Raoul Peck faz filme metralhadora e aponta a Trump e Putin

Raoul Peck faz filme-metralhadora e aponta a Trump e Putin – 11/02/2026 – Ilustrada

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A princípio, “Orwell: 2+2=5” pode levar o testemunha a crer que se trata de um documentário sobre a vida e a obra de George Orwell, responsável de distopias e sátiras políticas, uma vez que “A Revolução dos Bichos” e “1984”. Não é muito sobre isso, porém, o filme dirigido por Raoul Peck.

Porque o longa é fundamentalmente um tentativa sobre o mundo atual a partir do olhar do diretor, embora amparado em uma matriz analítica que Peck toma emprestada de Orwell. No filme, a narração em off é toda orwelliana, reproduzindo textos escritos pelo responsável britânico. Menos que para falar sobre ele, porém, o que é dito serve antes uma vez que limite para o que o próprio cineasta discorra sobre uma vez que percebe nossa sociedade hoje.

Sim, o filme reconhece a grandeza de Orwell e exalta sua perspicácia em intuir o porvir e expô-lo em suas principais obras de ficção. Aliás, a tese de Peck é essa, quase que uma vez que um Nostradamus, Orwell detectou antes de todo mundo o que estava por vir. Leia-se, totalitarismo por toda secção, vigilância uniforme sobre as pessoas comuns, a imposição de mentiras uma vez que sendo verdades. Parecia que tinha globo de cristal.

Propriamente sobre Orwell, o mais curioso do filme é mostrar que o responsável usava a mesma implacabilidade em sua estudo sobre o mundo para falar de sua própria história. “Escrevo para denunciar mentiras”, Orwell dizia, destacando que o que fomentava sua geração era um sentimento de injustiça. Fazia isso delatando as vilezas dos grandes vetores da história, mas, no longa, vemos que também o fez consigo mesmo –e com a classe média de onde veio.

Ele relembra quando viveu na Birmânia, hoje Myanmar, na juventude, uma vez que policial naquela logo colônia britânica. Só de volta à Inglaterra é que se deu conta de que tinha contribuído para uma engrenagem desumana, bárbaro, e sentiu peso na consciência. Era assombrado por alguns rostos. “Os subordinados que oprimi, os camponeses que desprezei e os servos que esmurrei.”

Logo no primórdio do filme, vemos uma retrato do noticiarista ainda bebê, quando morou com os pais, colonos na Índia, repleto por sua babá indiana. Uma mulher de olhos sisudos, entre a tristeza e a vacuidade, que reaparecerá no filme nessa mesma foto já perto do término. Será o olhar que representará a consciência do testemunha diante de um sistema de vida massacrante do qual todos fazemos secção.

Quando Orwell sai do núcleo e se torna a rede de base, Peck assume o comando, com próprio atenção à montagem paralela –o tipo de edição em que duas cenas se alternam de modo que haja, entre elas, qualquer tipo de espelhamento ou de relação simbólica. E o cineasta utiliza esse princípio no universal com eficiência, ainda que algumas de suas ilações sejam discutíveis. Mas o que importa é que ele tem um ponto –e que ele sabe uma vez que defendê-lo, gostem-se ou não de suas inferências.

O saco de pancadas principal do cineasta são os governantes autoritários, com predileção por Donald Trump e Vladimir Putin. Mas seu filme-metralhadora mira para vários outros alvos, em universal os que burlam a verdade, das fake news à IA, passando pelas nomeações eufemísticas para práticas obviamente opressoras, uma vez que a “operação militar próprio” de Putin, que zero mais é que invasão da Ucrânia.

Sem recontar as mentiras deslavadas tão repetidas para a população que, muitas vezes, se tornam “verdades” –o erro matemático do título do filme, que inspirou Caetano Veloso na bela música “Uma vez que Dois e Dois”, é uma referência ao opressor que ensinava em “1984” que 2 + 2 = 5, e ponto final. Muita gente, por término, acaba acreditando piamente nisso.

Peck denuncia o quanto forças extragovernamentais também atuam no sentido de manipulação e domínio da grande tamanho humana. Destaca grupos poderosos que concentram em suas mãos veículos de mídia e teor mundo afora, citando nominalmente Rupert Murdoch, do conglomerado Fox, Jeff Bezos, da Amazon, e até a família Marítimo, das empresas Mundo. Seriam grupos que se encaixariam no que Orwell dizia sobre os que “não querem que o varão geral se torne muito inteligente”.

Até que ponto o mundo já não sempre foi assim, com unicamente a tecnologia reformulando as formas de dominação, e encontrar que Orwell previu alguma coisa não passa de uma espécie de viés de confirmação dos admiradores de sua obra? Mesmo se for o caso, o proporção de acerto do noticiarista é de traje espantoso, e o filme nos apresenta isso com transparência.

Peck é um diretor de clarão intelectual e um varão que se posiciona com firmeza em sua obra, a exemplo do documentário “I Am Not Your Preto”, de 2016, sobre James Baldwin, e mesmo a ficção “O Jovem Karl Marx”, de 2017. E é o que ele mais uma vez faz cá, atestando o que dizia Orwell sobre a geração: “Nenhuma obra é genuinamente livre de viés político. Ser da opinião de que a arte não deve ter nenhuma relação com a política já é, em si, uma atitude política.”

Folha

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