Às vésperas dos 90 anos que Woody Allen completa neste domingo (30), é quase impossível não indagar uma vez que será a comemoração. Viver 90 anos é sempre uma glória, quanto mais para alguém que proclamou publicamente seu terror da morte. Ou por outra, que disse textualmente: “Não tenho zero contra a morte. Só quero não estar presente quando ela chegar.” Um desses oximoros que fizeram a sua notabilidade, sem incerteza.
O problema que se impõe hoje é outro. Quem estará a seu lado no dia dos seus 90 anos? Sua imagem foi seriamente manchada desde que sua enteada, Dylan, o acusou de tê-la abusado sexualmente. A discussão sobre o caso durou décadas, tanto a jurídica uma vez que a midiática. Seria verdade ou a jovem teria sido influenciada por sua mãe, Mia Farrow, ex-mulher de Allen?
Em tempos de MeToo, ele foi cancelado. Atores que tiveram belos momentos trabalhando com ele, uma vez que Michael Caine, acharam melhor se distanciar. Atrizes, idem. As que ficaram com ele, sobretudo Scarlett Johnasson, não foram bem-vistas. Falavam de sua relação profissional com o cineasta e comediante. Nunca foram incomodadas por ele.
Com Diane Keaton era um pouco dissemelhante —nem valia a pena criticá-la. Viveu com Woody Allen, fez oito filmes com ele, e basta ver o que ele disse quando ela morreu. Por exemplo, ele não se importava zero, zero mesmo, com o que pudessem expressar de seus filmes. Só o que Keaton dissesse contava.
O escândalo arrefeceu, mas não quer expressar que não volte agora, nos seus 90 anos. Sempre haverá quem se lembre de um filme, “Manhattan”, em que um varão maduro —ele mesmo— se apaixona loucamente por uma jovem. E essa história Allen viveu ao menos uma vez na vida real, com Kristine Engelhardt, portanto uma jovem de 16 anos. O namoro inspirou o filme.
Nos Estados Unidos dos puritanos do Mayflower, isso seria por si um escândalo. Engelhardt, já senhora, disse que com Allen tudo muito, não se arrependia de ter estado com ele, que não lhe fez mal nenhum, foi muito bom.
Em prol dele, contava exclusivamente, a rigor, o indumento de Mia Farrow também não ser um primor de estabilidade. Tanto que, no meio da polêmica, passou a expressar que Ronan, fruto dela e de Allen, talvez não fosse fruto dele, mas de Frank Sinatra, de quem se divorciou em 1968, mas com quem continuou a manter um caso amoroso. “Caso furtivo”, uma vez que pontuou o cineasta.
Isso não impediu que ele fosse cancelado. Várias decisões judiciais contrárias não ajudaram o seu caso. O problema, porém, não para aí. Porque é muito mais difícil cancelar uma obra que o coloca entre os grandes comediantes do século 20 do que cancelar, digamos, Harvey Weinstein, o produtor.
O que fazer com tudo o que Allen produziu de relevante nesta vida? Jogar ao mar? É o mesmo que jogar fora boa secção da perceptibilidade americana, do humor judaico, do mito de Manhattan, exclusivamente para inaugurar.
Com comédias, dramas ou comédias dramáticas, Allen foi quem melhor esquadrinhou a complicação da vida sexual e amorosa —nesta ordem— nas grandes cidades da segunda metade do século pretérito. Anotou, compreendeu, mas também soube rir da adesão, muitas vezes exclusivamente fingida, às modas intelectuais que se sucediam na idade.
Naquele momento, ao contrário de hoje, o movimento era de libertação da sexualidade, com tudo o que isso pode trazer de prazer ou dissabor. Os tempos são outros, não há incerteza. Ainda assim, há alguma coisa de irônico no indumento de que, ao longo da vida, Allen nunca foi um personagem incerto.
Desde os tempos que escrevia para a TV, nos anos 1950, seu humor já se destacava. Outro comediante célebre, Mel Brooks, lembra que já na idade o texto cômico dos dois já era dissemelhante. Allen dava um tiro só, sempre na mosca, lembrou Brooks, enquanto o humor dele mesmo seria do tipo “chumbo grosso” —atirava para todo lado e uma das balas havia de chegar ao intuito.
O primeiro filme Allen que escreveu, “O Que É Que Há, Gatinha?”, de 1964, de patente modo confirma essa teoria. Mas o filme era de Peter Sellers e Peter O’Toole e de uma série de atrizes ilustres, a inaugurar por Romy Schneider, sem descrever o diretor, Clive Donner. Mas ali ele já introduzia um objeto-chave de sua escrita —a psicanálise.
A história ulterior dos dois no cinema confirma essa teoria. Desde “Um Bandoleiro Muito Trapalhão” (1969), sua primeira direção, Allen impôs o tipo do judeu fraco, mal-parecido, valoroso, perseguido e, ainda assim, capaz de ser bem-sucedido.
No filme seguinte, “Sonhos de um Sedutor” (1970), seu primeiro trabalho com Diane Keaton, foi exclusivamente roteirista e ator, mas já o ator principal —trapalhão, sem incerteza, mas também trazia ali o característico traço autoirônico. Em “O Dorminhoco” (1973), uma vez que em “A Última Noite de Boris Gruchenko” (1975), entre outros, Keaton já estava de novo ao lado de Allen. O título original do filme seria “Paixão e Morte” —os dois temas que mais inquietaram o cineasta ao longo dos anos.
Desses trabalhos nasceu a parceria, a amizade e mesmo o paixão entre ambos. A química entre eles pareceu absolutamente perfeita em “Nubente Nevrótico, Prometida Nervosa”, de 1977, onde Allen atingiu um dos pontos altos de seu humor em secção pela maneira discretamente sarcástica uma vez que olhava para a gente culta e um tanto esnobe de Novidade York, que a ele nem sempre parecia tão culta quanto apregoava. Essa comédia dramática —se assim é provável definir— recebeu quatro troféus no Oscar, sendo três para ele —filme, roteiro, direção— e um para Keaton —melhor atriz.
Pouco depois, com “Interiores”, de 1979, começa a tempo, digamos, bergmaniana de Allen. Mesmo que houvesse alternâncias com filmes menos pesados, demorou um tanto para o cineasta atingir um estabilidade entre a aproximação com os temas de Ingmar Bergman e a sua própria maneira muito menos grave de estar no mundo. É provável que o estabilidade entre o que Allen era e o que gostaria de ser tenha sido atingido no belo “Hannah e Suas Irmãs”, de 1986.
Quanto ao sexo, ninguém se preocupou em 1979 quando “Manhattan” abordou a paixão fulminante de um varão maduro por uma jovem. Ao contrário, a publicidade logo mitificou Margot Hemingway, a neta do jornalista Ernest Hemingway. O tempo acabou demonstrando que tantos os publicitários uma vez que Allen haviam incorrecto —Margot não era uma atriz muito talentosa.
Os filmes bem-sucedidos não pararam. Eram quase sempre provocativos no setor vida amorosa, e nele a fluidez verbal fazia lembrar Groucho Marx, que se articulava a uma mímica muito pessoal, em que euforia, depressão, mau jeito e sedução se acumulavam.
E perceptibilidade, também. Assim vieram “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985), “A Era do Rádio” (1987), “Tiros na Broadway” (1994), “Meia-Noite em Paris” (2012), entre outros. Ora existe evocação do pretérito, ora dos mistérios da geração. Ora mesmo, uma vez que em “Zelig” (1983), da capacidade de adaptação às situações que se apresentam.
E, diga-se, Allen soube adaptar-se uma vez que um rabino ao troada que veio no momento em que chegava ao termo o relacionamento com Mia Farrow e ele se preparava para matrimoniar com sua enteada (jovem) Soon-Yi Previn. Tudo começa em 1992. Vários processos judiciais ainda aconteceriam, Allen ainda ganharia um Oscar de roteiro original por “Meia-Noite em Paris” e um Mundo de Ouro honorário em 2014.
“Blue Jasmine”, em 2013, já traz um quê sombrio e evoca o teatro de Tennessee Williams, com mais humor. O sombrio se manifestaria plenamente em “Roda Gigante”, de 2017. Daí por diante, não havia Zelig capaz de contornar os processos perdidos, os cancelamentos, a impossibilidade de produzir.
Não importa que suas atrizes se recusassem, de modo universal, a expressar uma vocábulo contra ele. As portas fecharam-se. Mesmo a Amazon, que produzira “Um Dia de Chuva em Novidade York” (2019), decidiu não repartir o filme e cancelou um contrato para mais quatro filmes com Allen.
Atropelado pelo MeToo nos Estados Unidos, restou-lhe a Europa, a França em peculiar, que sempre o acolheu, e onde filmou o estranho “Golpe de Sorte”, de 2023, onde aplica em Paris o espírito de Novidade York. Tem humor, mas Paris não é Novidade York, uma vez que aliás lembrou Caetano Veloso em um belo samba —o humor saiu chocho, melancólico.
Com tudo isso, o patente é que Woody Allen chega aos 90 anos sem brilhos e bolhas, firme no conúbio com Soon-Yi, com uma bagagem invejável no cinema e na literatura e com o peso da delação de assédio sexual sempre sobre sua cabeça.
Ele pode expressar que não merecia isso, uma vez que Gene Hackman em “Os Imperdoáveis”. Mas o outro pistoleiro do filme, vivido por Clint Eastwood, respondia na lata: “Merecer não tem zero a ver com isso.” E bam!
