Raul seixas, que faria 80, revive em série, shows e

Raul Seixas, que faria 80, revive em série, shows e mostra – 25/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ravel Andrade estava em estúdio gravando uma cena da série biográfica “Eu Sou”, na pele de Raul Seixas. Ao término da performance, o produtor Kassin, responsável pela segmento músico da produção, deu um toque no ator. “Ravel, o Raul faz o ré com o dedo mindinho nessa nota cá”, disse, ajustando o acorde no violão para manter a verossimilhança.

Esse nível de pormenor nas cenas que incluem performances musicais é uma das preocupações de “Raul Seixas: Eu Sou”, que chega ao Globoplay nesta quinta-feira (26), com oito episódios. É também a razão da série, com geração de Paulo Morelli, que divide a direção com Pedro Morelli, ambos da O2 Filmes, ter escalado um ator que também é músico, caso de Ravel.

Além da semelhança física, ele compõe e toca, um tanto que, segundo Pedro, foi fundamental para as cenas de Raul em ação não só nos palcos, mas compondo. “São várias das melhores cenas da série, na minha opinião”, ele diz. “Não daria para fazer playback do rosto fingindo que está compondo. Ele vai errando, aquilo é totalmente improvisado.”

A série é baseada em livros, entrevistas com pessoas que conviveram com Raul e também no baú mantido por Kika e Vivian Seixas, viúva e filha do músico baiano. A produção do Globoplay é a primeira de diversas iniciativas —incluindo shows, exposição e um documentário— relacionadas à família Seixas para homenagear o Maluco Formosura, morto em 1989, na ocasião em que ele faria 80 anos.

Além de fazer Ravel tocar exatamente uma vez que Raul, a série mesclou na edição as vozes do ator com a de Tony Gambel, cantor maranhense publicado por ter um timbre muito parecido com o do baiano. Músicos que tocaram com Raul também colaboraram com a produção.

Paulo Morelli, pai da série, se inspirou numa enunciação do roqueiro baiano —”sou um ator tão bom que finge que sou compositor e poeta e todo mundo acredita”. “Fui percebendo que ele criava personagens”, diz o codiretor. “E que o núcleo seria narrar a história de um pai e uma pessoa. O Raulzito, antes da reputação, cria o Raul Seixas para ser famoso e acredita que tem de ser radical para ser um artista de verdade. Leva essa teoria ao extremo, ao ponto de matar o pai.”

Nessa história, de “uma pessoa que mata o pai ao mesmo tempo que o imortaliza”, segundo Paulo, há algumas liberdades criativas. O Raul de “Eu Sou” vê discos voadores e encontra figuras uma vez que Elvis Presley, Lampião e Jesus Cristo, que permeavam seu imaginário. Também vai até a moradia de John Lennon —história que ele contava, mas não há evidência de que foi mesmo verdadeira.

Os diretores dizem que a série não tenta proteger Raul e mostra a derrocada dele com o álcool —estação em que, segundo relatos, bebia 23 horas por dia. “Ele não tirava o pé do radicalismo, e a gente vai ver isso pelas drogas, sim, e muito pelo álcool”, afirma Paulo. “Isso foi destruindo o corpo dele. Portanto a série mostra isso e não alivia.”

Dois dias depois da estreia de “Eu Sou” no Globoplay, na data do natalício de 80 anos de Raul, leste sábado (28), acontece uma edição do “Baú do Raul”, show em que outros artistas interpretam as músicas do baiano. No Circo Voante, no Rio de Janeiro, nomes uma vez que Frejat, BNegão e Ana Cañas subirão ao palco para dar vida a esse cancioneiro.

“O primeiro Baú do Raul aconteceu em 1993. É um projeto feito há muito tempo por minha mãe, Kika, em que também estou ajudando”, diz Vivian, sobre o show, que também terá edições em São Paulo e em Salvador.

A filha de Raul, que é DJ, preparou ainda um outro espetáculo para homenagear o pai. Ao lado de Paula Chalup, também DJ e produtora músico, ela fará o “Rock das Aranhas Live”, que estreia no festival Rebuçado Maravilha, em setembro, no Rio, com “uma transmutação de Raul Seixas para sonoridades contemporâneas”.

“Não é um projeto de música eletrônica. É um projeto audiovisual para fãs do Raul”, ela diz. “Estamos masterizando e remixando as músicas, dando um toque mais moderno, mas sem descaracterizar a obra. Vamos pegar entrevistas, fotos e vídeos e projetar enquanto fazemos essa apresentação.”

Haverá também no “Rock das Aranhas” uma versão do próprio Raul recriado por lucidez sintético, pelas mãos de Bruno Sartori, perito na tecnologia. O cantor vai surgir “falando e cantando, para emocionar o público”, ela diz. “Também vou narrar histórias. É um espetáculo —com duas DJs, sem orquestra.”

Vivian conta que os tributos a Raul incluem um documentário, ainda em temporada de captação de recursos, no qual ela vai a Salvador passar por lugares onde o pai esteve e falar com gente com quem ele conviveu. Será o “olhar de uma filha que perdeu o pai aos oito anos de idade”.

O material da família Seixas também será a base da exposição “O Baú do Raul”, que abre no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, em 11 de julho. Com curadoria de André Sturm, também diretor do museu, a mostra terá roupas, manuscritos de letras, instrumentos e centenas de materiais de Raul.

Os itens, que também incluem objetos da coleção de Sylvio Passos, companheiro e fundador do fã-clube solene de Raul, serão concentrados principalmente no primeiro marchar, divididos tematicamente por sucessos do artista. São 13 espaços, cada um correspondente a uma música, uma vez que “Ouro de Tolo”, “Gita”, “Eu Nasci Há 10 Milénio Anos Detrás” e “Mosca na Sopa”.

“Cada envolvente tem uma cenografia que é composta por uma ambientação e objetos relacionados àquela música e àquele momento”, diz Sturm, afirmando que a exposição não será baseada na cronologia da curso do artista. “Portanto vai ter, digamos, uma foto daquela estação, um objeto daquela estação, enfim, a gente usa as músicas uma vez que o eixo da narrativa do Raul.”

No segundo marchar, o visitante encontrará todos os álbuns de Raul e poderá deslindar pérolas menos conhecidas do repertório do cantor. O terceiro piso trará atividades imersivas, em peculiar um cenário de estúdio e um camarim, em que as pessoas terão a oportunidade de se vestir uma vez que o Maluco Formosura e gravar em vídeo uma performance cantando músicas dele.

Segundo Sturm, além de ampliar o interesse por Raul, a mostra quer despertar um tanto mais subliminar nos visitantes. “Ele ironizava e criticava diversos elementos da sociedade, né? Mas sempre em tom de deboche, não para pôr para plebeu, mas fazendo perdão, mostrando o ridículo. Espero que vejam que dá para você criticar, tirar sarro, fazer piada, sem que ninguém precise permanecer ofendido e querendo te matar ou te perseguir por culpa disso.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *