A primeira coisa que labareda a atenção em “Extermínio: O Templo dos Ossos” é a privação dos zumbis do filme. O silêncio impera nos bucólicos campos ingleses da história, um tanto excêntrico depois de tantas cenas de correria desesperada na série.
Os infectados desta vez são mero pormenor, fazendo o manobra de figuração curiosa em um filme que troca a marcha da franquia. Depois de três capítulos de muita adrenalina e zumbis corredores, o quarto “Extermínio” movimenta o suspense à base de alguma introspecção, usando cá e ali uma quantidade considerável de baldes de sangue.
A aposta está mais para o intrigante do que para uma boa teoria exatamente, mas vale a princípio pela surpresa. Até porque o filme dirigido por Nia DaCosta usa a mudança para se soçobrar numa trama que flerta com a filosofia de término dos tempos, ancorada em dois personagens com visões de mundo únicas e zero ortodoxas.
Da dupla, o mais interessante é o doutor Kelson, o simpático médico vivido por Ralph Fiennes e apresentado no capítulo anterior, “A Evolução”, do ano pretérito. Espírito caridosa, o médico banhado em iodo vive a epidemia numa incoerência diária de termos. Ele administra o tal templo dos ossos do título, sua espécie de monumento à morte, mas cuida de todos os que encontra na região —incluindo infectados.
O pragmatismo de Kelson, fundamentado na ciência da antiga profissão, o ajuda a manter a crença de uma manutenção da ordem diante do caos da infecção zumbi. O que dá em valores muito opostos aos de Jimmy Crystal, vilão que serve de outra metade da laranja na prolongamento e que é de longe o personagem mais carnavalesco dos filmes de “Extermínio”.
Líder de uma gangue de crianças que vestem agasalhos esportivos e perucas loiras, Jimmy passa os dias caçando e matando sobreviventes. O psicopata interpretado por Jack O’Connell segue à risca um código de cavalaria às avessas, inventado por ele mesmo e que exige sacrifícios humanos numa base diária. O seu ídolo é o Diabo, que ele louva em razão própria —o vilão toca o caos também para manter a ordem, no fundo.
Dessa dualidade inesperada entre um satanista e um ímpio, “O Templo dos Ossos” se façanha por testes de fé inusitados. Enquanto Jimmy vê o seu douto de crianças rachar por uma série de erros e contratempos, Kelson se depara com um zumbi que dá sinais de consciência em seu estado animalesco.
A mistura parece boa no papel, mas se mostra uma aposta burocrática a cada desdobramento. O roteiro escrito por Alex Garland move os dois núcleos sem exalo, escondendo mal o roupa de que a história de Jimmy está matando tempo na trama maior da trilogia que ele planejou com Danny Boyle para as sequências de “Extermínio”.
Nisso labareda a atenção a pobreza visual do filme, com Nia DaCosta dirigindo uma prolongamento de pouquíssima invenção no departamento. “O Templo dos Ossos” foi filmado logo em seguida ao predecessor, mas da dupla só “A Evolução” resgata a sede do original por uma estética diferenciada, ao aproveitar todo o potencial das câmeras do já ultrapassado iPhone 15 Pro.
Já o quarto filme foi filmado inteiro com câmeras digitais tradicionais, com DaCosta preferindo uma sequência nos mesmos termos. O longa frustra pelo rigor acadêmico, que deixa evidente a produção uma vez que capítulo do meio, e empalidece na confrontação com os anteriores —incluindo aí os trabalhos da própria diretora, que fez uma adaptação surpreendente de “Hedda” no ano pretérito.
Em meio à turbulência, a boa notícia é que “O Templo dos Ossos”, uma vez que “A Evolução”, se diverte nos conceitos que inventa para a série. O tal infectado revelado por Kelson, por exemplo, é fácil a segmento mais divertida do filme, rendendo momentos fascinantes.
O monstro imenso, apropriadamente chamado de Sansão, passa a visitar o bom doutor com frequência para permanecer chapado com os dardos tranquilizantes que Kelson usa para se tutorar no dia a dia. O médico solitário, por sua vez, descobre aí uma forma de fabricar um camarada no término do mundo, e os dois passam a explorar felizes a situação.
A relação gera um par de cenas insólitas, uma vez que a deles sentados drogados na relva, encarando o horizonte, ou dançando ao som de Duran Duran, quase uma vez que dois hippies chapados de LSD.
Nestes momentos, o filme se descola do roteiro de Garland e acha um trunfo na atuação de Fiennes, que volta a se divertir —e a se sobresair— com a personalidade excêntrica do médico. O protagonismo do ator, espelhado no seu protagonismo na história, salva “O Templo dos Ossos” da própria incompetência.
