gramática de produção”.
Gabriela reforça que secção de seu hiato se deve também à vagareza para levantar projetos quando eles vêm com a assinatura de uma cineasta. “Isso não me impede de continuar escrevendo ou filmando, mas ainda não está bom, nem a mim nem a muitas realizadoras talentosas que simplesmente não conseguem fazer seus filmes da forma porquê deveriam ser feitos. O cinema feito por mulheres ainda é um cinema de exceção, não de norma, mais ainda na América Latina. Estamos lidando com obstruções que moldam um tipo de cinema”.
