Na tradição cristã, o Novo Testamento marca a passagem entre uma antiga ordem e uma novidade coligação, associada à teoria de transformação, salvação e renovação de valores. Mais do que substituir o Macróbio Testamento, ele simboliza uma mudança de perspectiva sobre o mundo e sobre si mesmo. Ao escolher esse título para seu último disco, a rapper Ajuliacosta evoca justamente essa teoria de viradela pessoal e artística. “O disco traz essa minha passagem de uma moçoila para uma mulher”, afirma.
Na música “Acorde”, ela resume essa transição ao trovar: “o Novo Testamento é um movimento/ onde sujeira não fica embaixo do tapete/ onde tudo que se patroa é posto à prova/ onde hábitos de sempre já não cola”. Esse movimento, que passa por São Paulo nos dias 7 e 8 de março no Cine Joia, vem consolidando Ajuliacosta entre as vozes mais relevantes da novidade geração do rap brasiliano. Os shows contam com participações de NandaTsunami, Slipmami, Ciça e CAE.
Lançado em setembro, “Novo Testamento” é o segundo disco da rapper paulista e reúne 11 faixas que transitam entre o boombap e o rap clássico, incorporando referências de artistas uma vez que Liniker e Racionais MC’s.
Embora diga apreciar o trap, Ajuliacosta conta que buscou, neste trabalho, fugir da repetição estética que domina segmento da cena. “Eu senhoril trap, mas às vezes algumas coisas ficam repetitivas. Porquê ouvinte, eu queria alguma coisa novo”, explica. “Queria trazer outra sonoridade, outro matéria. Fazer alguma coisa que fizesse as pessoas pensarem.” Em “Toc, Toc, Toc”, ela sintetiza essa sátira: “O algoritmo do trap me deixa no tédio/ Pra ouvido doente, Ajuliacosta é remédio”.
Antes mesmo de se firmar na música, a artista já demonstrava vocação empreendedora. Aos 17 anos, criou a Ajuliacostashop, marca de roupas inspirada na estética do hip-hop. A relação com a voga vem da família —a avó costurava e o bisavô era alfaiate— e começou de forma espontânea, quando passou a produzir peças para colegas de escola. Hoje, a marca se tornou uma extensão oriundo de sua identidade artística.
A escrita sempre foi o eixo medial de sua trajetória. Desde muchacho, Ajuliacosta acumulava cadernos cheios de textos e reflexões —prática que acabou a levando à música. “A escrita sempre foi meu refúgio”, diz. “Quando conheci o rap, percebi que ali eu podia falar de tudo.”
No novo álbum, esse impulso aparece em letras que abordam paixão, espiritualidade, autoconhecimento e sátira social. A artista também discute as desigualdades enfrentadas por mulheres no rap, um gênero historicamente escravizado por homens. “A gente ainda não chegou ao mesmo patamar deles”, afirma. “Ganhamos menos, precisamos provar mais.”
Em “Novo Testamento”, Ajuliacosta também compartilha estratégias de sua procura por autoconhecimento. Em “Pense uma vez que uma Diva”, transforma a autoestima em prática cotidiana, defendendo a relevância de buscar as próprias referências e sustentar suas ideias mesmo diante das dificuldades. A repetição do verso “mesmo que na merda, pense uma vez que uma diva” sintetiza essa postura.
À Folha, ela diz que a autoestima é “um tirocínio quotidiano, principalmente para mulheres negras”, e que o caminho passa por “valorizar o que eu já tenho em mim e potencializar o que eu já sou”.
Na mesma fita, a rapper dialoga com as raízes do rap ao fazer referência aos Racionais MC’s. Os versos “De indumento, cê não sabe uma vez que é caminhar/ num salto número 15 e teoria para trocar/ metralhadora de rima, faço o amargo virar mel/ estraçalho misógino que nem papel” ecoam “Quotidiano de um Detento”, em que o grupo cantava: “Você não sabe uma vez que é caminhar com a cabeça na mira de uma HK/ metralhadora alemã ou de Israel/ estraçalha ladrão que nem papel”.
Já a fita mais introspectiva, “Quero Saber”, revela vulnerabilidades pouco exploradas em seu trabalho anterior e dialoga com “Caju”, de Liniker, música sobre alguém permanecer ao seu lado mesmo conhecendo suas camadas mais íntimas. O disco também inclui “Dharma”, inspirada no noção budista de seguir o fluxo da vida. “Esse álbum é muito sobre reflexão”, diz. “Sobre entender quem eu sou e o que eu sabor.”
Nascida em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, Ajuliacosta cresceu cercada por referências que hoje atravessam sua obra. Foi na juventude, em contato com a cultura de rua, que descobriu o rap uma vez que linguagem para transformar a escrita em música. Frequentadora de batalhas de rima e influenciada pela tradição do hip-hop paulista, começou a lançar suas próprias faixas de forma independente.
Apesar das dificuldades, a artista acredita que a novidade geração de rappers mulheres está ampliando seu espaço na cena. Para ela, a força desse movimento está justamente na inconstância de narrativas. “Cada mulher conta a sua história de um jeito”, diz. “E isso é muito poderoso.”
Nos últimos anos, o reconhecimento tem escoltado esse propagação. Ajuliacosta foi eleita artista revelação de 2025 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e venceu o prêmio de Best New International Act no BET Awards, uma das principais premiações da música negra internacional. A conquista também a levou pela primeira vez aos Estados Unidos, onde visitou lugares históricos do hip-hop em cidades uma vez que Novidade York e Los Angeles.
Mesmo com a projeção crescente, ela diz tentar manter os pés no solo. Para Ajuliacosta, a chave da curso está em preservar a própria origem. “Ser leal a si mesmo é separar a percepção da paranoia”, afirma. “É se manter perto do que você acredita, mesmo com tanta informação e pressão.”
